quinta-feira, 4 de setembro de 2008


- Já nem brigo mais de amor porque o coração já se foi, todo!
- Então agora briga o que?
-Brigo nada não, por que estar aqui já está me custando a alma. A vida custa a alma e a cada golpe um grito surdo de dor e sangue.
- O corpo infla?
- Como você sabe? Infla sim. Infla de um ar quem não é puro, de uma presença que não é legítima. Uma invasão despudorada e agressiva de uma dose de dor redonda e infinita, naquele em formato de oito deitado, conhece?
- Sim, é o símbolo do infinito.
- É! As manchas agora são negras e vermelhas. E desconfiam que o vermelho é sangue, mas eu não confesso. Se precisar vou até me negar a falar.
- Você pensa que esconder-se adianta de algo? Não. Damos passos internos e enveredamos caminhos tortos, sempre com a mente em faísca. Você deveria morar num lugar com jardim.
- Sempre achei isso também, Já hoje tenho medo de jardim espaço aberto coisa respirando perto de mim. Já hoje tenho medo até de respirar
- Mas você sempre disse que queria sossego.
- É! Sei. O sossego não se mexe e o que é parado é perigoso. Tenho medo de necrosar, ter que amputar. Isso definitivo de não ter mais cura.
- Não precisa pensar assim. Uma benção depois de outra e de outra.
- Que benção que nada! Ninguém abençoa, isso é ciclovia de pensamento. Pouco espaço no chão e por isso deixa o rastro fininho que se perde em pouco tempo.
- Credo, você diz cada coisa.
- Você não sabe o que eu sonho. São tantas as cores e tantos caminhos que percorro que duvido que minhas pernas podem fazer aquilo. Mas disso nem te conto, você não merece. Merece sossego.
- E quantas cores você acha que têm os meus sonhos?
- Não sei, sou egoísta, falo apenas de mim, achando que o importante é aquele que me entende. Que significativo é aquilo que me espelha.
- Juras que pensa isso?
- No fundo não. No fundo um dia sei que não é nada disso. Mas agora não consigo mais escrever.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ding dong


Pára, sua ordinária, pára que daqui a pouco essa palavra não tem mais acento. Pára na porta da casa, fique aí de pé, esperando alguém abrir . Depois me dará razão. Não vão abrir e ficarás com esse sorriso congelado, esperando o calor da porta aberta. Serás uma cena besta de filme bobo. E eu dou risada dessas cenas. Dou mais risada ainda porque a protagonista da asneira é você, sua boba. Ontem estava pensando exatamente nisso, que você chegaria aqui toda ingênua esperando que te abrissem a porta. Parece que eu previa a cena. Será isso? Será que você está ficando previsível. Como você é agressiva. Pra que me chamar de previsível, de tonta? Eu quero ficar aqui na porta com esse meu sorriso de quem gosta de sorrir. E você está com inveja da minha capacidade de esperar. Fica aí cuspindo sua raiva infantil. Então tá, continue esperando que eu vou-me embora pra ver aquele gado que te falei. No capitalismo me comporto como capitalista, vou comprar gado. E ainda diz que eu que protagonizo cena de filme bobo. Você não entende nada de gado e vai comprar bois. És tola também. Então tá bom, vamos sentar aqui na soleira. Espero com você pela porta. Vamos esperar juntas pra ver quem tem razão. Ding dong, din dong campanhia que ninguém atende. Ding dong som que ninguém ouve. Ding dong na sua mente esperançosa.
Ta ficando frio aqui, não está? É verdade! E acho que não vão mesmo abrir a porta. Ah, mas você me fez esperar até agora e eu perdi o gado que queria comprar. Vamos esperar mais um pouquinho. Ding dong na esperança do capitalista. Ding dong na esperança do ouro do tolo. Você viu quantas estrelas tem o céu? Vi, ta lindo mesmo. É, isso quer dizer que amanhã será um dia quente. Coisa de esperança. Mas olha, eu não quero passar a noite toda aqui, esperando o sol de amanhã. Então vamos desistir. Mas eu te disse isso muito mais cedo, que era tolice esperar que abrissem a porta. Se tivessem que abrir já teriam feito. Tá bom, eu me rendo, você está certa, vamos embora. Não dá mais pra ver o gado? A essa hora não. Ding dong na esperança de novo. Vamos comer alguma coisa então? Vamos, vamos comer um bom steak já que você não comprou o boi. Ding dong no gado. Ding dong. Esse carro está com um barulho estranho. É mesmo, só faltava o carro quebrar agora, nessa estradinha deserta depois de termos esperado tanto pela porta que não abriu. Eu te avisei, te avisei. Agora reza para o carro não quebrar. Podemos parar ali ó, parece bom. Bom nada, é o único, vamos parar. Um steak por favor, bem sangrento. Pra mim uma cerveja moço, depois eu como. Primeiro quero beber pra esquecer que estou até agora com essa tola, esperando por uma porta que não abre. Ding dong na fé. Ding dong na memória, ding dong na consciência. Por que você é tão agressiva comigo, me chama de nomes a todo momento, precisa mesmo disso? Não preciso não, mas estou com raiva por ter esperado tanto. Você não está? Não, esperei porque quis, assim como você, porque poderia ter ido ver o gado e me deixado lá, quem sabe eles não teriam aberto a porta se não te vissem ali? Agora está dizendo que não abriram a porta por minha causa? Era só o que me faltava, depois eu é que sou agressiva. Vamos fazer o seguinte, cancela os pedidos e vou embora pra casa, não agüento passar um minuto sequer desse dia com você. Moço cancela o pedido, por favor. Ding dong.


