
E a pagina em branco continua aparecendo na minha frente. Como a velha senhora que persegue meus pensamentos. Ela deve ter perto de oitenta anos. Mora num bairro cheio de ladeiras. Adora bromélias e bandeiras. Tem bandeira de todos os países na sua sala. Ela mora sozinha. S’o como o cão. Ela almoça aspargos porque os acha bonitos. Ela mastiga chicletes para se sentir mais jovem. Seu telefone não toca. Não sabe mais porque tem telefone. Suas emergências são tão ignoradas! Ela quase pede que eu escreva sobre ela. Sabe costurar, mas nada rasga na sua casa. A televisão quebrou há muito. Sua vista não permite que leia livros. Não gosta de musica. Sua vida foi estática, sem harmonias.
Já escrevi sobre ela quando estava no colégio, mas ela continua aqui. Sessao de analise.
Sua garganta secou de tanto não falar. Não vê beleza no amanhecer do dia, quando já esta acordada, a senhora que não dorme. Quando surgem estrelas, ela não levanta a cabeça para vê-las. Raramente abre a janela do pequeno apartamento sala e quarto que ganhou um dia de um homem.
O homem era rico. Se engraçou por ela. Mas durou pouco. A senhora já era senhora desde jovem. Um sentimento nela era forte: o ciúme. Foi a única coisa que doeu em seu coração. Nunca chorou por outra razão. Queria o homem. Queria dormir com ele e que a desse um anel. Ficou com um apartamento por pena, que o homem que partiu, sentiu. Depois disso ninguém mais.
Sua higiene e’ neurótica. A senhora esta sempre limpa. Mas não usa perfumes. Não tem penteadeira, batons ou um velho colar de perolas. Não tem jóias. Não brilha. Usa meias pretas, tem os pés longos e as unhas sempre cortas rente `a pele. Os cabelos, ela mesmo corta. Curtinhos. Lava as mãos com sabonete e desinfeta com álcool. Seu sofá ‘e marrom. Tem muitos anos, mas esta novo porque nunca foi sentado. Sua cama e’ como a de um convento. De ferro, colchão duro e uma coberta antiga. S’o. Seu guarda roupas resume-se a seis trocas de roupas. E dois sapatos fechados com cadarços pretos.
Nas poucas vezes em que sai, leva um guarda chuva. Não olha para ninguém na rua. Não levanta a cabeça. Mede cada passo. Compra provisões monásticas e volta para o apartamento onde fica.
Ela pensa. Pensa que não quer nada do futuro. Não conseguiu nada no passado. E no presente ela nada.
Acho que no final da historia essa senhora vai morrer.
domingo, 17 de julho de 2011
Senhora
sábado, 9 de julho de 2011

Acabei de ler Eugenia Grandet, do Balzac. O livro foi escrito em 1833. Leiga no autor, me surpreendeu a sensibilidade com que ele trata a alma feminina. Ele consegue captar necessidades, frustrações, entender reações e os sonhos das mulheres. Se pensarmos na época em que o livro foi escrito, tal sensibilidade espanta mais ainda.
Alguns artistas conseguem mesmo captar o ser mulher.
O italiano Amedeo Modigliani, o artista apaixonado pelos excessos, famoso na Escola de Paris e um dos principais pintores da primeira metade do século 20, fez retratos da amante Jeanne Hébuterne, que já’ `a época competiram com os retratos femininos feito pelo amigo, Pablo Picasso. O ultimo, feito quando a amante e musa já estava grávida, foi leiloado por 4.9 milhões de Euros. A empatia do observador com a mulher retratada ultrapassa a estilização que o artista adotara.
Jeanne, a amante, renunciara a família, aos amigos e a uma vida de abastada para ficar com o artista, que raramente voltava pra casa e quando voltava, era bêbado. Mas que nutria por ela um amor que parece infinito se olharmos para o quadro e lermos sua biografia. Ela se jogou da janela alguns dias depois da morte de Amadeu, em 1920, e morreu de amor.
Homens sensíveis?
Apesar de ter sido duramente criticado por dizer que só as mulheres normais gostam de apanhar, Nelson Rodrigues sabia profundamente dos sentimentos femininos, mesmo os mais vis. Em Bonitinha, mas ordinária, a personagem canalha se redime depois de ir ao fundo do poço. Ritinha, a prostituta, que sempre guardara a pureza de sua alma em meio às depravações do corpo, nunca gozara. O seu “machismo” pode ser explicado em outra máxima sua, a de que somos todos santos e canalhas, simultaneamente. Isso não diminui em nada os retratos literários que Nelson fez das mulheres que amavam, traiam e matavam em nome do amor. O dia a dia das donas de casa dos anos 50 e 60, que ao irem à feira se apaixonavam e freqüentavam os apartamentos dos amados e a noite estavam bonitas e cheirosas para os maridos.
Chico Buarque 'e outro artista que além das de Atenas, entende os sentimento das fêmeas que desejam ardentemente ser tatuagem no corpo dos homens. Quando ele canta a mulher, a voz fraca por fama, se emociona e parece ter dentro dele a mesma sensibilidade que outros artistas, por meio de outras artes tiveram.
Chico tem varias concepções de mulheres, de santas a putas, de Atenas ate Geni. Canta um amor dolorido que dizem só as mulheres sentem e clamam ser a boca de hortelã na manha do amado.
Por que estou citando esses artistas? Quero falar da mulher do século 21 e o que ela quer. A partir de Freud a mulher ganha também a possibilidade e o estatuto de ser histéricas. Histérica pelo que? O feminismo, que quis e quer acabar com o conceito vitoriano e burguês da mulher que e’ submissa e serve para parir, tão bem descrito por Simone de Beauvoir, na minha opinião, descaracterizou um pouco o sexo feminino. Não! Não somos iguais aos homens. Não somos piores, nem melhores. Somos diferentes geneticamente falando e nosso comportamento também ‘e diverso do masculino.
Queimaram sutiãs, lutaram pelo direito a pílulas e os mesmo níveis de poder. No inicio dos anos 90, a mulher começou ate a usar terno, para se igualar em ombro e altura ao homem.
Quer saber? Sou contra tudo isso. E Simone de Beauvoir devia ser também. Afinal submeteu-se aos caprichos de Sartre como uma boa apaixonada das letras de Chico. Nos, as mulheres, somos seres apaixonados, submissas sim, `as nossas próprias vontades que muitas vezes se encaixam com as vontades dos homens. Vejam bem, não são iguais as vontades dos homens, mas se encaixam.
Queremos ser tatuagem no corpo do homem que amamos. Quem nunca assinou o próprio nome com o sobrenome de um namorado ou um paquera? Quem nunca ficou grudada ao telefone esperando a ligação do dia seguinte? Que mulher nunca acreditou, logo depois da primeira noite, que seria para sempre?
Ate as vadias se entregam esperando serem salvas de tantos pintos que as rodeiam. Sim, as vadias também querem a salvação. Alguém que diga a elas que são especiais e únicas, apesar de serem de todos. Geni não deu para o rico do Zepelim apenas para salvar a cidade. Deu para se salvar também.
Queremos a salvação pelo amor. O delírio são, pela paixão. Queremos uma mao forte que nos pegue pelo cangote. Queremos a voz grossa que nos chame de amor ou de vagabunda, tudo na mesma noite.
Queremos ser semeadas pelo homem que amamos e ver a carinha de um ser que simboliza a junção de dois corpos. Queremos acordar cedo com beijos e flores, ceder às ereções matinais como servas de um amor que carregue durante o dia.
Sim, também queremos cargos de poder e independência econômica. Mas duvido das mulheres que dizem que não precisam de homem para viver. Duvido que elas não se encantem com o elogio diante de um novo lingerie ou de um bolo mal feito. Duvido! Duvido das mulheres que querem ser só’ santas ou só’ putas. A mulher ‘e versátil, ela pinta a unha de todas as cores para atrair o macho. Os decotes não são para o espelho, são para eles, buscam o olhar embasbacado de um homem apaixonado. Ou não?
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Alguns textos sao feito de listas. Coisas que quero, que nao quero, que me arrependo, que me orgulho. Nao gosto mais de textos de listas. Quero paginas sem linhas, para minha letra correr solta.
Ando cismada com o fato de nao conseguir escrever. Triste. Mas as vezes, e so' as vezes consigo.
Queria estar bronzeada e feliz. Assim como uma fotografia. Estampar a felicidade em papel com cor. E roer as unhas anda fazendo parte do meu dia a dia.
Fico neurotica atras de uma resposta. Como carta que se manda ao filho que esta longe. Penso futuro, penso passado e durmo.
Sempre fui dessas que dizem que so o amor salva, e continuo achando isso. Apaixonar-me agora? Seria bom? Entregaria meus dedos faceis a uma argola de mentira. Ou nao!
Vejo brotar uma semente dentro de mim. De prosperidade talvez. Ou e' mais um joguinho que a minha mente joga comigo? Esta na hora de eu dar as cartas. E decidir as regras do jogo. Mesmo escrevendo mal. Mesmo achando que nao e' suficiente.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Assim

Queria que você puxasse assunto comigo. Queria que me dissesse “ e ai?” .
Queria que me escrevesse duas linhas e assinasse “saudade”.
Queria que você tivesse me dado aquele beijo. Ele não precisaria existir por tanto tempo se tivesse acontecido.
A musica não tocou. Não existe musica sem o primeiro acorde. ‘E o mais importante, o primeiro, ou não ? E eu que planejava montar uma radio com você.
Meu cigarro se queimou no cinzeiro, sozinho. Sem que eu tragasse nosso depois. O nosso depois não existe, porque fomos roubados do antes e do durante. Quem nos roubou?
Meu romantismo sempre da de cara com um muro alto. Por isso me acabo em farra.
Gosto de ler o seu nome. Me da vontade de te chamar.
Se pudéssemos lembrar um, o jeitinho do pe’ do outro.
Temos uma intimidade muito natural.
Se eu pudesse ter dialogado o que escrevo com você. Lembraria da sua reação.
Um momento, preciso limpar meu cinzeiro.
............................................................................
Voltei. Me acabando em fumaças.
Sou mais sensual hoje.
Do que era antes.
Sei que posso.
Não bebi sua saliva. Não. Nos meus sonhos, você saliva muito.
Queria que uma luz tivesse brilhado em algum momento para nos dois ao mesmo tempo. Seria uma foto?
Eu a guardaria nas minhas pastas. Trancadas a sete chaves. Para algo ser so’ nosso.
Talvez, com você eu achasse a Lua romântica.
Poderiamos acreditar mais no amanha se tivéssemos nos penetrado. Profundamente.
Talvez não gostássemos da mesma cor.
Não segredamos de liquidificador, não temperamos nada juntos.
Olha, sabe o que eu gostaria de saber? A cor da sua meia!!!
Imagino, e s’o imagino porque não posso me lembrar, que bebida seria nossa favorita? Sim, porque com certeza temos algum gosto excêntrico em comum.
Teri'amos nos dado o céu?
Agora, as 17:18,não iria ao cinema com alguém que não fosse você. Mas no minuto seguinte..
Assim, sem explicação.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
E voce?

Eu tiro meus chinelos.
Piso no frio chão.
Tenho medo de abelhas e gostaria de saber escrever uma musica, letra e melodia. E se possível canta-la sem que ninguém reclame.
Tenho medo de gente também, mas esse medo eu venço. Sempre. Ou não?
Gosto de asfalto no escuro, com aquelas duas listras ‘a frente.
Rezo 2 horas ao dia, por um mês. Fico 3 anos sem rezar.
Eu olho para a cara de alguém e sei se vou gostar dela. Quase sempre acerto. As que não acerto viram melhores amigos. Uma delicia as surpresas da vida.
Tiro prazer do fazer errado. Não faço a toa.
Dificil eu dar risada se não estiver perto de crianças. Elas nem percebem, mas sou eu a que mais se diverte.
Não sou hiper vaidosa com roupa, mas adoro detalhes, material, cor, textura de meias. Adoro meias.
Antes eu tinha medo de dormir tarde.
Sol nascendo não me angustia.
Eu me realizo?
Gosto do azedo e do forte.
Insisto tanto que a pedra ate fura.
Sou tão devagar que pareço rápida.
Minha pontuacao ‘e minha assinatura. Pontuo de uma forma pitoresca, pra dizer o
mínimo. Autoral, fica mais in.
Não sei fazer divisão, subtração. S’o somar e acumular amor. Amei todo mundo que já passou aqui, pela minha vida.
Não escrevo textos retangulares. So os deformes.
Em algumas ocasiões muito especiais da minha vida ouço Bjork e Tom Waits. Com um prazer filho da puta.
Compro livro também pela editora.
Ser’a que as editoras, ao fecharem seus budgets e fazerem seus planos de negócios anuais, consideram o fortalecimento dos sebos, inclusive virtuais? O brasileiro esta aprendendo a re-usar e pagar mais barato por isso. Talvez fizesse uma matéria sobre isso.
Talvez não!
Sou redondamente enganada.
Não me siga que estou perdida.
Nenhum parágrafo explica o outro. Se não, não se bastam enquanto parágrafos. Mesmo parágrafos feitos s’o de perguntas. Nelas já estão as resposta. Quem gosta de gente sabe como fazer uma pergunta, pra resposta já vir da reação antes da explicação .
Amo filme B brasileiro. Barbas grandes, calcas justas, pintos grandes. Meio demode, retro, mas ‘e legal. Não ‘e?
Nunca estou na frente do espelho a essa hora, mas costumo forcar a mandibula quando estou me divertindo. Sera’ prazer?
Tudo o que você precisa. Onde esta? Voce ‘e daqueles que se contenta com de pouco em pouco? Devagar e sempre? Chato isso, hein? Tem coisa que se for devagar não vai chegar a tempo.
Estou pensando em tudo o que preciso.
Sou tempo

Quero acreditar que sou tudo. Tudo que pra mim bastaria. Desconfio as vezes que sou. Mas ai aparecem as barreiras da sociedade, os conselhos, os alarmes, o choque. As pessoas me olham chocadas com as coisas que faço. E’ verdade.
Que não acredito em uma casa, que e' a sempre chamada de sua, sempre com o seu quarto. Acredito ter muitas casas. E elas são sempre muito minha casa quando la’ estou. Sou boa dona de casa. Mas mudo muito. Acho que a felicidade tem endereço. Realmente acredito nisso.
Eu ainda não sei o endereço da minha felicidade. Pode ser que já tenha uma pista do Cep. Mas ainda não sei como chegar la’. Esse negocio de que se você se perder de alguém, deve ficar parado onde esta' que essa pessoa te achara’, e' maior balela. Se se perder, saia correndo, rode tudo o que puder ate achar o que quer.
Fiquei muito tempo no mesmo bairro. Virei conhecida, bairrista, tenho que cumprimentar o porteiro, sabe? Não gosto disso. Gosto de não ser conhecida. Gosto de ser anônima e invisível. Agora ando fazendo pesquisa de endereços.
As pessoas continuam me olhando com espanto. Como se esperassem que eu evoluísse ao que elas acreditam ser evoluído e já estivesse com vontade de me encaixar em alguma coisa. Não, pessoas, vocês estão erradas. Ainda não achei onde. Não se esqueçam a felicidade e' onde.
Vou rodar ate quando? Bem, a principio ate quando achar o endereço da felicidade. E não e venham hipócritas dizer que a felicidade esta dentro de mim. A felicidade esta em todos os lugares. Dentro de mim tem a vontade de ser feliz. Não!
Mas pode ser que quando encontre minha felicidade eu já, já enjoe dela. Ou ela deixa de ser felicidade. Já’ aconteceu antes comigo. Ai faço caminho de volta. E não me sinto nem um pouco Sisofo com a pedra acima morro, pedra rola do morro, pedra acima morro, pedra rola do moro. Mas a minha busca seria em vao, se eu não acreditasse que uma hora vou encontrar a felicidade duradoura. Aquela que esta em harmonia com o tempo.
Sou um tempo , ‘E o que os cientistas concluíram. Que não somos espaço, somos tempo. Sim, porque a cada minutos que somos humanos estamos sendo um tempo. Li na Scientific American. Muito boa matéria.
Eu sou sim, tempo. Um tempo que passa. Que não para.
Minha mãe diz que o tempo ‘e um foguete e eu já estou pendurada no rabo do foguete. Por que será que ela diz isso? Por que acha que eu vou morrer cedo? Ou porque acha que eu já deveria estar em outro estagio da vida e estou com o tempo contra mim. Não mãe, o tempo ‘e sempre a meu favor quando esta’ a minha disposicao.
Ainda da’ tempo de tudo. Sempre vai dar, ate’ o ultimo minuto. Eu ainda quero ver partes que eu não vi. Eu ainda quero fazer trabalhos que ainda não fiz. Eu ainda quero conhecer gente que nunca conheci. Eu ainda quero ter experiências que nunca tive. Quero experimentar mais drogas, mais temperos, mais bebidas locais. Ainda quero comprar jornais de lugares diferentes. Estando em cada um deles.
Ainda quero, e logo, sentar em Montmartre, numa cadeira externa de um café’
parisiense e escrever. Sim, pensar, filosofar, tomar um brandy, fumar um cigarro e escrever. Por que não, gente? Qual o problema? Estou velha pra isso?
Eu tinha que estar pensando o que então?
Eu sou tempo. Não sou O tempo, mas sou tempo.
Me liberte.
Ps. Por favor, facam um esforco para se incomodarem pouco com os erros de portugues. Estou com um teclado sem til, acento, cedilha e etc........ Sorry.
sábado, 11 de junho de 2011
Molhada
O problema é que as horas passam. As idéias mudam, a cabeça fica e o corpo padece. O sentido já perde o sentido. Nada mais é tão querido. A duração ou o tamanho do amor acabam com o conceito dele mesmo. Então tudo vira uma música que tem começo, quando estranhamos o som , o meio, quando nos deixamos levar pela emoção da melodia e o final, quando ela apenas acaba. E depois o silêncio. A escolha de outra música. O cuidado com o repertório. O que ainda faz parte de mim?O que ainda meus ouvidos querem? Que frutas faltam na minha cesta? Penso nas cores, nos sabores e nos cheiros, básica assim, me livro de mim mais um pouco e sou rudimentar como madeira que rachou. Penso em elementos que me deixem sentada na grama, com o pé na terra e a cabeça na chuva. Assim repito a música. É também uma escolha. Por que não ouvir tudo de novo? E de novo.. e de novo. E mais uma vez, até cansar os ouvidos e tentar dormir rezando pro silêncio não ser notado.
As estações que mudam, meus hormônios, minha pele e meu cabelo. Eles caem às vezes. De vezes em vezes. E eu assisto, passiva, a bandeja das minhas limitações ser servida a quem quiser se fartar. Bêbados fazem comentários quebrados e cheios de vírgulas. Como entender o outro fosse tarefa de bandeja. Mas cá dentro estou sentada na terra com a cabeça na chuva, que cai quando quer e sem aviso. Vem de surpresa e eu comemoro que ainda posso me molhar. Vivas.
sábado, 11 de dezembro de 2010
O primeiro trago...

Até acender aquele cigarro ele poderia dizer que havia tido um bom dia. Mas aconteceu de acender. Saiu do trabalho mais cedo. Realizado havia fechado um negócio que sentia muita vontade de fazer. Decidiu caminhar um pouco, sentir o vento da tarde. Caminhou entre as pessoas sentindo que era uma pessoa de sorte. E sorte, como ele diz, é pra poucos. A maioria vive sem ter prazer no que faz e isso arruína a vida de uma pessoa. Ele não! Fazia exatamente aquilo que lhe dava prazer, acordava animado pensando que passaria o dia no escritório. Ainda é solteiro, mas sabe que mais cedo, mais tarde, acaba fazendo um bom casamento. Sim, afinal é um bom partido, tem um emprego, casa própria, viajado. Não demorará a encontrar alguém compatível. Seus pais moram em uma cidade do interior. Por falta de tempo pouco os vê. Nos finais de semana leva trabalho para casa e sai para tomar um chope com os amigos do trabalho.
Caminhou, caminhou pensando nessas coisas . Decidiu sentar numa mesinha de café, na rua, para ver as pessoas passarem e confirmar a cada passo alheio o quanto os seus eram de sucesso. Parara de fumar há seis meses. Mas há algumas semana vinha sentindo muita vontade de voltar. Pediu um expresso curto e um maço de Free. Segurou o cigarro entre os dedos por muito tempo antes de ter coragem de acendê-lo. Ter parado de fumar era mais um traço de seu sucesso e não sabia se estava pronto para deixar isso passar. Fazer uma exceção?
O primeiro gole de café o excitou para o cigarro. Acendeu e foi na primeira tragada que sucessivas ondas de calor e frio tomaram conta do seu corpo. Pensou que fosse tontura do primeiro cigarro depois de tanto tempo. Mas não era. Fumou o cigarro todo e as ondas continuaram. Então pediu outro café e acendeu mais um. As ondas agora estavam em sua cabeça. Mas não eram ondas simples essas. Traziam-lhe lembranças, arrependimentos, vontades escondidas. Estava sentindo-se muito diferente do homem resoluto que sentara-se ali a pouco. Não sabia mais nada.
Foi ao banheiro jogar um água na face. Não se reconheceu ao espelho, não era mais o mesmo. De onde saíram essas rugas? E esse cabelo bem curtinho? Gostava tanto de cabelo mais comprido. Preferiu não olhar mais e voltou para a mesa.
Sentou-se, submetendo à cadeira todo o seu peso, jurando a ela que ficaria ali por bastante tempo. Até saber o que estava acontecendo. Pensou nos pais. Pensou em agora mesmo pegar o carro e ir até a casa dos pais, de surpresa. Mas desistiu. Pensou na Laura, com quem terminara há um ano. Dizia que ela não tinha ambição. Pensou em correr para casa de Laura. Pensou que não teve filhos, apesar de já ter passado dos 35. Pensou em agora mesmo engravidar uma mulher, ou duas talvez, para em nove meses ver o milagre da vida acontecer.
Pensou no seu chefe. Sim, sentia-se reconhecido, mas trabalhava como um louco.E a maior parte dos créditos ficava mesmo era para aquele canalha. Pensou em correr para uma praia, sem notebook ou celular e ficar com os pés na areia até cansar. Pensou nos livros que queria ter lido ,mas o tempo escasso não tinha deixado. Quase correu para livraria ao lado para comprar pelo menos 10, sentar e ler até eles acabarem.
Há quanto tempo não ia ao cinema? Pensou em descobrir alguma mostra de cinema internacional e assisti-la inteira. E um porre?? Ah, isso fazia muito tempo. Pena que o Café onde sentara não tinha bebida alcoolica. Mas passaria no supermercado comprar vinho ao sair de lá.
Lembrou da Road Trip pelos Estados Unidos que seus amigos de faculdade fizeram no ano passado. Ele havia sido convidado. Mas pensou que road trip não era mais para sua idade. E não foi. Ficou trabalhando. Lembrou também do colchão de água que sempre quis e nunca teve coragem de comprar.
Um cigarro atrás do outro e ele percebia que sua vida não era tão boa sim. Que seu dia havia sido sim, uma merda. Será que ainda dava tempo de fazer tudo isso? E rápido?
As ondas começaram a passar e ele se sentiu melhor. Sem o menor sinal de vergonha ou consciência, fumou o último cigarro do maço. Levantou e pensou: tenho que parar de fumar.
Voltou para casa sem o vinho.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
O buraco vermelho

Disseram que ela olhasse bem no fundo do buraco vermelho, para que tentasse descobrir ali o que estava faltando para ela acordar. E foi assim que acordou. Assustada de vermelho. E o buraco estava ali, no seu quarto. Quieto, apenas sendo buraco. Bem devegar, ela cobriu o rosto com a coberta e ficou um minuto ouvindo a própria respiração. Lógico que estava era esperando olhar e o buraco ter desaparecido.
Mas se no sonho disseram que ela precisava descobrir o que tinha dentro do buraco para acordar, era sinal que ela ainda estava dormindo. Não! Beliscou-se e realmente estava acordada. Não tinha coragem para levantar-se e investigar o mistério do buraco vermelho. Tremeu. Uma vez só. É, treme-se uma vez só, às vezes, quando o medo é tão grande que só da pra tremer uma vez.
Pensou em gritar, alguém iria ouvi-la. E vir a seu socorro. Gritou, e muito! Mas ninguém veio. Como assim? Onde estavam as pessoas da casa, por que não a ouviam? Olhou os próprios pés, as unhas estavam ficando azuis. O corpo estava gelado. Será que estava morrendo? Gritou mais e mais, sem resposta. Sentiu uma umidade na camisola de pano branco que usava. Tinha urinado sem perceber. Era isso, estava morta! E desesperada!
Perguntou-se se há desespero após a morte. Não sabia o que pensar. Alguém vestido de branco viria busca-la? Iria para algum outro lugar, ou seu destino pos mortem era ficar naquele limbo pessoal e conhecido que era sua cama.
De dentro do mais dentro dela veio uma coragem imensa e ela pos os pés no chão. Surpresa, não sentia o chão! Acabou minha vida! Deitou de novo e se escondeu de novo embaixo da coberta. Aquele pesadelo tinha que acabar. Sim, iria então flutuar até o buraco vermelho para descobrir o que tinha ali, e assim quem sabe poder acordar. Flutuou e se sentiu livre olhando bem no fundo do buraco. E o que viu?? Viu a si própria dormindo.
Bateram à porta:
- Abre menina, está na hora de acordar.
E ela pos os pés no chão!
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Não se vive tão intensamente

Era tarde de quarta feira e ela não gostava do meio da semana. Meio de semana é como bolo sem açúcar, vodca sem limão. Meio da semana é uma chatice. Saiu para andar, coisa que não fazia com muita assiduidade, pois não gostava da cidade em que morava. Mas isso já não importava mais, estava de mudança. Em breve não andaria mais essas ruas.
Mas nessa quarta feira andou. Pensando em tudo, como se estivesse partindo naquele dia e tivesse que se despedir. Um lamento talvez. Sim, porque mesmo quando a partida é voluntária, há sempre um lamento. Alguma coisa deixada sem viver. Mas é impossível não ser assim. Não vejo outro jeito. Mais hora, menos hora, temos que partir de algum lugar para outro e não vamos ter vivido tudo. Não se vive tão intensamente.
Tem também os que ficam parados. Mas isso é chato, esses já perderam toda a parte boa. Enfim, ela gostaria que aquela tarde fosse de outono, que são conhecidamente as tardes mais bonitas.
Mas não era! Verão naquela cidade era um inferno. Ela se sentia um pouco no meio do inferno, ou melhor, é como se o inferno estivesse um pouco dentro dela.
Um barulho lhe chamou a atenção, era uma batida de carro bem na esquina que já atravessara. Triste sair para caminhar e ver uma batida de carro. Gostaria de que cada vez que sentisse vontade de andar, a cidade se esvaziasse e as ruas ficassem só para ela. Para não ter que olhar, sorrir, botar reparo no sapato.
Quando era criança ia muito à missa, levada pelos pais , a quem hoje não sabe porque mas chama de híbridos. Óbvio que não prestava atenção ao sermão, mas sim no sapato das pessoas que iam entrando e sentando . E depois todos sentados, ela prestava atenção no cabelo das mulheres sentadas de costas para ela. Quando via o tempo já tinha passado e chegara aquela hora chata da missa onde se diz “Paz de Cristo”, e ter que dar a mão para algum desconhecido, adulto e que lhe botava medo.
O medo estava todo nela, assim como o inferno. Os homens da missa não deveriam ser perigosos, assim como as pessoas que encontra nos seus passeios também não.