
Outro: E ai, tudo bem?
Eu: tudo indo e você?
Outro:Tudo bem também. Como vão as coisas?
Eu: Ah, mais ou menos do mesmo jeito.
Outro: É, as coisas são difíceis mesmo. Tudo tem seus atropelos.
Eu: Pois é.
Outro: Vamos nos ver.
Eu: Vamos sim.
Eu te ligo.
Eu: Ok. Um beijo.
Outro: E ai, melhorou?
Eu: Mais ou menos.
Outro: Tem que reagir menina. As coisas não são fáceis mesmo. Mas tudo depende de você reagir.
Eu: Sei, tenho reagido, mas é que está muito difícil mesmo.
Outro: Eu sei. Olha, se precisar de mim para alguma coisa sabe que estou aqui né?
Eu:Ah, sim. Obrigado.
Outro: Vamos nos ver.
Eu:Vamos sim.
Outro: Eu te ligo.
Eu:Ok. Um beijo
Outro: E ai, saiu dessa merda ou ainda está enterrada na cama?
Eu: ai,cara, ta tão difícil.
Outro: Você tem que tomar uma atitude.
Eu: O problema é que não sei por onde começar e pra que lado ir.
Outro: Sabe sim, no fundo do seu coração você sabe.
Eu: Mas estou cavando lá no fundo e nada aparece.
Outro: Então dá tempo ao tempo que alguma coisa boa acontece.
Eu: Ta.
Outro: Vamos nos ver.
Eu: Vamos sim.
Outro: Eu te ligo.
Eu: Ok. Um beijo
Outro: Oi querida tudo bem? Quanto tempo! Tenho tentado falar com você e não consigo.
Eu: É que ando meio desligada do mundo.
Outro: Mas o que aconteceu?
Eu: Nada não. Só ando triste.
Outro: Mas não pode, tem que reagir, você sabe que no final dá tudo certo, não sabe?
EU: Sei?
Outro: Sabe sim. Eu sei que é só uma fase e que no final vai dar tudo certo.
Eu: Ta bom.
Outro: Precisamos nos ver.
Eu: Vamos sim.
Outro: Eu te ligo.
Eu: OK. Um beijo.
Outro: Oi queridona, liguei pra te contar que deu tudo certo na viagem.
Eu: Que bom. Tava torcendo por você.
Outro: Pois é, foi tudo ótimo. E você, como está?
Eu: To indo. Tentando melhorar.
Outro: Ótimo, é assim que se faz. Tem que reagir.
Eu: Sim.
Outro: Quando vem pra cá?
Eu: Logo.
Outro: Cuidado, que a vida passa e o logo é logo mesmo.
Eu: Ta bom.
Outro: Nos vemos. Um beijo.
Meu telefone não toca.
Image: a phone... by ~Gazo
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O meu telefone não toca
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
E a coisa de matar continua
Ela fugia de mim na rua. E eu correndo atrás, desesperada. Estava perdendo minha personagem. A coisa está escassa, não posso perder mais essa. Mas dessa vez peguei uma atleta, que me fez lembrar como fumo. Ela pegou uma avenida movimentada e qualquer ação aqui é perigosa. Corre feito Lola e eu corro feito louca perdendo o fôlego, mas sem desistir. Ela entra no ônibus olha para trás e não me vê. Sento bem atrás dela. E nada de tiros em ônibus. Encosto minha boca no ouvido dela e digo “ agora é sua hora”. A moça morreu de enfarto no mesmo instante. Vai ver não era tão atleta assim.
Nos víamos todas as noite no mesmo café bar perto de casa. Ele já chegou a sorrir para mim. Mas seus ternos parecem muito antigos, daqueles com couro no cotovelo. Fico imaginando que ele cheira a naftalina. Ele sempre carrega um livro embaixo do braço e eu carrego tudo o que encontrei naquele dia. Minha arma sempre comigo. Me intriga o fato de ele carregar um livro só. Ele não fuma, não tem celular e seu sorriso é míope. É preciso por um final nisso. Vou ao banheiro, capricho no batom vermelho e o chamo com os olhos,ele entra no meu carro. Dirijo para longe com poucas palavras com o homem antigo que fala muito. Um tiro na nuca. E mais nada.
Essa mulher já viveu boas histórias, ouvi dizer. Tem coisas para contar. Usa vestido que ela mesmo costura. Sua casa tem canteiros e jardim. Seu cabelo é arrumado todos os dias por ela mesma. Ela sorri a quem passa. Ela rega as plantas. Ela rega as plantas. Ela rega as plantas. E quando me dá as costas, toda a água cai num vaso só, e ela em cima.
E assim, como há um tempo, venho matando. E sem medo de confessar aqui os meus crimes. Mas a coisa esta ficando difícil para mim, os personagens tem poucas chances de viver histórias. A coisa está um crime.
Image: run by ~dkraner
sábado, 18 de julho de 2009
Matei todos
Adriana acorda cedo todos os dias. Faz isso por disciplina. Antes de trabalhar tem que fazer seus exercícios físicos. É séria, compenetrada. Vai para academia com o carro novo que adquiriu com a ultima promoção no emprego. Volta lá pelas nove, toma uma vitamina e em poucos minutos está vestida para o trabalho. Vestida para trabalhar, ela sai de casa e vai abrir a porta do carro. Estou escondida atrás de uma árvore que ninguém vê, e atiro. Morreu achando que era só fazer as coisas direitinho que tudo daria certo.
Paulo dorme até tarde. A vida para ele não tem mais sentido. Não suporta a luz do sol, não quer ouvir o barulho da vida acontecendo lá fora. Se pudesse dormiria embaixo da cama. Paulo não tem mais coragem. Andou a linha até o final. Encontrou consigo mesmo e quebrou o espelho. Paulo levanta da cama escura e vai à geladeira tomar um gole de leite velho. Estou atrás da janela, com a mira pronta. Pum. Mato Paulo. Morreu depois das suas esperanças.
Roger é porra louca. Os amigos riem dele. Uns admiram sua falta de apego às coisas materiais. Outros invejam sua liberdade. Um dia está num negócio, no outro, uma novidade. Não segue regras, não tem horas, não tem relógio. Roger anda com um sapato de cada cor quando está com vontade. Não chega a causar choque. É o Roger! Namorou Paulinha e um dia disse que não gostava mais dela, ia para Belo Horizonte. Mas não foi. O dinheiro não deu. Ficou mais um pouco e foi ai que o peguei. Estava subindo na moto velha, à porta de casa, eu atrás de mais uma árvore. Pronto. Roger morreu sem régua e sem compasso.
Vivi era nova. Começando a vida profissional. Feliz em ter três empregos e mesmo assim não conseguir pagar as contas. Comprava roupa em brechó e curtia Mutantes. Saia com os primos e achava a vida linda. Tudo ainda estaria por acontecer. Escrevia e mails amorosos à mãe, que morava longe. Tinha uma saudade estranha do pai que não chegou a conhecer. Vivi era uma menina linda. Atirei nela no ponto de ônibus. Vivi morreu cheia de vida.
Matei todas essas pessoas. Não estou com medo que a polícia venha atrás de mim. A polícia procura pessoas reais. Desconfio eu que essas pessoas que matei não existiram. Elas eram parte de um sonho longo, desses que a gente sonha quando acha que tudo está perto do fim, mas de manhã tem pique e disciplina para correr atrás da vida. Esse sonho é coisa de menina que acredita que a vida é linda. Tem traços de porra louca que não se importa com a opinião alheia.
E saí matando todos eles. Assassina eu.
domingo, 17 de maio de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Dor
decidi: vou vive-los plenamente.
Calma, mas vive-los.
Vivo chegando a essa conclusão.
O difícil não é sentir as coisas, o difícil é passar o tempo tentando evita-las.
Sofrimento? Com limão e gelo, por favor.
Desespero? Põe uma dose de tequila e manda ver.
Entrego meu corpo todo a você. Tome conta dele.
Sinta até doer roer os ossos.
Pense até o desespero te tirar do lugar.
Mas tente respirar entre uma onda e outra.
Vai ajudar.
O corpo fica frio, a alma vazia. Mas deixe estar, é assim, na pré-morte que se descansa.
Isso funciona. A dor sempre tem uma função na vida. Doer é verbo a ser conjugado.
Eu doou. Conjugo assim, do meu jeito, pois é minha a dor.
Dor se conjuga, mas se excomunga? Você acredita em milagres?
Eu acredito em reviravoltas. Em cambalhotas e palhaço fazendo graça pra mim.
Acredito que um dia nasce diferente e o sol brilha com outra vontade. Acredito em Dai-me.
Um dia, Não hoje.
Dor é coisa traçoeira. Dói um pouco de bom e dói um pouco de mal. Esperta a dor.
Eu faço infusões e peço a mágicos e aos duendes que venham pra perto de mim. Magos mitológicos, duendes celtas. Sinto-me acompanhada então. E a dor passa um pouquinho e se transforma um pouco em fraqueza.
A dor atinge o cúmulo quando pensar o próximo minuto dói. Aí vira dor de doer.
Depois que os magos chegam a dor vira coisa pra lembrar. Não passa, mas entra pra memória.
Dor aperta os olhos, contrai a mandíbula e retesa as extremidades. É assim que te descrevo fisicamente a dor.
E quando estou fraca me entrego à mentira da calma. Deixo ela me dizer que tudo vai ficar bem. Um pouco de fantasia traz sentido à dor. Fantasia cor de rosa, ou da cor que eu quiser para pintar as dores. Disfarça-las.
Eu perco a vontade de contar histórias porque canso das idas e vindas da dor. Nunca sei como vou estar. Não crio rotina e por isso me perco nas palavras. Perco-me delas.
Ai eu choro, um choro sem dor. Longe das palavras, mas sem dor.É sempre um choro. Mas é diferente.
Me anestesio e me coloco a um andar em cima da dor, mas sempre vendo que ela está logo abaixo.
Seguro as rédeas para não cair nelas. Relincho.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Espelhos
O meu hoje se quebrou. Rachou ao meio, um corte tão preciso que parecia de mentira.
Mas era espelho, não poderia ser mentira. Era a verdade em duas metades.
Não recolhi os poucos cacos que caíram ao chão. Pensei pisar e deixar sangrar o que causa estranhamento.
Antigamente curavam febre com sangramento. Deixa sangrar que o mal sai junto?
Não pisei. Afastei-me e sentada fiquei olhando o espelho partido e a imagem que ele refletia. Pensei cada pedacinho dessa dor que quebrou o espelho. Pensei quando ela ainda era felicidade. A novidade sempre sugere saltos. Dor é borboleta, que já foi lagarta e a transformação é natural. Fiquei com raiva, ali em frente aos espelhos, pensando que toda felicidade vira dor.
Mentira isso. Coisa de mitologia de carregar pedra e ser sempre castigado. Peguei então os dois pedaços de espelhos, colei-os, trabalho que demorou uns bons minutos de rebeldia contra a natureza e coloquei-o de volta à parede. Amanhã volto a olhar-me.
Foto-MiRRoR- by ~day-light
quarta-feira, 29 de abril de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
simples assim
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
E eu me desliguei daquilo. Sabendo que bastaria pensar que aquilo não era mais meu. Dissocia-lo de todo resto que tinha como meu. Me desliguei como chocolate que comprei para mim, mas que com a barriga cheia resolvi dar para alguém. E alguém aceita, mas deixa guardado para comer depois. Pois é assim, guardamos chocolates para comer depois. Assim adiamos o doce. E eu me desliguei daquilo para ficar sem sentir nada. Nada de estranho. Coisa pequena, dessas que ocupa pouco espaço na mente e rende várias linhas. Linhas das quais eu já tinha me despedido. Linhas de fumaça que parecem que eu não vejo. São batidas no teclado que imploram que a chuva volte. E eu continuo a repetir palavras, principalmente agora que elas me são parcas. Palavras que me faltam. Vocês me fazem falta. E lá fora chove como nunca choveu antes. Pelo menos eu não vi. As pessoas correm, os carros alagam e eu me desliguei do chocolate que está na geladeira, como quem se desliga de uma pessoa. Foi nesse tom. Sem música. Assim, frases pequenas eu tenho.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Desculpem a menina
Sentei para contar uma história. E por que não uma história que se conta sozinha? Uma história assim que vai acontecendo conforme as letras vão saindo. Uma história assim de uma menina que não conhece bem o caminho e se perde em meio a tantas árvores. São pedras também. Afinal todo mundo encontra pedras no meio do caminho, disse o poeta. E pedras para pular. Assim escolhe a menina que pula. Mas a história é dela e de pedras e árvores se faz um conto que tenta contar sua história. Perdida, a menina anda, anda e parece chegar a lugares errados. Bate às portas, pergunta quem mora nas casas. Ouve os barulhos, sente os cheiros e sabe que está nos lugares errados. Ela se sente mal. Não quer mais lugares errados. A menina que caminha quer chegar a lugares certos para viver em harmonia com árvore e pedras, porque elas não deixam de existir. Ela dorme, na cama emprestada, que pode ser dela também se quiser. Acorda e volta a bater em portas. Nada de encontrar o que procura. Uma busca, assim deveria se chamar a história da menina perdida. Ela não se lembra de quando se perdeu. Foi acontecendo assim, devagar, uma rua errada depois da outra. Um caminho torto aqui, uma viela ali e lá estava ela, muito longe de onde queria realmente estar. Voltar a achar o caminho é tarefa árdua de quem tem bons sapatos e força nas pernas. Às vezes ela se cansa, outras, pensa em desistir. Perde o lugar das vírgulas, esquece os acentos e assim sente-se ainda mais fora do caminho. Mas assim a menina vai procurando, na ansiedade normal de uma menina que se perdeu e o caminho parece longe, ou encontra-lo demanda muita força, que ela não tem. A menina não sabe mais como escrever. Desculpem a menina.