Foto de castanias, deviant.

sábado, 30 de agosto de 2008

S U A V E


São apenas histórias. Nem se preocupe. Pinte a parede. Todas. Cuidado, que vermelho enjoa. Azul é para todo dia. Já disse, cuidado e fale baixo, aqui a suavidade tem valor. Aqui feminino é regra. Toque apenas as músicas permitidas, mas cuidado com a repetição. Tente escapar pela tangente. Não é fácil. Sempre feitas de negativas que só aqui acho incríveis.
Comunique-se, sempre com a voz baixa. Não precisa fazer estrago que o ponto G não existe. Não insista. A ilusão alimenta, mas é por pouco. Como comer macarrão, é bom na hora, mas a fome vem correndo. Se puder, abuse do açúcar. Como ópio. Abuse mesmo, agrade seu cérebro, ele merece. Enquanto estiver vivo pense uma vez mais. Uma idéia não encerra a vida. Também não pense que terás outra chance. O tiro vem de qualquer lugar e ninguém vai te avisar. Eu já disse: cuidado!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Curiosa


O que você está lendo no momento?



Ps. Essa foto não é o máximo?



Foto:knows-flower - deviant

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sem sacrifício


O corpo dele é assim, ó.. bem longe do meu. Ele conta histórias de heróis tribais e eu tento pegar no sono como criança que resiste ao cansaço. A voz dele me acalma mesmo, mas não durmo. Me seguro acordada, na esperança que no final da história ele me surpreenda com um aquário de vidro com dois peixinhos dentro. Perco o sono e eu mesmo acabo virando peixe que não escreve só de mim. Egoísta de dor. Falo, falo e o eu não sai. Permito, então, a junção de poucos aquis e alis, que rabiscaram traços de criança para ser eu. Que não aperto a caneta, que relaxo por desistir da estética. Eu que encho baldes e os chuto. Eu que morro encostada antes do mundo acabar em barranco. Assim.
Eu, eu, eu. Coisa chata, eu. E como telefone sempre toca na hora errada, atendo com descaso. Já disse que não faço mais sacrifícios. Só o que me vem com prazer. Eles se oferecem pra vir me buscar. Aceito. Me arrumo até sem sacrifício. Eles chegam de pernas duras e olham curiosos. Eu tenho as pernas moles de quem sabe o que põe pra dentro da cabeça e assopra pra fora.
Estão todos na minha casa de tijolos. Todos. E a curiosidade mostra sorrisos. Eu aprecio sorrisos. Mas não faço mais sacrifícios, pois agora me sinto bem.
Vamos ao teatro e depois a um bar. Mas eles não se levantam do sofá. Conversamos conversas tolas de falar rolando. Tudo curiosidade. E eu falo até onde não é sacrifício. Fico com vontade de já ir. Planos são feitos para serem colocados em prática. Quero ser platéia. Vamos gente. No carro:
- Mas você está bem mesmo?
- E por que não estaria?
- Ah, seja honesta vai! Não está com saudade dele?
- Estamos preocupados, seja sincera.
Não! A curiosidade queria o mal. E eu não faço sacrifícios. Acho que a modernidade não combina com sacrifício. A vida hoje é só pra ser feliz.
Abro a porta do carro. Sem raiva, rancor ou ódio. Sem curiosidade, interesse ou respeito. Pronto, agora está acertado: eles querem saber de mim e estão curiosos pela parte ruim. Eu, que não faço sacrifícios, vou embora. No caminho de casa o chão me ilumina. Sinto-me forte por não fazer sacrifícios. Certo orgulho. Eu, eu, eu! Sempre eu, argh!


