terça-feira, 25 de novembro de 2008

Cada um tem o que merece


"Cada um tem o que merece”. Estava na outra mesa, mas não pude deixar de ouvir a frase, que ficou ecoando na superfície dos meus pensamentos por todo o dia. Foi um dia comum, de trabalho estranho, de refeições planejadas, de amores indecisos. Hora de ir para casa, entrei no carro, liguei o ar e a música, eu não ouvia. Ouvia apenas: “cada um tem o que merece”. Dirigi um longo caminho para casa, o trânsito estava ruim, o céu, cruel de cinza ameaçava derramar muita água e apesar de estar no caminho, não estava com vontade de ir para casa. Não, cada um tem o que merece, não posso ir para casa. Sempre me perco nos caminhos de São Paulo e seria bom se hoje isso acontecesse. Eu me perdesse. Afinal, cada um tem o que merece. Mas não me perdi. Sabia direitinho como chegar em casa. Tinha escolhido um caminho já decorado desde minha reestréia na cidade. Mas como cada um tem o que merece eu decidi que merecia ir pra onde quisesse, e não era pra casa. Virei a primeira rua que parecia sem trânsito. Se não tinha trânsito numa hora de rush daquelas ou era sem saída ou ninguém queria ir pra lá. E como cada um tem o que merece, eu queria. Rua estreita, mas logo vi que tinha saída. Escura, nem parecia estar dentro de São Paulo. Na verdade, uma rua estranha. Mas era ali que precisava estar, numa rua estranha, com paralelepípedos quebrados, luz fraca e casas pequenas. Estacionei e acendi um cigarro. E se fosse assaltada? Bem, cada um tem o que merece, então fumaria meu cigarro, sossegada, sem medo de ser assaltada. E talvez se um assaltante chegasse, eu o beijasse, pedisse que me comesse e passasse a noite comigo.E como cada um tem o que merece talvez até o levasse para tomar um vinho. Asneira. Não fui assaltada. Liguei o carro e fui em frente, sem saber pra onde. Quando me dei conta, estava na Vinte e Três de Maio parada. É assim, quando você menos espera, está engarrafada de novo. Milhares de luzes vermelhas à sua frente, todos indo para o mesmo caminho que você. Mas talvez naquela hora ficar parada no trânsito no sentido inverso ao da minha casa fosse bom pra mim, me daria tempo para pensar em onde ir. Não iria para casa. Que me esperasse, cada um tem o que merece. O rádio continuava repetitivo, os carros ao lado, todos com janelas fechadas e provavelmente blindados. São Paulo tem muito medo. Nem sei mais se o medo é das pessoas ou se cristalizou tanto que virou o medo da cidade. Conhece uma cidade que tem medo? São Paulo em si, enquanto cidade tem medo. Mas como naquela noite eu tinha certeza de que cada um tem o que merece, eu não tinha medo. Faltavam-me idéias de pra onde ir. Não queria ligar pra ninguém, convidar ninguém para nada. Queria ir sozinha pra viagem que só eu mereço fazer. Que seja merecimento ou punição: cada um tem o seu e cada um sabe-se seu. Enquanto o trânsito estava parado resolvo roer o resto de esmalte que estava nas minhas unhas. Essa semana decidi passar roxo. Queria vibrar uma cor nova, queria irradiar alguma novidade. O roxo não ajudou, então aproveitei o nada fazer para roer a cor das unhas, roia e cuspia, uma delícia, mas sei ser um espetáculo nojento para quem olha. Nesse cuspir de unhas foi me dando vontade de chorar, aquele trânsito que parecia infinito estava me dando claustrofobia. Com certeza não só em mim. Como disse, São Paulo tem medo e São Paulo sofre. A gastronomia é maravilhosa, as opções e cultura infinitas, de compras, de lazer, tudo de primeiro mundo. Mas São Paulo tem medo e São Paulo sofre, e muito. Mas como disseram hoje de manha no Frans Café da Paulista e eu ouvi de enxerida que sou: cada um tem o que merece. Consegui vencer o trânsito com paciência espartana. Fui brava, corajosa, respirei fundo, abri as janelas sem medo e tomei ar pra mim. Ar frio e com medo, mas enchi os pulmões para decidir onde iria. Decidido: ouvi dizer que o Ibirapuera tem passeios noturnos. Um pouco de natureza não me faria nada mal. Republica do Líbano e lá estava eu. Estacionei o carro e como ainda eram 7 e pouco da noite, vi muita gente caminhando, correndo, buscando a parte saudável do dia. Desci com medo. Agora sim estava com medo. Tinha decidido onde iria e cada um tem o que merece. Entrei no parque e comprei uma pipoca que não comi. Senti nojo e joguei na primeira lixeira que vi pela frente. Andei, andei, andei, quase uma hora, quase até minhas pernas doerem de andar. Estou fora de forma, triste lembrar. Ando fumando demais, bebendo demais e me exercitando de menos. Mas andar estava bom. Encontraria alguém ou alguma coisa que mereço e para ter certeza de que isso aconteceria deixei o celular no carro. Nada me atrapalharia na minha busca pelo que mereço. Sentei num banco. Fui relaxando, relaxando, coloquei a bolsa ao lado e me deitei. Sim, o que tem demais deitar num banco do Ibirapuera? Deitei e peguei no sono. Acredita: cada um pega no sono onde merece. Eu peguei no sono dentro do parque do Ibirapuera. Sono pesado e sonhei. Não, não vou contar o sonho. Ah, será que conto? Não foi tão legal assim, cada um tem o sonho que merece.


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A sua dor


A sua dor também me dói, mas por ser sua do que por ser dor. E se eu disser de novo a palavras saudade vou estar abusando das letras. Não vivemos o que tínhamos para viver e essa sensação é bolo que não assou, é chuva que não choveu é latido sem som. Tivemos boa vontade, mas ditados já dizem que delas todo lugar está cheio e não somos pessoas de qualquer lugar. Temos os nossos. Isso podemos dizer que fizemos: construímos histórias em lugares, tantos deles. Não paramos porque o movimento nos fazia amor e quando paramos o amor acabou. A nossa música ainda toca, eu tenho ela aqui. E lembro da primeira vez que você me disse três palavras juntas. Eu estava girando. Hoje não giro, ando em linha reta e me pergunto quem foi que me disse que era pra andar assim. Lembro de você com fome e eu te dando café da manhã. Somos pessoas de fome, não é? E saudade (aí vai ela) é fome que não se mata. Até te ver. Eu sonho outros sonhos e você vive outra realidade. Roda Gigantes de tamanho que subestimamos. Já disse que você usava shorts e eu saia rodada, fomos infantis menino, fomos infantis e agora é viver de gotas que escorrem e de fumaça que saem dos cigarros que pensam em nós. Porque nossa história agora é história.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Depois daquele baile


Depois daquele baile eu disse a ele que nunca mais dançaríamos juntos. Ele disse que não acreditava. Fui comer um sanduíche nem sei em que cidade. Pernil com muita maionese. Não gosto de carne de porco, mas até ai não sei em que cidade estou. Me lambuzei e me satisfiz. Nem sempre os dois acontecem juntos. Às vezes a gente se lambuza pra depois sentir mal e ter que limpar. Como não sabia em que cidade estava, achei melhor procurar minha casa a pé. As ruas estavam escuras. Cheias de pedras no chão e poucos carros passando. Alguns paravam perto, imaginando ser eu uma prostituta a procura de cliente, sem saber que naquela noite eu já tinha me lambuzado. Um dia me imaginei sendo prostituta. Pelo sexo, pelo dinheiro e pela coragem. Sim, para se prostituir tem que ter coragem.


Andei até cansar, quando cansei decidi andar mais. Se achasse um táxi e ele parasse não saberia dizer para onde queria ir. As luzes das ruas eram luzes de cidade do interior. E apesar de não saber em que cidade estava, sabia que não estava no interior. É estranho como algumas vezes sabemos o não e não sabemos o sim. É essa a diferença da certeza, não é? Para ter certeza é preciso saber os dois. Esqueci do baile, tinha acabado e com ela minha história com o homem. Um homem que fora ninguém. Virei numa rua que eu achava conhecer. O curioso é que nela, havia uma casa que parecia aberta e com a luz acesa. Já era madrugada alta, não era para ter ninguém acordado naquela hora. Mal pude acreditar quando vi uma senhora sentada numa cadeira na calçada. O que faria ali, àquela hora? Fui chegando mais perto e me certifiquei de que estava viva. O que? Poderia ter morrido sentada na cadeira e ninguém ter percebido. Estava viva, e sorria.


- Boa noite, eu disse, com um tanto de medo de que a mulher estivesse mesmo morta, apesar de sorrindo. - Boa noite, o que fazes por aqui a essa hora?


- E a senhora, o que faz sentada na rua no meio da madrugada?


- Adoro madrugadas, é a melhor hora do dia para se tomar uma brisa na calçada.


- Mas senhora não acha perigoso não?


- Acho, mas a vida toda achei tudo perigoso e isso não me impediu de fazer tudo o que fiz.


-Agora me diga você, o que fazes por aqui?


- Eu fui a um baile e mandei o homem embora, disse que era a última vez que dançaríamos juntos. - Ah, e está triste por isso?


- Não, de jeito algum, estou tão feliz que decidi procurar minha casa caminhando.

- Perdeu-se, não sabe onde é sua casa?

- Para ser honesta com a senhora não sei nem em que cidade estou!

- Nossa, acho que você deve estar cansada, minha filha. Entra ali, ó, pega uma cadeira e sente-se aqui ao meu lado. Ela apontou para a sala, que estava aberta. A porta era de madeira, enorme e de um azul claro que só vendo. Abri a cadeira ao lado dela e me sentei, foi só então que vi o quanto estava cansada.

- Está mais confortável agora?

- Estou confortável sim.

- Então, agora pode me contar como veio parar aqui.

- Simples, saí do baile, parei num carrinho de lanche e vim reto até aquela última rua ali, ó, aí decidi virar aqui porque a rua me pareceu conhecida.

- Ah, que bom então. E ficou em silêncio. A senhora sentada numa cadeira de praia na calçada, de madrugada ficou em silêncio. Sorria, sempre sorria. Acho que era a felicidade de fazer exatamente queria que lhe dava de presente esse sorriso tão calmo. E em silêncio ficamos por mais de uma hora.

- A senhora mora nessa casa sozinha?

- Sim, há muitos anos. Meu marido morreu e eu não tenho filhos. Tenho sim muitos vizinhos, que estão sempre aqui em casa comendo meus bolos. Faço bolos para fora .Adoro criar novas receitas e ver as pessoas celebrando com meus bolos. E como não posso dá-los, o que criaria uma fila imensa na minha porta, acabo vendendo.

- Ah, lógico. Devem ser uma delícia, já que são feitos com amor. Já que você apareceu aqui de madrugada assim, com essa carinha tão bonita, vou te contar um segredo. E contou:

- Eu não durmo muito bem minha filha. Desde pequenina que tenho problemas para pegar no sono. Durmo umas duas ou três horas por noite, quando muito. Sendo assim, aproveito para assar meus bolos à noite.

- Ah, eu também não durmo, saiba a senhora. Mas olha, não precisa sofrer tanto. A senhora pode ir ao médico e tomar um remédio que vai fazê-la dormir como um anjo, um sono de bebê.

- Querida, sono de bebê eu já tive quando fui um. Não quero mais. E sono de anjo: ainda quero adiar um pouquinho, já que não tenho planos de morrer tão cedo. Queria era ter um sono de uma senhora na minha idade. Como isso o remédio não faz, prefiro ser assim mesmo, sem dormir.

