sábado, 7 de junho de 2008
No pain, no gain? I´m asking
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Ódio ao telefone
Atendido pela pessoa certa é sempre. Quando ligo para casa de alguém quero que o amor me atenda. Mas acontece do ódio querer atender. E não tenho mais educação. Os bons modos me plastificaram e fui parar na geladeira, num zip lock. Não mais.
Agora sou nua e mal educada, como uma boa moça no auge de suas vontades. O ódio atende e eu desligo. Mas o telefone celular, esse aparelhinho desgraçado de caça às bruxas, não pára de falar. O ódio é poderoso e a voz continua a dizer:
- Alô, alô.
Não resisto, não consigo. Sou mal educada e fraca de cabeça. Atiro o telefone pela janela. O impulso que faço com o braço é olímpico. Meus ombros se movimentam como se movimentariam na Atenas antiga. Mas ainda me sinto na cova dos leões quando vejo que o telefone caiu em outro prédio - e de longe posso ver que caiu na portaria do prédio na frente do meu.
Sim, se sou olímpica, tenho um olhar poderoso.Moro grande, com árvores plantadas e podadas todos os dias pela tesoura do crescimento organizado, por ordens do plano diretor.
O telefone cai em outro prédio grande. O porteiro vê o aparelhinho com a luz acesa no chão e fica ressabiado. Pensa em levantar da sua cadeira de vigia e bisbilhotar o telefone voador. Levanta seus sapatos de quatro ônibus por dia e pega o telefone nas mãos. Antes mesmo de colocá-lo no ouvido, ouve:
- Filho da puta, como não responde? Desgraçado, sua vida é de inferno.
Ao ouvir o ódio falar, o porteiro, calmo até então, feliz com as horas extras que a noite lhe paga, se transforma. Odioso fica e sobe nas paredes. A portaria não tem mais chão ou teto. Ele anda como uma aranha com sede de matar. A portaria tem uma arma. Disseram-lhe que o mundo anda violento. Justo pra ele?
“Mas use com cuidado, seu pobre ignorante, para não criar problemas”, avisaram-lhe. “Pobre ignorante odeia e quer matar”, pensa o porteiro. O celular está na bancada falando coisas que só o ódio fala. Pega a arma, abraça com as mãos, com quase-carinho.
-Corno, filho da puta, fala se for homem. Me encara se tiver colhões.
Seus olhos estão tão vermelhos que até o espelho quebra para não olhar a cor do ódio, não reconhecer que ela existe. Ele sai da portaria, chama o elevador e vai de andar em andar, atirando em todos os moradores que vê. Ninguém reage ao ódio inesperado. Ele mata a todos no prédio. Invade apartamentos. Atira na cabeça para matar sem tempo de ter história. Sem testemunhas para noticiário de tevê. Atira o que o ódio lhe atirou. Tira da arma as balas e as coloca no próximo passo da vida dos outros, o fim.
Depois de matar todo o prédio e de ter visto mais sangue que o vermelho dá conta de ser, volta para portaria, onde encontra o aparelhinho odioso e com a mesma força no ombro que eu tive, com o mesmo impulso dos meus braços atira o aparelho para o outro prédio.
Continuo na minha janela, com minha visão olímpica. O aparelhinho vai parar em outra portaria. E antes que eu pudesse imaginar o que aconteceria por lá, o prédio que morreu, cai, desaba. Vai ao chão, assim como em filme. Ruiu. Todos estavam mortos e morreram de novo. Ou pelo menos já morreram mortos, o que deve ser menos dolorido. O porteiro, que tomou a morte nos ouvidos e nas mãos, morreu embaixo de todos eles. Morreu como viveu, embaixo, à beira, à margem, vigiando o sono, enfrentando perigos para que os mortos de agora dormissem em paz.
O porteiro do outro prédio sai correndo assim que vê o aparelhinho que não quebra cair no jardim na frente da portaria. Eu penso:
- Esse é mais apressado. Quem sabe é mais forte e resistirá ao ódio.
Ele pega o aparelho nas mãos e ouve:
- Vagabundo, vadio, puto desgraçado. Não vai falar nada não, seu corno do caralho?
O porteiro fica ouvindo por alguns segundos. E eu também. Minha audição é sensível ao ódio, por isso ouve de tão longe. E mais: não preciso explicar isso.
Alguns minutos de ódio verbal, o porteiro chuta a porta de sua jaula e pega uma arma, que esse prédio, por prevenção, também tem. Entra no elevador e começa de baixo, tiros do primeiro ao décimo quinto andar. Nem cachorro se salvou. As cenas não o chocaram. Queria todos mortos, se não fosse pelo ódio do telefone, que fosse pela doçura de suas balas. Depois de todos mortos ele vomita o sangue que derramou.
Volta à portaria e com muito mais força que eu e o primeiro porteiro atira o celular bem longe. Ódio voa. E mais uma vez eu vejo: o prédio cai. Cai de ódio. Ódio derruba, destrói em série e isso não é filme. Roteiro nenhum e nem sequer som. A morte de todas essas pessoas em prédios bem próximos ao meu e nem um grito ouço eu. Nada. Sem lamento. O ódio não aceita lamento, é intolerante. Ódio impiedoso. Morram, não chorem, não lamentem e morram duas vezes, pois seu prédio vai cair.
E eu, da minha janela assisto a mais um porteiro morrer soterrado embaixo de palácios em caixas.
-Tchau porteiro, penso eu. O ódio é seu e não mais meu.
Mas a essa altura o celular abominável já está no terceiro prédio. Onde o porteiro dormia e sonhava com focas, sim! Queria ver uma foca um dia. Morreria sem ver uma, o desgraçado. Ele acorda ao barulho da queda do aparelho, põe ao ouvido e ouve:
-Você me subestimou, agora acabo com você, seu canalha.
É o primeiro porteiro a se assustar. As pernas tremem, ele nunca foi muito forte, ouvi dizer e não conto de quem. O medo lhe rasga a alma. Ele não agüenta a voz do ódio, pega mais uma arma na portaria e se dá um tiro ao ouvido. O barulho estridente que penetra seus tímpanos é ampliado em pelo menos um milhão de vezes. E o prédio também cai. Cai ao barulho estridente, cai demolido de sons. E mata pessoas vivas. Essas morreram vivas, penso eu, da minha janela de vidro, que nem sequer uma rachadura tem.
Ele morreu e o celular continua falando ao seu lado. Sem dó.
A visão que tenho agora é de que o centro da cidade, pelo menos três ruas abaixo, foi praticamente destruído. Um buraco negro de vida se abre bem à frente do meu prédio. Buraco de vida é morte, sabia? Buraco de amor é ódio sabia? Quem mandou o ódio atender ao telefone?
Ainda na janela vejo um homem. Um homem iluminado, que não sei por que me parece com Deus. Não que tenha visto Deus um dia. Tenho visto muito ódio para ver Deus. Mas o cara é Deus e vem subindo as ruas, olhando os prédios caídos e balançando a cabeça, em sinal de reprovação. Prova de que ele é Deus é que ele desliza e não anda. Plaina sobre o que sobrou de rua. E vem com o celular na mão. Agora desligado. Deus desligou o celular de ódio e caminha sóbrio em minha direção. Um piscar de olhos e ele toca minha campanhia. Eu abro e ele é Deus. Olha pra mim e eu digo:
- Shhhhhhhhhh, silêncio.
terça-feira, 3 de junho de 2008
UM CONTO ERÓTICO, NÃO FOSSE.....
Deitar em cadeira de praia não é das tarefas mais confortáveis, mas é com certeza, compensadora. Meus pés? Escondi na areia, cavando um buraquinho só pra mim. E torrei ao sol por alguns minutos. Estava batendo a sede. Abri os olhos e olhei para o lado. Ele ainda lá, com seu sorriso torto e assim, meio incerto. Levantei para buscar água. Dei uma olhadinha pra ele, aquele olhar “cuida das minhas coisas pra mim” e ele piscou, ok! Fui pulando pela areia, que mesmo de chinelo, queima a sola do pé, até o quiosque da praia. Quer saber? Nada de água, pedi uma caipirinha e voltei para minha cadeira. Mais um sorriso para agradecer ele ter “olhado” minhas coisas. Ele pareceu sem graça.
Sou assim, não facilito para mim mesma, nem para os outros. Levantei o assento da cadeira e sorvia minha caipirinha com o mar todo à minha frente. Pensei comigo: não posso nunca estar feliz. Besteira, nem sei se pensei isso mesmo.
Ele finalmente se aproximou. Eu tinha certeza de que acabaria fazendo. Alguns homens são assim, parecem que não, mas se atiram.
-Vem sempre nessa praia?
- Nunca, sou de São Paulo.
-E está gostando?
-Adorando.
Bem, até ali o papo básico de quem se conhece na praia. Achei que não iria dar em nada mesmo. Mas ele continuou sentado ao meu lado, jogando conversa fora. Ofereci um gole da minha caipirinha, ele aceitou. Opa, estávamos dividindo uma caipirinha e eu nem sabia seu nome.
- Luca, meu nome é Luca.
- Lindo esse nome. Que bom te conhecer Luca.
Sou honesta quando gosto de ver alguém. Ver mesmo. Ele era uma figura agradável, um cara gostoso de olhar e pouco a pouco se mostrava gostoso de estar junto também. Falamos sobre Rio, São Paulo, Fidel renunciando, cinema brasileiro, ter trinta anos solteiro, quem tem ou não filhos, carreira, dinheiro. Isso mesmo, tudo isso assim, em tão pouco tempo.
Não, não tinha a sensação de que o conhecia faz tempo. Dizer isso seria mentira. Tinha a exata sensação de que o conhecera ali, naquele instante e que estava sendo um prazer descobrir alguém tão interessante.
-Vamos dar um mergulho Luca, convidei.
Ele topou e caminhamos até o mar juntos. Caminhar de biquíni na praia não é meu forte, mas estava bem. Mergulhamos algumas ondas, passamos a rebentação e ficamos um tempo conversando também dentro do mar. Bom isso! No mar, onde a profundidade não dava pé, nós dois quase sem fôlego conversando, bem perto um do outro. Podíamos ficar ali o dia todo, não fosse o sol tão forte.
- Vamos sair Luca, o sol esta muito forte.
Ele fez que não ouviu e chegou mais perto, com o rosto bem próximo ao meu.
-Vamos sair? O sol está muito forte, vamos para o meu guarda sol, eu disse mais uma vez.
Ele aproveitou a proximidade e me beijou. Um beijo de sal de mar, dado por uma boca torta e um tanto triste. Eu beijei também, mas não abracei. O fim do beijo foi sorriso, meu e dele.
Saímos então do mar, sem dizer nada. Tínhamos nos beijado. Fui andando a passos pesados para o guarda-sol, passos de sal de mar, de areia, de muito sol e de um beijo roubado, que dizem ser o melhor. Foi bom. Apaixonante para dizer a verdade.
Ele nem sentou na cadeira, correu ao quiosque e pediu duas caipirinhas. Voltou e me deu uma.
-Vamos beber um pouco? Sugeriu, tímido.
-Vamos beber um muito!, Eu, oferecida.
E a caipirinha não durou mais que cinco frases cada um para decidirmos que o horário de praia tinha acabado. Não mais por hoje.
-Vamos comigo para casa, ele não sugeriu, convidou.
-Vamos.
E comecei a arrumar a bagunça de coisas que estavam esparramadas em volta da minha cadeira. É assim, eu trago para praia tudo o que preciso e um pouco que não preciso também. Assim fico segura de que o dia será apenas de sol. Sem grandes trovoadas e chuvas desavisadas.
Fomos andando até o carro dele. Eu até pensei em ir para o hotel, que era logo ali na frente me trocar. Mas não. Na verdade eu nem conhecia o Luca direito, mas queria ir exatamente onde ele me levasse e assim mesmo como eu estava vestida.
Entrei no carro.
-Luca, para onde estamos indo.
-Minha casa. Vamos fazer algo para almoçar. Vamos almoçar juntos não é?
- Vamos sim.
Ele pegou uma avenida, que acho ser a Copacabana! Estava no meu primeiro dia no Rio da Janeiro. Na verdade ainda não conhecia nada.
Ele colocou um cd que adoro, mas que não sei o nome. E achei melhor não perguntar. Detesto essa coisa de “ah, adoro esse cd, quem está cantando mesmo?”. Fui ao embalo da música de desse novo personagem, o Luca.
Em 10 minutos de uma linda paisagem chegamos a uma viela. Ele mora numa vielinha com umas 10 casas. Entrou com o carro na garagem e pediu que eu descesse e me sentisse à vontade. A casa era charmosa, cheia de cores, de toques pessoais. A sala tinha cara de quem recebe amigos amados. A cozinha, aquele cheiro de quem cozinha com gosto para amigos gostosos. Sentei no sofá, um tanto encabulada. Ele sentou perto de mim, me deu um beijo grande, forte, profundo. Me abraçou como se uma onda forte viesse em minha direção e ele quisesse me proteger. Ficamos ali no sofá, nos beijando por algumas horas. Nada de sexo. Nos beijávamos e falávamos sobre alguma coisa que provavelmente era besteira, mas que pra nos dois fazia um monte de sentido. Ainda tinha a sensação de tê-lo conhecido há pouco. Mas era bom.
Não sei por que, bem ali, no sofá de um estranho que acabara de conhecer na praia, senti vontade de chorar. Não chorar drama, chorar charme, de muita emoção. E quando sinto vontade de chorar, impossível segurar. Chorei. Agüei. Chovi. Inesperadamente ele não me perguntou por que eu chorava e não achou estranho. Sentou de frente pra mim, segurou uma de minhas mãos e sorriu, como se estivesse feliz por eu estar chorando. E era mesmo para estar. Eu choro bem.
Ele é bonito, pensei. E era mesmo. Tem um sorriso torto, mas é bonito pacas. E como se adivinhasse o que eu pensava, ele enxugou minha lágrima e me beijou mais uma vez. Longo. Muito longo. Quando percebi estava na cama dele. Medo. Enquanto estávamos só nos beijando eu ainda podia ver seu sorriso. Na cama não podia mais. A cara dele era de sério. De quem quer se concentrar. E eu não gosto de sexo concentrado. Prefiro diluído mesmo. Com muita água. Brequei os avanços do corpo dele. Não queria assim, transar loucamente depois das lágrimas. Até então estava achando a companhia dele realmente legal, não queria que a tarde se tornasse previsível.
-Nos não íamos comer alguma coisa? Estou morrendo de fome.
Bingo, ele é sensível. Levantou-se imediatamente e disse:
-Vamos sim, lógico.
Fomos para cozinha. Adoro cozinhas coloridas, com balcão para sentar e conversar enquanto se prepara a refeição. Sentei num banco alto e deixei que ele pilotasse o fogão. Abriu uma garrafa de vinho branco, gelado no ponto. Pensei “tem gosto para vinho, um bom sinal”. Perguntou se eu gostava de pasta alho e óleo.
- Acertou em cheio!
Na verdade tinha acertado em cheio em tudo até então. Mas não queria exagerar nas palavras e nem dizer a ele o quanto amo macarrão. De leve.Enquanto ele cozinhava, nos bebíamos vinho e nada de silêncio. A conversa era agradável, a casa agradável, ele quase perfeito e eu me sentia bem.
- Você está no Rio a trabalho?
-Não, não conhecia o Rio e decidi vir sozinha, e apesar de ter alguns conhecidos e amigos por aqui, me hospedar num hotel pra fazer turismo mesmo.
- Sozinhos, acabamos conhecendo mais gente ,não é?
-Lógico, olha eu aqui, conhecendo você.
- E essa tarde vai ser uma boa lembrança da viagem?
-Não sei, a tarde ainda não acabou.
É, eu sei. Talvez tenha sido uma resposta imbecil. Deveria dizer, sim, claro. Mas teimo em ser sincera. Era verdade, a tarde não tinha acabado. Estava longe disso, eu esperava.
A massa ficou pronta, ele serviu em pratos igualmente bonitos. Perguntou se eu queria ir para mesa e preferi ficar no banco mesmo. Ele sentou ao meu lado e devoramos o prato. Macarrão + queijo + vinho + Luca = uma tarde agradável.
Ele começou a rir sozinho, uma risada de barriga cheia. Perguntei do que ele ria.
-Fiz macarrão com alho para alguém que pretendo beijar o dia todo. Uma deselegância só.
Sorri também quando me lembrei que minha boca provavelmente estava com gosto de alho.
- Vou ao banheiro, escovar os dentes.
-Também vou, ele respondeu já me acompanhando.
Peguei minha escova na bolsa e fui ao banheiro dele. Ele veio junto. Escovamos os dentes olhando um para o outro no espelho. Estava escovando os dentes com ele. Normalmente uma intimidade que leva tempo para ser ganha. As coisas realmente estavam acontecendo num fora de ordem delicioso nessa tarde.
Dentes escovados, fui para sala. Confortável, me esborrachei no sofá. Ele colocou um CD do Toots Thielmans. Mais uma: eu adoro Toots, mas não diria nada. Clichê demais para o clima que estava rolando.
Recomeçamos no sofá, como dois adolescentes que esperam os pais saírem de casa. Como já disse, os beijos eram longos. Ele beijou minhas mãos, meus braços, meu pescoço, e aí fazia charme, dizia coisas engraçadas no meu ouvido. E foi aí que me ganhou.
Adoro beijos com risadas. Romance tem a ver com humor. Paixão tem a ver com sorrisos, tortos ou não, com gargalhadas e diversão. Assim é um bom amor.
É, eu sei. Não dava mais pra ficar só nos beijos no sofá, tava ficando muito longo sem um final feliz. E ele foi exato. Foi tirando minha roupa devagar, sem deixar de me beijar, sem deixar de dizer coisas bem humoradas. Fui também tirando a roupa dele, me divertindo com a atmosfera de sem compromisso que ele me permitia sentir. E aconteceu, transamos com calma, com carinho, com música, com o sol de final de tarde, com a barriga cheia, com o vinho ainda fazendo efeito. No sofá, no chão e por último na cama. Transamos até cansar. Cansar de bom. Cansar de corpo.
- O dia foi uma delícia, adoro sua companhia.
Adoro declarações honestas. Não preciso de flores, jóia, ligações, bombons ou café na cama, prefiro frases honestas. E nesse caso foi exatamente o que senti também. O dia tinha sido uma delícia. Adorei a companhia dele.
Eu poderia ter ficado, dormido com ele. Eu poderia querer ver ele de novo. Eu poderia achar que estava apaixonada. Eu poderia criar expectativas. Eu poderia achar que ali começava um grande romance. Mas não. Foi um romance sim, assim como são todos os que começam e demoram para acabar e também aqueles que começam e acabam na mesma tarde.
domingo, 1 de junho de 2008
Behind
- Can´t see you!
- Here, behind... hiding.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
not today
domingo, 25 de maio de 2008
De partida

-Então, quem foi que perdeu a capacidade de amar?
- Sim, confesso que fui eu. Não me culpe mais. Estou partindo.
- Vá, não vou chorar. Quero ver você partir.
E assim saí da casa dele. Da casa que tem um pedaço de nós em cada canto, mas que hoje é dele. Assim saí pela rua escura, onde um dia me sugeriram um encontro. Saí definitiva, com pensamentos tão claros que geométricos, tão definidos que redondos. Esbocei um sorriso quando olhei para trás e o vi parado na porta, ele me devolveu um olhar rancoroso de quem não perdoa.
Resolvi voltar ao hotel andando pela rua da praia. Ouvindo o mar e pensando em honestidade. Como dói, às vezes. A noite estava quente e não resisti quando vi e ouvi o barulho das ondas, resolvi me despir, deixar as roupas na areia e nadar. Não importa que fosse noite. O mar a noite dá mais medo mas e daí? Eu vinha sentindo tanto medo até então! Entrei e sentir aquela água gelada no corpo foi tão bom quanto abri uma janela ou destrancar uma porta. Nadei, nadei, nadei. Quando me dei conta estava longe, muito longe da praia. Havia realmente chegado ao fundo. Bati os pés imaginando um mundo marítimo todo diferente abaixo de mim. Foi quando lá ao longe vi um barco pequeno e parecia estar vindo em minha direção. Mas a imensidão do mar confunde a visão. E o barco era pequeno. Nadei ainda mais pro fundo, me distanciando cada vez mais da praia. Já estava muito longe mesmo, voltar dali seria difícil! Porque não me aventurar ainda no mais profundo do mar à noite? O risco estava assumido. Minhas pernas se movimentavam comemorando a resistência da água. Era como se uma obrigação estivesse sendo cumprida, vencer uma resistência. Meus braços nadavam rápido, sem dor, com vontade de chegar.
Quando olhei o barco estava mais perto. Parei de nadar e levantei os dois braços. Não quis arriscar ser pega por um barco naquele escuro. Fiquei mais alguns minutos com os braços para cima para que me vissem. Foi quando eu o vi! O dono do barco, que estava já tão perto que pude vê-lo, ele fez sinal de que também já tinha me visto. E ai, não sei dizer porque, eu comecei a nadar em direção ao barco, como se ele estivesse me esperando. Ele acenava. Ele quem? Oras, o dono do barco. A escuridão do mar me deu um pouco de tontura. Era só olhar para aquele barquinho se aproximando que me sentia melhor. Mais alguns minutos e ele estava ali ao meu lado. Estendeu o braço e perguntou se eu precisava de ajuda.
- Sim, nadei longe demais e não dá pra voltar daqui.
Ele jogou uma bóia, me apoiei, respirei melhor e esbocei um sorriso molhado pela ajuda inusitada. Lógico, eu no meio do mar, àquela hora da noite, depois de ter saído da casa dele, nado demais, perco o controle, e um barco vem me salvar. Tinha que sorrir. Ele sorriu também e ajudou a me içar para dentro do barco. Já lá dentro, olhei em volta. Era uma barco simples.
- Você e pescador?
- E você é nadadora?
- Sim, nadadora que espera ser pescada.
- E eu pescador que espera pescar nadadoras como você.
Demos risada. Ele me ofereceu um cobertor e me sugeriu que fosse tirar aquelas roupas molhadas. Desci num lugar que parecia o quartinho dele, tirei o jeans e fique embrulhada no cobertor só de camiseta e calcinha. Subi de novo. E ele me esperava com um copo na mão.
- Toma um gole disso, vai te esquentar o corpo.
Obedeci! Estava gelada. Quase tremendo de frio.
- Mas afinal, o que fazias nadando por essas bandas a essa hora?
- Ah, estava caminhando na rua da praia, não resisti ao mar e decidi nadar, só que vim longe demais.
- Pois é, ainda bem que estava aqui perto, caso contrário você poderia ter problemas em alto mar numa hora dessas.
- Eu sei, ok, você me salvou e é meu herói. O que quer agora? Fazer amor comigo.
- Não seria uma má idéia.
Rimos juntos. Parece que nos conhecíamos há tempos. Eu olhava para ele e meu coração, uma pedra que sempre foi, dizia a palavra confiança. E eu me deixei acreditar. Aquele homem me era familiar e eu podia acreditar nele, já estava acreditando.
- Está com fome?
- Um pouco.
- Pois tem peixe aqui, quer?
Aceitei na hora e comemos juntos, embrulhados num cobertor um pedaço de peixe gostoso, com um copo de cognaque cada um. Ele me contou há quantos dias estava no mar, eu contei pra ele que acabara de sair da casa do meu ex marido. Assim, naturalmente falamos de nós mesmos. Confiantes. Ele também me conhecia. Tinha essa impressão também. Sentamos bem próximos um do outro, talvez para nos esquentarmos, talvez para ficarmos próximos mesmo. Ele passou o braço em volta do meu corpo e eu sentia o calor dele e dos dois copos de cognaque que havia tomado. Estava me sentindo bem mas ainda pensando nos cds e nos livros que deixara para trás. Ele tentou um beijo. Eu retrai.
- Como você chama?
- José e você?-
- Lucia.
- Lúcia, vamos nos beijar?
Que aproximação tão ingênua. “vamos nos beijar”, mas eu achei lindo. Era isso que eu queria ouvir, queria compartilhar a vontade de um beijo. Queria que ele pedisse, que segurasse minha mão como estava segurando. Era isso. Ele me beijou com boca de cognaque, com cheiro de peixe, cabelos suados, blusa rasgada e botas de pescador. Nos beijamos mais e mais. Enquanto ele me beijava e o barco rumava no rumo que ia antes eu pensava que era aquilo mesmo que eu estava esperando. Uma delícia de beijo e nem precisou ser roubado. Mais cognaque e mais beijos. Mas posso dizer com segurança que o beijaria a noite inteira com ou sem nenhuma bebida. Ele segurava minha mão e me olhava bem nos olhos.
- Já te conheço, não conheço.
- Não sei, tenho essa mesma sensação. Tive assim que avistei seu barco de longe. Mas não sei.
- Não importa, nos conhecemos agora.
Voltamos a nos beijar e economizar palavras. Tudo estava tão lindo. A lua perfeita, o frio era desculpa e tanto para os abraços gostosos que estávamos trocando.
- O frio está apertando, quer ir para minha cama.
Eu gelei, de medo e não de frio. Mas eu queria. Como queria. Queria ir para a cama daquele homem que nunca tinha visto antes mas que tinha a sensação de ter sido mandando pra mim, no meio do mar.
- Vamos.
Ele pegou na minha mão e descemos uma escadinha estreita e chegamos num compartimento que tinha apenas uma cama, algo que parecia um banheiro e só. Ele ajeitou os lençóis e me deitou, e cobriu. Fechou a porta do compartimento e veio pra debaixo das cobertas comigo. Deitou e me abraçou. Disse coisas ao meu ouvido. Que eu era linda, mesmo perdida em alto mar àquela hora da noite.Que meu cheiro era bom, mesmo uma mistura de peixe, sal e cognaque, disse que minha boca era irresistível e que queria ficar abraçado ali comigo para todo o oceano. Eu não sabia como responder a tamanho romantismo. Não estava acostumada com isso. Mas com ele, isso era natural. Abracei-o com força e disse que queria ficar com ele ali também, por quanto tempo ele quisesse. E foi assim, em meio a declarações simples e honestas de um amor iniciante que fizemos amor. Durou horas. Brincamos de nos amar. Amamos de brincar. Ele me teve e eu o tive como nunca antes. Estava navegando por mares nunca antes navegados, literalmente. E a cada vez que fazíamos amor, ele me abraçava e me dizia o quanto eu era linda e o quanto ele estava feliz em me ter ali. Foi amor de amor. Fizemos amor de verdade. Calmo, singelo, rápido, veloz também. Amor que permite todas as formas que o espaço permitia. Nos amamos e eu chorei. Não agüentei, chorei. Ele ficou chocado ao ver minhas lágrimas.
- Me diga que são lágrimas de tesão.
- Não, são lágrimas de encontro. Lágrimas de quem procurava a si mesmo e parece ter achado.
- Você se achou comigo?
- Parece que sim.
- Eu também sinto que me achei com você. E olha que sai hoje achando que a pescaria seria ruim. Rimos mais uma vez.
- Fique tranqüila, você não precisa chorar, agora nos achamos e estamos juntos. Sem motivos para lágrimas.
E ele enxugava cada uma que caia dos meus olhos. E assim, dormimos. Dormimos profundamente, eu sonhei, ele me abraçou a noite inteira e posso dizer com segurança que foi a primeira noite na minha vida que gostei de dormir abraçada. A noite foi longa.Longa o suficiente pra descansar de tanto nadar, de novas descobertas de amor. Acordei ele não estava ao meu lado. Um medo devagar. Subi os degraus e lá estava ele, com um vazinho e um rosa artificial,um pedaço de chocolate e um bule café. Tudo arrumado em cima de uma caixa que servia de mesa.
- Desculpa, mas aqui não tem café da manha ou nada disso. Você se importa de comer chocolate com café.
- Lógico que não. Será uma delícia.
E comemos juntos nos beijando, como se fosse um café da manha continental. Ele matava minha fome e eu parecia matar a dele. Nos abraçamos, comemos mais chocolates, ele colocava o café na minha boca e a sensação que eu tinha era de que não conseguiríamos desgrudar mais, nunca mais. Logo que o chocolate acabou voltamos para cama e fizemos amor de dia. Coisa que há tempos não fazia. De dia ele era ainda mais bonito, mais sexy e eu estava desarrumada, começando a ficar tímida. Mas aí ouvia:- Como você é linda. Pesquei a sereia mais linda de todos os mares. E eu me sentia mesmo uma sereia nos braços dele. Passamos o dia ali, naquela cama minúscula misturando nossos corpos porque nossas almas já haviam sido misturadas em algum lugar no fundo do oceano.
Mas o dia estava acabando,escurecendo de novo. Estava chegando a hora de falarmos de nossas vidas. Ele perguntou onde eu morava. Eu disse que ali mesmo,na cidade, mas que no momento estava sem casa, já que deixara a casa para o meu ex. Ele disse que morava ali também , sozinho,numa casa cheia de verde e cheia de espaço. Carinhosamente me chamou para passar uns dias com ele. E tudo o que eu queria era ficar grudada naquele homem por uma eternidade. Sem vergonha ou receio disse que sim. Mas disse que precisava pegar ainda umas coisas na casa do meu ex. Uma mentiririnha. As coisas já estavam na casa de um outro amigo. Pois ele foi pra terra firme. Ficou no barco e eu disse que voltava em meia hora. Ele segurou minhas mãos como se eu não fosse voltar.
Corri, tomei um táxi e parei na casa do homem com quem havia casado, montado uma casa e vivido uma vida. Toquei a campanhia, ele atendeu com cara de sono e eu fui curta: - Só vim te dizer que não fui eu quem perdeu a capacidade de amar. Você sempre diz isso, mas perdemos a capacidade de nos amarmos e é só. E voltei para o cais. Onde meu amor me esperava.
Foto: Satanic 57 - diviantart
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Parada II
Foto: Jaccuse - Deviantart
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Parada
Naquele dia ela estava falando demais. Sobre tudo. Sobre a idade, como vinha se sentindo, como estava vendo as pessoas, como admirava o movimento do mundo à sua volta, sobre as roupas que andavam escolhendo para ela e tudo mais o que lhe vinha à cabeça.
E eu, sentada ao seu lado imóvel, o que mais poderia fazer? Ouvi a tudo, quietinha, assim concordando e quase pedindo para acabar logo. Mas eu tinha que respeitá-la, afinal ela era mais velha e estava há muito mais tempo ali do que eu podia imaginar.
Eu era novata no ramo. Tinha decidido parar de vez há alguns meses e aí surgiu essa oportunidade. Mais parada que isso impossível. Logo no primeiro dia me colocaram ao lado dela. Ela estava bonita, com um vestido preto, um cinto prateado, saltos altos e uma bolsa que deveria custar uma fortuna.
Assim que cheguei ao seu lado ela disse: “Novata hã? Vão te deixar com essas calças curtas ainda um tempo, depois começam a te colocar vestidos mais bonitos”. Entendi que ela sabia tudo do assunto, conhecia as pessoas do lugar e poderia me ajudar. Eu ainda estava insegura com a escolha. Afinal, ali, estaria parada mesmo. Agradeci a dica e fiquei lá com minha calça capri, blusa pink e uma rasteirinha. Minha roupa toda não somava o valor da bolsa que ela estava carregando.
A primeira noite foi horrível. Fecharam tudo. Cerraram os vidros, as persianas, foram todos embora e ficamos ali, só nos duas, vestidas daquela maneira e na mesma posição. Foi quando ela me disse que depois que todos vão embora a gente poderia se mexer. Mas pensei que ficaria parecendo filme se nos mexessemos. E fiquei na posição que tinham me colocado. Ela deitou, descansou, acho até que a ouvi roncando. Mas eu fiquei ali, hirta, dura, imóvel, como era a proposta. Estar verdadeiramente parada.
No dia seguinte, ela já estava desperta bem antes de tudo se abrir. Arrumou-se, reaprumou-se e ficou ali, na posição que deveria estar. Dava pra perceber que era uma profissional experiente. Eu estava marcando touca se não pedisse dicas.
- E ai? Não dormiu nada a noite agora vai ficar cansada o dia todo.
- É verdade, essa noite vou fazer como você.
- Ah, decidiu seguir a voz da experiência não é?
Dava para perceber na minha cara que não tinha experiência alguma, que estava insegura e morrendo de medo. Não chegara ali numa boa situação. Viera mais por falta de opção. Queria parar e não me deixavam, então parei profissionalmente. Parar era uma obrigação diária. E também porque ali eu não precisava pagar aluguel, ter carro, namorado, nada! Só estar bastava.
Ela me perguntou da minha família. Antes de responder, perguntei da dela. E acho que para me ajudar a quebrar o gelo ela respondeu.
- Ah, já esqueceram de mim há muito tempo. Ás vezes um sobrinho passa aqui na porta e se lembra de mim, mas nunca tentaram me levar de volta, então acabei ficando. Cada hora colocam alguém novo por aqui, acabo fazendo amizade e não me sinto sozinha.
- Mas e namorado, marido, você não tinha?
- Não! Mas às vezes colocam alguém masculino ai, no seu lugar, e ai eu trato de me divertir um pouquinho.
Fiquei imaginando a cena e comecei a achar que tinha cometido um erro muito grande ao aceitar essa tarefa. Imagina que cena louca ela se divertindo com alguém quando tudo fechava.
Quanto tempo será que me deixariam ali, naquele mesmo lugar? Quando será que trocariam minha roupa? Será que trocariam de dia, para quem passasse me ver nua? Estava começando a sentir medo de verdade. E já eram quase dez da manhã quando o movimento aumentou. Muitas pessoas paravam à nossa frente, apontavam pra nós, olhavam o preço anotado abaixo. Umas entravam, outras não. A coisa estava ficando real. Era aquilo. Eu passaria o dia sendo olhada, observada. Ela estava bem com aquilo. Cada vez que o movimento acalmava, ela conversava, perguntava algo de mim, da minha vida. Eu não estava com vontade de conversar, estava apavorada, mas não podia rejeitá-la. Era minha única companhia. Era a única pessoa que poderia me dizer o que fazer na hora em que o desespero batesse, e eu sabia que bateria.
Como disse, naquele dia ela falou muito. Muito mesmo. E enquanto eu ouvia, pensava. Pensava que um dia estaria como ela, esperando uma companhia nova chegar para contar-lhe sobre minha vida. Contaria com um ouvido imóvel para me dar um pouco de atenção. Sou rápida nas decisões. Decidi que não ficaria mais ali.
Olhei bem pra ela, sem me importar com as pessoas que passavam. Ela entendeu meu olhar e piscou. Senti que aprovava a minha decisão. Me mexi toda, cada pedaçinho do meu corpo e foi como mágica, voltei a normal, rindo e chorando ao mesmo tempo. Não era mais manequim. Sairia dali para parar em outro lugar. Mas sairia correndo. E para uma noite que estava apenas começando.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Uma foto, um peixe
domingo, 4 de maio de 2008
Foi
Fiquei por alguns minutos olhando ele partir. Olhar o partir é uma obra de arte para quem consegue. É um dom de quem enfrenta e começa a superar. Não, espera, é mais: é esperança. Não da volta, mas do recomeço. Um vai, outro pode ou não vir, mas estou aqui.
Fiquei sentada no banco até ele virar um pontinho laranja distante, que já não me ouviria se eu gritasse. E eu não gritaria. Não sou do tipo que grita. Não sou do tipo que sai correndo. Aliás, quando corro é de mim mesma. E foi só quando já não podia vê-lo que decidi olhar para frente. A tarde estava chuvosa, nublada. Tardes assim são tristes, eu sei, mas eu gosto. Gosto do cinza, é um silêncio de alma que o sol nem sempre permite e era de silêncio que precisa me encher agora.
Não pensei mais nele, já era história, história contada e recontada, história vista e revista, tentada, acertada, errada e finalizada. Era, enfim, história. E história, escrevo eu. Escolho meus personagens e não tenho controle sobre eles, por isso as surpresas das despedidas.