Foto by Karcos. Deviantart.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cracked




Dom Quixote vai correr atrás de mim. A polifonia me confunde. Os sapatos são todos novos e eu quase cheguei atrasada. Desculpa, viu? Não foi minha intenção. Não quis atrapalhar. Tomei um copo de ódio e pensei rimas. Quero abrir as janelas e assar um bolo, porque as pessoas não são tão especiais assim. Eu tenho náusea de barcos. Perdi a vergonha de juntar frases. Continuo pagando por hora e pedindo desconto. Não compro mais brigas, fico anônima com medo de ter idéias. Toma banho, toma, ela me disse, toma banho, moça. Quem sabe aprende a usar vírgulas. Use mais vogais, quem sabe te entendo melhor. Dá fome não, isso é culpa. Não leio Paulo, mato dois coelhos numa caixa d`água só. Ouço Vinícius, leio Nelsons, cuspo no teclado. Pura raiva do tamanho.

domingo, 24 de agosto de 2008

Sem pontuação

Não vou mais para país algum, o transporte de idéias anda ruim. Para ir teria que parar de pensar e dormir mais. Não durmo, devo ficar por aqui mesmo, sentada ao lado do cachorro que não passeia porque não pode sair sozinho. Errado essa coisa de cachorro não passear sozinho e precisar de coleira. Coitado do pobre, não goza de liberdade alguma. O cigarro anda apagando muito rapidamente e eu quase não tenho tempo de fumar. Tenho medo de ir a lugares que tenho que ir amanhã. Preferia não ter que ir a lugar algum e ficar aqui, como o cachorro e com ele. Quem sabe assim o cigarro demoraria mais para apagar e eu teria mais tempo para fumar. Assim como tomo água toda hora, água é bom pra mim e eu não sei mais o que dizer às pessoas. Cada hora é uma idéia, cada hora é uma coisa. Qual é a bola da próxima vez? Eu nem sei mais se continuo chutando com a mão trêmula de qualquer lado que eu olhe. Ontem tinha um menino sentado no muro ao lado da minha casa. Ele vestia shorts, nem preciso dizer curtos, já disse em inglês. Eu pensei em ir falar com ele. Mas se ao menos eu tivesse uma pipa, quem sabe conseguiria conversar com ele. Mas, sem pipa. Eu estava sem pipa e estava só ouvindo o começo de uma música. Adoro quando as músicas começam. Ainda mais quando não sei quais vão tocar. O começo de toda música é bonito. É uma surpresa boa ao ouvido. E esqueci do menino no muro ao lado. Assim como esqueço de todos os meninos e não me apego a muros. Tudo isso porque não dá tempo. Tenho feito as coisas sentadas. E sentada cansa a coluna e deitada cansa também e de pé não dá pra escrever. Falar não vale. Escrever é que vale. Acender o cigarro devagarzinho, queimando as beiradas e depois deixando-se queimar. Assim como fazem comigo. Deixam-me queimar. E eu fico inventando músicas pra chorar, achando que choros encerram sentimentos. Não encerram nada. Na ilusão de poder esqueço que não escolho a hora das coisas. Elas acontecem sozinhas e fico olhando a careca do homem que passa na rua. Pensando que ele ou eu, naquele momento, poderíamos morrer atropelados e ai seria uma bagunça na família dele ou na minha. Ambulâncias com sirenes tocando me fazem chorar quando passam. É a coisa da música de que estava falando. Esses dias sonhei com o espírito da salvação. Na verdade foi um pesadelo horroroso. Não sei por que ele se chamava salvação. Vai ver no sonho me dei conta de que salvação é o fim de tudo. E nem dicionário de etimologia isso precisa. Salvação é o final. E o espírito estava na portaria, me esperando sair. No sonho eu consegui escapar. E agora tenho certeza de que me deram o remédio errado, porque nem dormir eu consigo. Vou tomando água e pensando. Pensando e tomando água, como se não precisasse fazer sentido algum.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Antídoto

Me queimo na frente da tela do computador e da televisão. É como um grande forno para ser humanos. E pros fumantes com bônus. Frita meus neurônios, grelha minha vista, assa os meus dedos. Hipnotização fantasmagórica. Um ente separado do conhecido me abduz. É um filme que cansa a vista e com legendas. O antídoto?Assistir filme brasileiro e me sentir em casa. Chega de saudade!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Amor assim, tem fim!


Eu que nem pensei em te ligar! Só porque você não liga pra mim. Entendi, porque um pássaro veio contar ao pé de meu ouvido (cansado e com zumbido), que seu telefone estava quebrado. Mandei o pássaro embora e disse que só acredito vendo na terra os buraquinhos da chuva. Só sentindo o cheiro de chão molhado, acredito que choveu e o telefone quebrou. Mas telefones não quebram sob chuva.
Dois dias mais sem suas ligações e o telefone estava funcionando. E a dor da minha espera era como roda fina de bicicleta que tem a sorte do equilíbrio; deixa marca tênue no chão; a roda fina da bicicleta. E assim era minha dor: rodante.
Estrangeira, a vontade que senti de falar com você, vinda de fora, lugar longe, sem condições de estadia. A vontade estrangeira não agüentaria ser boi em terra de vacas e se deportaria por vontade de voltar para casa. A vontade iria ceder à saudade de casa. Estrangeira, adjetivo que vontade não quer e joga fora.
Mesmo que eu ouvisse suas palavras tão suaves, com respeito, diria, até profissional pela minha vontade, de nada adiantaria. O amor é história que precisa de cenário, tempo, figurino e iluminação. Tratamento de som e de cor. Edição, cortes, revisão e lançamento. Somos apenas dois personagens perdidos num camarim roubado, com água em copo plástico. E fazer amor assim, tem fim.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Inscrições de Phortas de Banheiros I

Um Pedro, on the rocks!

O bar era dos antigos, aberto nos anos 80, no Jardins, e que agora se mudara para um galpão na Barra Funda e tem um publico de trintões cativos. A música tocava alta, muito mais alta do que ela suportava ouvir. Seus ouvidos pareciam que iam explodir. E se explodissem? “Será que quando os ouvidos explodem a gente morre?”, ela se perguntou, tentando sair de cena. Mas não deu. Na menção que fez de subir as escadinhas da saída do bar, o amigo encostou a mão nos seus ombros e disse “onde você pensa que vai à uma hora dessas? Ainda é muito cedo para você ir embora! Não bebemos nada”.
Ela voltou-se para o amigo sorrindo, e foi na virada que mudou a expressão, porque estava subindo as escadas apavorada, e precisando mesmo sair dali. E na virada, um sorriso, ela pensou, analisando a si mesma, num misto de crítica e aceitação por ter a capacidade de sorrir a quem lhe agrada, a quem quer sua companhia. “É que a música aqui está muito alta pra mim, não estou agüentando, não sei o que aconteceu. Na verdade estou me sentindo mal e acho que preciso ir embora”, confessou, apesar do sorriso. “De jeito nenhum, vem pra cá, vamos sentar e tomar mais uma!”, disse o amigo. Ela sorriu mais uma vez e o seguiu em direção à mesa em que estavam com mais alguns amigos. “Duas tequilas, por favor”, o amigo pediu ao garçom.
Ela imaginou que uma tequila podia fazer um bem danado numa situação assim. O poder do álcool é uma coisa maravilhosa, opera milagres que nenhuma ciência explica ou explica, mas esquece de dizer que é milagre e dá outro nome.
A música continuava muito alta. Sempre gostara de música alta e lugares agitados. Mas aquela noite não! Naquela noite a música estava estridente, machucando seus ouvidos, atordoando sua cabeça. A tequila chegou e ela virou. Bummmmmmmm. Bateu uma. Olhou para o amigo e disse, agora já sem o sorriso, sem a cara de medo, só com a cara de quem vai enfrentar o que vier, mesmo que seja uma música alta. “Pede outra, aliás, pede mais umas três doses só para mim”. “Uau, é assim que gosto de te ver. Garçom, mais três para a moça ali e mais três para mim também!”
O rosto dela agora era mais curioso, mas criativo. Conseguia olhar para as pessoas à sua volta e fazer caras para elas. Conseguia fazer a cara sexy, a cara cansada, a cara noturna, a cara quero te conhecer, a cara gosto de você, a cara sua roupa é brega e outras. As três tequilas chegaram e bammmmmmmm. Bateu mais três. Na virada do último copo a música ficou mais alta do que nunca. Estava insuportavelmente alta. Ela tinha que sair dali, sentia que se ficasse mais alguns minutos alguma coisa ainda pior do que explodir os tímpanos iria acontecer. Pegou a bolsa, deu um beijo no amigo e subiu as escadas trançando as pernas.
Bêbada de tequila, bêbada de música, bêbada da noite que tinha tido. Quando chegou ao topo da escada decidiu que iria ficar ali e entender o que estava acontecendo. E no último degrau entendeu: queria sexo, um sexo de hoje e só hoje “Vou voltar, beber mais e que se dane a música”.
Apesar das idas e vindas, a moça é decidida. Menina de força e coragem, de ouvidos e paixão, de olhos e mãos capazes de loucuras. Sentou-se numa mesa que não era a do amigo. Olhou para um homem, trintão, como ela, que sentava sozinho e perguntou: “Você está acompanhado?”. Ele respondeu que não e pediu mais tequilas para eles. Ela deu para ele a cara “quero você” e começaram num papo etílico que só os dois e a música poderiam ouvir. “Eu não estou gostando do volume dessa música, não estou gostando desse bar e já tentei ir embora duas vezes. Aquele amigo ali ó me segurou a primeira vez e da segunda eu sai e voltei e sentei aqui com você. E você?” “Estou curtindo a música, adoro esse bar e não tentei ir embora nenhuma vez, porque se tentasse não voltaria. Mas tive um dia do cão, uma semana desgraçada e estou louco para me divertir. É por isso que estou tomando essas tequilas com você”. “Ótimo, então vamos tomar mais”, ela disse virando mais um par de copinhos do líquido amarelo que a levaria ao céu e ao inferno.
“Preciso ir ao banheiro”, disse a ele. Mas foi quando se levantou que percebeu o quanto estava bêbada, o quanto de tequila já tinha posto no corpo que queria sexo, queria ir embora e no corpo que não agüentava mais a música. Com os olhos o chamou para ir junto, e ele sorrindo um sorriso malicioso pegou sua mão e foi.
O banheiro feminino estava lotado, com direito a fila de várias tribos de São Paulo, de rockabillies aos clubbers. Foi chegando com a cara vou-transar-com-esse-homem e furou a fila. Não deu bola às algumas vaias mais puritanas que recebeu. Entrou e enquanto se divertia com o novo estranho, a música alta ainda estava nos seus ouvidos, assim como os gemidos dos dois. E foi no ápice do ápice que bateu os olhos na porta do banheiro.
“Pedro, sem você eu não fico. Pedro, sem você eu não vivo. Pedro, sem você eu não quero e não faço sentido. Assinado Sabrina, 25 março de 2007”.
Uma inscrição de amor na porta de um banheiro, feita à BIC, até ai nenhuma novidade certo? Errado, aquela mensagem mexeu com ela. Empurrou o cara na mesma hora e disse “Sai por favor, e espera lá fora”. Ele não entendeu, levantou as calças e saiu.
Sentada sozinha na privada de um bar lotado e escuro, com uma musica alta e estridente, e com pessoas vaiando a furada de fila que ela dera, começou a chorar copiosamente pela mensagem.
“Quem é Pedro? Esse Pedro é incrível, que sorte tem a Sabrina. Como “sem ele ela não quer”? Não quer o que? É incrível não querer sem alguém. Eu quero sem ninguém mesmo”.
Subiu as calças com dificuldade, o jeans grudava no corpo que queria, mesmo sem alguém. Era como se depois de se dar conta dessa capacidade de amor seu corpo tivesse descabido. Inchado ou encolhido. Estava diferente. O sexo no banheiro, que antes era tão divertido, agora perdera o sentido. Abriu a porta para encarar muitas caras feias e um espelho que a dizia estar bêbada e chorando.
Sua cabeça parecia estar mais redonda depois de saber que poderia haver um Pedro por aí e que tinha sentado para fazer xixi exatamente na mesma privada que uma Sabrina que não podia viver sem ele sentara em 25 de março de 2007.
Não sabia onde estava a bolsa, não dava para retocar a maquiagem e ela também não fazia questão nenhuma de sair do banheiro mais bonita do que entrara. Naquele momento se perguntava por que em nenhum ponto da sua vida tinha entrado no banheiro, com uma caneta BIC em riste para dizer à porta de madeira que "sem ele não". Sentiu raiva de quem consegue fazer isso.
Saiu com a cara “não acredito no que acabei de ver” e logo achou o rapaz com quem tinha acabado de fazer o sexo casual muito normal. Ele segurava a bolsa e disse “Achei melhor ficarmos de pé, assim podemos dançar e beber mais”. Ela quase morreu ao ver que a mesa que estavam sentados agora era ocupada por outras pessoas. Ela tinha certeza de que não conseguir ficar de pé pelo resto da noite. Olhou bem para a cara dele e disse “Você é um porra de um imbecil. Como é que entrega a mesa para outra pessoa. Tá louco? Acha que eu tenho condições de ficar de pé o resto da noite?”. Ele com certeza se espantou com tanta agressividade, o que teria acontecido com a moça no banheiro logo depois de um sexo assim, tão anos 80 com novo endereço? “Quer saber: louca é você e vai-te à merda”. Jogou a bolsa nas mãos dela e saiu do bar. Ela ficou olhando as costas do rapaz, dizendo um adeus baixinho para alguém que poderia ser uma boa companhia para continuar bebendo ou até mesmo o seu PEDRO.
No balcão do bar, chamou o barman e disse “Eu quero um Pedro”. “Não conheço nenhuma bebida com esse nome”. “Inventa então, põe tudo o que você quiser aí e batiza a bebida de Pedro’”. Um bom barman diz o que? “Ok”. E fez a mistura que queria, com as bebidas que imaginou parecerem com Pedro.
Todas as cores. Vermout, daikiri, campari, Martini, vodca e mais algumas coisas que davam cor ao copo. Pensou: “Cada um com seu Pedro”. Ela ficou olhando, mas sem na verdade identificar cada uma delas. “Aqui está, seu Pedro”. Ela olhou bem para o copo, que era longo e a bebida multicolor, abraçou o copo com as duas mãos e disse : “Sem você eu não vivo, sem você eu não quero, sem você eu não faço sentido” e virou o copo todo de uma vez. Engolindo Pedro. Ela queria uma overdose de Pedro. “Quero mais um Pedro, meu amigo, e com duas pedras de gelo”, disse ao barman já com a voz embargada pela bebedeira e pela vontade de chorar.
Ele fez outra bebida. Ela agarrou o copo e começou a lamber o vidro que ainda suava o gelo. Massageava o copo longo dizendo bem perto: “Pedro, sou pra você assim como você é para mim”. Mais algumas frases e o copo já estava vazio. O barman, com cara de barman, pensou uma vez o que deveria pensar milhões em noites como aquelas: “Essa é louca mesmo”.
Depois de mais três Pedros e da música que agora já não era tão alta ela decidiu ir embora para casa. Dirigir seria impossível, mas iria tentar. Subiu as escadas, com a bolsa numa mão e a chave do carro na outra. Sabia que não deveria dirigir, sabia que seria a pior escolha para aquela noite, mas não resistiria.
Queria Pedro, queria ser alguém para o Pedro, queria que o Pedro fosse alguém para ela, queria querer um Pedro do tanto que se quer Pedros. Abriu a porta do carro inconformada de não querer ser por alguém. De estar bem por ser por ela mesma. Aquilo doía fundo, machucava o peito, chegava à alma mesmo. Era uma dor tão grande que ela começou a sentir o braço formigar. Mas já não podia dizer se era o Pedro ou o álcool. Opa, os dois, em algum momento da noite foram a mesma coisa.
Enquanto abria a porta do carro, cantava alto e bêbada, “Eu quero um Pedro, eu preciso de um Pedro, eu quero querer um Pedro. Pedroooooooooooooo meu, cadê você, abaixa a música e vem aqui Pedro, eu sou pra você, sem você não quero, Pedro”. Alguma amiga lhe dissera há uns dias atrás que era romântica, que queria ser par. Ela rira no dia. Mas agora, com a possibilidade de Pedro, também queria ser par. Para sempre par com Pedro.
Colocou a chave na ignição, olhando-se no retrovisor. Via a imagem de uma mulher que poderia chamar-se Sabrina, se fosse mais livre. Poderia querer Pedro como só Sabrina sabia querer até então. As músicas não iriam mais incomodá-la. As escadas ficaram mais baixas, as casas mais perto, a comida mais quente, a luz mais acesa e a janela mais aberta. Devagar, como quem olha para o movimento das mãos e dos dedos controlando qualquer erro, ligou o carro e foi, acelerando cada vez mais e mais para chegar em casa. O medo de estar dirigindo naquela situação deu uma brecada na bebedeira e ela sentia-se um pouquinho mais em condições de dirigir. Mas o Pedro não saia de sua cabeça.

“Eu quero um Pedro para amar, eu quero ser par, eu quero chegar em casa e me desesperar se Pedro não estiver lá. Eu quero morrer de saudade de um Pedro, eu quero que meu estômago aperte ao ver o Pedro. Eu quero chorar pelo Pedro, quero morrer se for preciso, pelo Pedro”.

E cantando o Pedro assim dirigiu da Barra Funda ao Jardins, onde ainda lembrava-se morar. Entrou na garagem no prédio e estacionou como podia. Desceu correndo, entrou no elevador rezando para o nono andar chegar e ela poder vomitar todos os Pedros e tequilas que tomara.
Quando abriu a porta, uma coisa estranha. Tinha deixado a luz apagada, e a luz estava acesa. Um tremor horripilante tomou conta de seu corpo todo. Não conseguia se mexer, ficou encostada à porta, com as pernas tremendo e pensando no que fazer. Olhou tudo em volta e parecia normal, não fosse também o cheiro de café que se espalhava pela casa. Desesperou-se: havia alguém em sua casa. Atreveu-se a chegar até a cozinha: ninguém. Só o café na cafeteira, que tinha sido ligada há pouco.
Seu corpo foi gelando, ela tremia o tremor dos sem-Pedro. Pensou em ligar para a mãe, para a polícia, mas antes de criar esse caso todo precisava se certificar de que casa tinha sido mesmo invadida. Podia ter esquecido a luz acesa. A cafeteira ligada. Estava bêbada e a música tinha estado alta noite toda, não tinha como ter certeza. Entrou no quarto e a cama estava desarrumada. Mas poderia ter deixado assim, o que era comum. As pernas tremiam, o coração disparara tanto que a bebedeira tinha passado. Sentou-se na cama e pensou na quantidade de medo que estava sentindo. Estava apavorada. Apavorada. E se fosse um fantasma?
Às vezes tinha medo de fantasma. Não que acreditasse que eles existiam. Mas tinha medo. Jogou o corpo pra trás e quase relaxou, quando ouviu o barulho da chave entrando na fechadura da porta da frente. Ali o medo atingiu um ponto de o sangue gelar, da cabeça parecer inchar, os braços estavam inaptos para o movimento, as pernas até doíam de tão bambas que estavam e o coração estava barulhento. “Quem pode ser? Vou ter que chamar a polícia”. Ouviu os passos entrando pela sala, colocando qualquer coisa na pia da cozinha e se aproximando do quarto, onde ela estava. Um passo mais perto e ela pensou que fosse morrer, agora não com os ouvidos explodindo, mas com o coração. Mais um passo e ela começou a chorar. E é em horas de medos extremos que decidimos reagir. “Quem está entrando?”. Para sua surpresa, veio a resposta: “Sou eu o Pedro, saí pra comprar açúcar para o café, você deve estar precisando”. “Estou mesmo precisando, Pedro”. Ela respondeu. Bêbada e definitivamente precisando de açúcar.