- Se quiser podemos fazer um bolo. O que acha?

- Fazer um bolo? Mas eu não sei cozinhar, aliás, não entro numa cozinha há anos.

- Melhor ainda, assim vai entrar na minha cozinha, que é especial e cozinhar comigo, que tenho paciência para te ensinar.

- Mas já está quase amanhecendo, vamos fazer um bolo a essa hora?

- Não tem hora certa para fazer bolos, querida.

A senhora levantou-se com dificuldade. E foi só quando levantou que vi o quanto era velha. Deveria ter mais de oitenta anos. O sorriso sentado a fazia parecer mais jovem. Pegou a bengala que estava no chão e entrou na casa. Eu fui atrás. Ela tinha os cabelos totalmente brancos, enrolados em um coque. Vestia um vestido de pano, com botões na frente e chinelas. Simples, idosa e sorridente, assim era a senhora que assava bolos de madrugada. Quando entrou na sala, acendeu as luzes e só então pude ver como era bonita sua casa. Pé direito alto, sofás antigos com estampas florais, vários tapetes, um se sobrepondo ao outro, protegendo o chão de madeira.

Uma mesa de centro com muitos enfeitinhos de vidro e cristal. O cheiro da casa não era de bolo ou de coisas antigas, era um cheiro de casa limpa. Parecia mesmo uma casinha de sonho. Mas eu estava acordada demais para saber que aquilo não era um sonho e nem uma alucinação. Era uma realidade dessas que só acontecem de madrugada. Ela sorriu e apontou a cozinha com a bengala. Entrei. Era uma cozinha grande, com pias de concreto e muitas coisas pendurada nas paredes. Confesso que depois da sala esperava encontrar uma cozinha mais organizada. Ela percebeu minha surpresa e disse:

- Lugar de criação é lugar para estar bagunçado. Se aqui tivesse organizado meus bolos não estariam tão bons. Então vamos assar um bolo. Você gosta de bolo de abacaxi?

- Sim! Na verdade adoro bolo de abacaxi.

Acabara de descobrir que era o meu favorito. Dentro da cozinha ela se movimentava com uma destreza que não fazia fora dela. Era rápida, em alguns minutos a pia já estava cheia de panelas e me deu a tarefa de descascar o abacaxi. Quando ela disse “descasque o abacaxi”, achei irônico, mas me lembrei que estávamos apenas nos empenhando na tarefa de assar um bolo. Peguei uma faca grande, descasquei o abacaxi e cortei em fatias finas, como ela mandou. Enquanto isso, ela misturava farinha, açúcar, fermento, batia chantili, fazia um creme separava o açúcar e falava. Pensei em como sempre exagerei nos ingredientes, nas poucas vezes em que cozinhei. Sempre achei que antes pecar pelo excesso do que pela falta. Ela me explicou direitinho porque a quantidade certa muda não só o sabor, mas a consistência do bolo.Começamos a montar o bolo e ela sorria. Agora um sorriso ainda mais doce, cheio de açúcar. Perguntei a ela:

- Quanto tempo leva para esse bolo assar?

- Umas duas horas.

Quando ela disse duas horas, lembrei que estava ficando com sono. Precisava dormir. Acho que ela adivinhou meus pensamentos e disse:

- Enquanto eu termino o bolo você pode tirar uma soneca. Tenho um quarto de hóspedes.

O cansaço me disse que aceitasse. Ela me levou até o quarto e disse:

- Deite-se, descanse um pouco. E pode deixar que eu te acordo.

Deitei. Pensei o quanto tinha sido bom ir ao baile. O quanto tinha sido bom mandar aquele homem embora e o quanto seria bom comer bolo de abacaxi na manhã seguinte. E dormi!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ar recondicionado




Deitei no sofá, feito de almofadas de areia de uma praia deserta. