
Parei no final da escada. Dali dava para ver a platarforma. Não tinha certeza de que ele viria. Acabei a escada e comecei a caminhar por toda a plataforma. As pessoas chegaram e tomaram seu rumo e por alguns segundos, antes do próximo trem, estava tudo deserto. E foi naqueles poucos segundos que vi nossa vida passar bem diante dos meus olhos. Sim, ele não estaria na plataforma. Agora era certeza, nem nessa, nem em nenhuma outra. Ele não estava nesse trem e não estaria em nenhum outro também. Não! E lhe dou razão. Na verdade é minha obrigação estar ali esperando. E só.
No caminho de volta para casa, comprei duas garrafas de vinho para tomar sozinha. Coisa que só faço quando estou muito triste. Estava um frio cruel e o vinho ia me ajudar a descongelar as idéias e metabolizar a espera inútil pela qual tinha passado.
Cheguei em casa, Rob, que divide a casa comigo estava sentado na cozinha. Ofereci o vinho, mas ele percebeu que eu estava precisando beber sozinha. E assim abri a primeira garrafa. Abrir garrafa de vinho tem algo de mágico. Sinto sempre que algumas verdades serão libertadas com a rolha que receia sair. E assim sempre o é. Sentei no sofá, de meia e com o vinho na mão.
Ele não veio e não virá. Mas isso não tem mais importância. Desde o primeiro dia eu sabia que o estava afastando. Estava rejeitando todo e qualquer tipo de amor que ele tinha para me dar. Um dia ele entendeu isso e desistiu. Viu como é simples?
Na segunda taça de vinho lembrei de nossas viagens juntos. Como dei pouco valor para as coisas, como fui tola. Poucas fotos, isso diz tudo.
Na terceira taça: noites e noites a fio que passamos juntos, lendo, conversando, bebendo e fazendo amor. Pouco amor não é amor, já disse Nelson Rodrigues. A verdade é que não era pouco amor.
Pouco amor não é amor. Pouco amor não é amor. E essa frase ficou martelando minha cabeça. Vinho. Vinho. Pouco amor não é amor. Ele te deixou esperando na plataforma e pouco amor não á amor. Ele nem ligou e pouco amor não é amor. Ele não volta mais e pouco amor não é amor. Você acha que sofre e pouco amor não é amor.
Segunda garrafa de vinho. Pouco amor não é amor e eu pouco deixava ele me tocar. Fui rígida o tempo todo. Tantas partes do meu corpo inexploradas por aquele que eu dizia amar. Pouco amor não é amor.
Lembrei de quando alugamos o primeiro apartamento. Voltamos bêbados para casa uma noite e mal podíamos acreditar que aquela era nossa casa. Tanta alegria. Pouco amor não é amor, mas aquela noite foi muito amor. O primeiro apartamento ninguém esquece.
Ele sempre foi tão doce e eu sempre tão amarga. Cheia das letras, revistas, jornais, amigos iguais. Cheia das massas, vinhos e queijos. E se ele gostasse de lingüiça frita e cerveja e poucos amigos,seríamos diferentes? Não sei mais. O fato é que hoje estive na estação e ele não estava lá. Pouco amor não deve mesmo ser amor.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Pouco amor não é amor
domingo, 4 de outubro de 2009
Feriado Nacional
Todos sem dinheiro
Todos com muita cerveja
Biquíni novo na Riachuelo
Pneu que fura
Chega na praia
Churrasco e queimadura do sol
Crianças demais
Sol e chuva
Quem se importa?
Tudo é muito bom
Feriado nacional no Brasil Brasil Brasil, só no Brasil
Salve salve
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
As duas subiam a escada do prédio, voltavam da escola. Fofocavam, como fazem meninas da idade delas. Bolsas iguais, sapatos legais e cabelos bem longos para que no final de semana parecem mais velhas. Falavam de uma “P” que tinha passado o intervalo com um fulano.
Estavam indignadas. E eu na frente, ouvindo e esperando o elevador que demorava. Queria que demorasse mais, assim a história cresceria. Mas elas olharam para minha cara de interesse e pararam. Desci primeiro com a história na cabeça. E foi assim. As duas chegaram em casa e quem encontraram? A “P”, que transava com o pai de uma das meninas. Coisa de louco. A menina caiu aos prantos e a amiga não sabia se ria da situação ou se solidarizava com a amiga. Como a “P” tinha tido tempo de sair e chegar antes dela. A “P” se arrumou correndo e foi embora. O pai, no mínimo constrangido implorou para a filha não contar nada a mãe. Mas será? Será que ela vai conseguir guardar um segredo desses? Eu não conseguiria. O fato é que a outra amiguinha foi embora também e ficou só pai e filha no apartamento. Recomposto, o pai implorava a menina.
- Foi uma besteira que o papai fez, pelo amor de deus não vai estragar nosso casamento por causa disso.
- Besteira pai? Você transou com uma amiga da minha escola. Ela tem a minha idade. Isso é bem mais que besteira.
_ Eu sei, o que eu fiz foi imperdoável, mas pelo amor de deus, sua mãe deve estar para chegar, não diga nada. Promete? Eu faço o que você quiser.
Diante disso a menina ficou pensativa. Foi pro quarto e bateu a porta sem responder.
Pais são assim mesmo, prometem tudo. São capazes de dar coisas materiais, de se tornarem verdadeiros escravos para guardar um segredo.
No quarto, ainda chorando, a menina pensou que se contasse para mãe, iria mesmo acabar com o casamento deles. Não queria isso. Mas a coisa também não podia passar em branco. Ela podia tirar proveito disso sem acabar com o casamento dos pais.
Mulheres, especialmente meninas podem ser maquiavélicas quando querem . Tem lá um dom guardadinho, uma coisa meio”Engraçadinha”. Toda mulher é rodrigueana ou ele é que as catalogou direitinho.
Hora do almoço, a mãe avisa que está na mesa. Todos sentam. Pai, mãe, ela e irmão de 8 anos. Todos sorriem, inclusive ela.
_ Papai, que horas você chega do trabalho hoje?
- Por que o interesse filha? Você nunca quis saber disso.
_Pois é mamãe, mas estava pensando se hoje não poderíamos sair todos juntos para jantar.
Terminou a frase e olhou o pai, com um sorriso malicioso no rosto.
- Hoje não dá filha. Vou receber uns clientes de uma outra usina, pode ser amanha?.
- Não, tem que ser hoje.
A mãe fez uma cara de espanto. Não entendia o que estava acontecendo com o a filha.
_ Tudo bem filha, eu desmarco com eles, pode marcar onde quer jantar.
A filha riu, satisfeita.
A mãe não entendeu, mas tinha tanta coisa para pensar. Se vão jantar fora, que ótimo.
A menina passara tarde fazendo uma lista do que precisava comprar para seu novo guarda-roupas. Iria pedir tudo ao pai assim que tivesse um momento sozinha com ele.
A noite foram jantar,. O pai falava pouco, apenas sorria em resposta a filha que olhava para ele com uma malícia,que ele desconhecia nela.A mãe parecia nadar no mar da ignorância da felicidade familiar. O menino curtia jantar fora dia de semana.
Quando chegaram em casa, a menina chamou o pai no quarto, beijo-o no rosto, e para isso teve que erguer os pezinhos, agradeceu o jantar. Ele ficou satisfeito por alguns segundos. Logo ela disse:
- Preciso de um cartão de crédito sem limites, meu guarda roupas está um lixo, como pode ver. Disse escancarando o guarda roupas....
_ Como assim, sem limites?
_ Isso mesmo que você ouviu papai, sem limites.
O homem baixou a cabeça e foi para o quarto, onde tomou um remédio para dormir e capotou.
Ela deitou-se na sua cama deliciando-se com tudo que compraria com o novo cartão. Chamaria até a “P” para fazer compras com ela. Sentia-se poderosa a menina. Sentia-se mulher. Vai ver e diferença entre uma menina e uma mulher é a sensação de poder.
No dia seguinte corria tudo normal. Menina foi para escola, pai para o trabalho. Na hora do intervalo, menina interpela “P”.
_ Você quer transar com meu pai de novo?
- Fala baixo, ta doida?
- Ué, doida por que? Você já transou com ele. É bom? Quer transar de novo.
Aqui não sei se algum psicanalista diria que a menina morria de inveja de “P” ter transado com o pai e ela não. Mas o fato é que ela incentivava “P”.
_ Quero vai! , responde P, meio sem saber o que fazer.
Menina liga no celular do pai.
_ Pai, vem para escola agora, a P quer transar com você.
- Você está louca, essa história tem que parar. Eu estou trabalhando, não quero transar com essa menina. Pára com isso e vai estudar.
- Você escolhe, ou vem ou conto tudo para a mamãe.
O pai entrou em desespero. Não podia ser refém da filha dessa maneira. Agora além do cartão sem limites, teria que transar com a menina quando a filha quisesse. Isso já era doentio.
- Escuta, faça o que quiser. Eu não vou.
- A menina fechou o celular com um sorriso no rosto. Em alguns minutos ligou para a mãe. Contou toda a história, em detalhes.
Assim,satisfeita da brincadeira ter acabado, esperava chegar em casa e presenciar uma briga de divórcio com vasos voando e tudo mais.
Quando todos chegaram em casa, uma surpresa. A mãe havia se enforcado no banheiro de casal.
O pai horrorizado tapava os olhos do filho e olhava para a menina com expressão de ódio. E ela.
_ Não disse? Eu te avisei que contaria tudo.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Se vejo tudo mal e não sei se estou vendo mal porque está mesmo mal. Me embaralho com a linha do horizonte que pode nem fazer sentido se a terra não for redonda. Mas as horas passam e com elas a dor de ser aumenta e não tem conversa de médico que mude que a dor aumenta e me faz perder as vírgulas e os pontos. A pontuação que antes me balizava, hoje me é esquecida. Sou esquecida por elas também. Coloquei-me num limbo vivo, coisa de gente que dói para fora de si. Doer fora de si mesmo. Mas não, não só fora, é dentro também. Continuei dizendo a ele que as coisas não faziam sentido, os bilhetes recebidos não diziam nada que me ajudasse. Ele disse que deveríamos continuar trabalhando bastante e eu penso se quanto mais melhor e concluo que não e me envolvo com uma opera que toca não sei onde, mas parece que é para mim, ela cresce, diminuiu, cresce , diminui e eu também. Penso na minha avó que está doente e penso que agora tenho twitter, tudo isso para me distrair da hora em que vivo. Tudo para me distrair. Penso em firmar contratos com as pessoas. Me comprometer as coisas e que elas se comprometam também, ai concluo que é tudo besteira, não quero nada de ninguém e duvido que alguém queira algo assim sério de mim. Preciso estar perto da minha cama para se escurecer, eu deitar. É assim, nada mais pode me pegar desprevenida. Mas talvez amanhã eu escape, talvez não. Talvez eu tenha força, talvez não.
Falam para mim de tempo. Tempo perdido. E fico com uma dó. Dó de mim mesma. Será verdade que ando perdendo tempo? Será que o tempo não anda se perdendo de mim? Um correndo para o outro em direções contrárias. Será isso possível? Me perguntam se espero por uma luz. Mas cacete, lógico que espero. Se não, de que tudo serviria? Que venha a luz. Venha a luz.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O meu telefone não toca

Outro: E ai, tudo bem?
Eu: tudo indo e você?
Outro:Tudo bem também. Como vão as coisas?
Eu: Ah, mais ou menos do mesmo jeito.
Outro: É, as coisas são difíceis mesmo. Tudo tem seus atropelos.
Eu: Pois é.
Outro: Vamos nos ver.
Eu: Vamos sim.
Eu te ligo.
Eu: Ok. Um beijo.
Outro: E ai, melhorou?
Eu: Mais ou menos.
Outro: Tem que reagir menina. As coisas não são fáceis mesmo. Mas tudo depende de você reagir.
Eu: Sei, tenho reagido, mas é que está muito difícil mesmo.
Outro: Eu sei. Olha, se precisar de mim para alguma coisa sabe que estou aqui né?
Eu:Ah, sim. Obrigado.
Outro: Vamos nos ver.
Eu:Vamos sim.
Outro: Eu te ligo.
Eu:Ok. Um beijo
Outro: E ai, saiu dessa merda ou ainda está enterrada na cama?
Eu: ai,cara, ta tão difícil.
Outro: Você tem que tomar uma atitude.
Eu: O problema é que não sei por onde começar e pra que lado ir.
Outro: Sabe sim, no fundo do seu coração você sabe.
Eu: Mas estou cavando lá no fundo e nada aparece.
Outro: Então dá tempo ao tempo que alguma coisa boa acontece.
Eu: Ta.
Outro: Vamos nos ver.
Eu: Vamos sim.
Outro: Eu te ligo.
Eu: Ok. Um beijo
Outro: Oi querida tudo bem? Quanto tempo! Tenho tentado falar com você e não consigo.
Eu: É que ando meio desligada do mundo.
Outro: Mas o que aconteceu?
Eu: Nada não. Só ando triste.
Outro: Mas não pode, tem que reagir, você sabe que no final dá tudo certo, não sabe?
EU: Sei?
Outro: Sabe sim. Eu sei que é só uma fase e que no final vai dar tudo certo.
Eu: Ta bom.
Outro: Precisamos nos ver.
Eu: Vamos sim.
Outro: Eu te ligo.
Eu: OK. Um beijo.
Outro: Oi queridona, liguei pra te contar que deu tudo certo na viagem.
Eu: Que bom. Tava torcendo por você.
Outro: Pois é, foi tudo ótimo. E você, como está?
Eu: To indo. Tentando melhorar.
Outro: Ótimo, é assim que se faz. Tem que reagir.
Eu: Sim.
Outro: Quando vem pra cá?
Eu: Logo.
Outro: Cuidado, que a vida passa e o logo é logo mesmo.
Eu: Ta bom.
Outro: Nos vemos. Um beijo.
Meu telefone não toca.
Image: a phone... by ~Gazo
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
E a coisa de matar continua
Ela fugia de mim na rua. E eu correndo atrás, desesperada. Estava perdendo minha personagem. A coisa está escassa, não posso perder mais essa. Mas dessa vez peguei uma atleta, que me fez lembrar como fumo. Ela pegou uma avenida movimentada e qualquer ação aqui é perigosa. Corre feito Lola e eu corro feito louca perdendo o fôlego, mas sem desistir. Ela entra no ônibus olha para trás e não me vê. Sento bem atrás dela. E nada de tiros em ônibus. Encosto minha boca no ouvido dela e digo “ agora é sua hora”. A moça morreu de enfarto no mesmo instante. Vai ver não era tão atleta assim.
Nos víamos todas as noite no mesmo café bar perto de casa. Ele já chegou a sorrir para mim. Mas seus ternos parecem muito antigos, daqueles com couro no cotovelo. Fico imaginando que ele cheira a naftalina. Ele sempre carrega um livro embaixo do braço e eu carrego tudo o que encontrei naquele dia. Minha arma sempre comigo. Me intriga o fato de ele carregar um livro só. Ele não fuma, não tem celular e seu sorriso é míope. É preciso por um final nisso. Vou ao banheiro, capricho no batom vermelho e o chamo com os olhos,ele entra no meu carro. Dirijo para longe com poucas palavras com o homem antigo que fala muito. Um tiro na nuca. E mais nada.
Essa mulher já viveu boas histórias, ouvi dizer. Tem coisas para contar. Usa vestido que ela mesmo costura. Sua casa tem canteiros e jardim. Seu cabelo é arrumado todos os dias por ela mesma. Ela sorri a quem passa. Ela rega as plantas. Ela rega as plantas. Ela rega as plantas. E quando me dá as costas, toda a água cai num vaso só, e ela em cima.
E assim, como há um tempo, venho matando. E sem medo de confessar aqui os meus crimes. Mas a coisa esta ficando difícil para mim, os personagens tem poucas chances de viver histórias. A coisa está um crime.
Image: run by ~dkraner
sábado, 18 de julho de 2009
Matei todos
Adriana acorda cedo todos os dias. Faz isso por disciplina. Antes de trabalhar tem que fazer seus exercícios físicos. É séria, compenetrada. Vai para academia com o carro novo que adquiriu com a ultima promoção no emprego. Volta lá pelas nove, toma uma vitamina e em poucos minutos está vestida para o trabalho. Vestida para trabalhar, ela sai de casa e vai abrir a porta do carro. Estou escondida atrás de uma árvore que ninguém vê, e atiro. Morreu achando que era só fazer as coisas direitinho que tudo daria certo.
Paulo dorme até tarde. A vida para ele não tem mais sentido. Não suporta a luz do sol, não quer ouvir o barulho da vida acontecendo lá fora. Se pudesse dormiria embaixo da cama. Paulo não tem mais coragem. Andou a linha até o final. Encontrou consigo mesmo e quebrou o espelho. Paulo levanta da cama escura e vai à geladeira tomar um gole de leite velho. Estou atrás da janela, com a mira pronta. Pum. Mato Paulo. Morreu depois das suas esperanças.
Roger é porra louca. Os amigos riem dele. Uns admiram sua falta de apego às coisas materiais. Outros invejam sua liberdade. Um dia está num negócio, no outro, uma novidade. Não segue regras, não tem horas, não tem relógio. Roger anda com um sapato de cada cor quando está com vontade. Não chega a causar choque. É o Roger! Namorou Paulinha e um dia disse que não gostava mais dela, ia para Belo Horizonte. Mas não foi. O dinheiro não deu. Ficou mais um pouco e foi ai que o peguei. Estava subindo na moto velha, à porta de casa, eu atrás de mais uma árvore. Pronto. Roger morreu sem régua e sem compasso.
Vivi era nova. Começando a vida profissional. Feliz em ter três empregos e mesmo assim não conseguir pagar as contas. Comprava roupa em brechó e curtia Mutantes. Saia com os primos e achava a vida linda. Tudo ainda estaria por acontecer. Escrevia e mails amorosos à mãe, que morava longe. Tinha uma saudade estranha do pai que não chegou a conhecer. Vivi era uma menina linda. Atirei nela no ponto de ônibus. Vivi morreu cheia de vida.
Matei todas essas pessoas. Não estou com medo que a polícia venha atrás de mim. A polícia procura pessoas reais. Desconfio eu que essas pessoas que matei não existiram. Elas eram parte de um sonho longo, desses que a gente sonha quando acha que tudo está perto do fim, mas de manhã tem pique e disciplina para correr atrás da vida. Esse sonho é coisa de menina que acredita que a vida é linda. Tem traços de porra louca que não se importa com a opinião alheia.
E saí matando todos eles. Assassina eu.
domingo, 17 de maio de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Dor
decidi: vou vive-los plenamente.
Calma, mas vive-los.
Vivo chegando a essa conclusão.
O difícil não é sentir as coisas, o difícil é passar o tempo tentando evita-las.
Sofrimento? Com limão e gelo, por favor.
Desespero? Põe uma dose de tequila e manda ver.
Entrego meu corpo todo a você. Tome conta dele.
Sinta até doer roer os ossos.
Pense até o desespero te tirar do lugar.
Mas tente respirar entre uma onda e outra.
Vai ajudar.
O corpo fica frio, a alma vazia. Mas deixe estar, é assim, na pré-morte que se descansa.
Isso funciona. A dor sempre tem uma função na vida. Doer é verbo a ser conjugado.
Eu doou. Conjugo assim, do meu jeito, pois é minha a dor.
Dor se conjuga, mas se excomunga? Você acredita em milagres?
Eu acredito em reviravoltas. Em cambalhotas e palhaço fazendo graça pra mim.
Acredito que um dia nasce diferente e o sol brilha com outra vontade. Acredito em Dai-me.
Um dia, Não hoje.
Dor é coisa traçoeira. Dói um pouco de bom e dói um pouco de mal. Esperta a dor.
Eu faço infusões e peço a mágicos e aos duendes que venham pra perto de mim. Magos mitológicos, duendes celtas. Sinto-me acompanhada então. E a dor passa um pouquinho e se transforma um pouco em fraqueza.
A dor atinge o cúmulo quando pensar o próximo minuto dói. Aí vira dor de doer.
Depois que os magos chegam a dor vira coisa pra lembrar. Não passa, mas entra pra memória.
Dor aperta os olhos, contrai a mandíbula e retesa as extremidades. É assim que te descrevo fisicamente a dor.
E quando estou fraca me entrego à mentira da calma. Deixo ela me dizer que tudo vai ficar bem. Um pouco de fantasia traz sentido à dor. Fantasia cor de rosa, ou da cor que eu quiser para pintar as dores. Disfarça-las.
Eu perco a vontade de contar histórias porque canso das idas e vindas da dor. Nunca sei como vou estar. Não crio rotina e por isso me perco nas palavras. Perco-me delas.
Ai eu choro, um choro sem dor. Longe das palavras, mas sem dor.É sempre um choro. Mas é diferente.
Me anestesio e me coloco a um andar em cima da dor, mas sempre vendo que ela está logo abaixo.
Seguro as rédeas para não cair nelas. Relincho.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Espelhos
O meu hoje se quebrou. Rachou ao meio, um corte tão preciso que parecia de mentira.
Mas era espelho, não poderia ser mentira. Era a verdade em duas metades.
Não recolhi os poucos cacos que caíram ao chão. Pensei pisar e deixar sangrar o que causa estranhamento.
Antigamente curavam febre com sangramento. Deixa sangrar que o mal sai junto?
Não pisei. Afastei-me e sentada fiquei olhando o espelho partido e a imagem que ele refletia. Pensei cada pedacinho dessa dor que quebrou o espelho. Pensei quando ela ainda era felicidade. A novidade sempre sugere saltos. Dor é borboleta, que já foi lagarta e a transformação é natural. Fiquei com raiva, ali em frente aos espelhos, pensando que toda felicidade vira dor.
Mentira isso. Coisa de mitologia de carregar pedra e ser sempre castigado. Peguei então os dois pedaços de espelhos, colei-os, trabalho que demorou uns bons minutos de rebeldia contra a natureza e coloquei-o de volta à parede. Amanhã volto a olhar-me.
Foto-MiRRoR- by ~day-light






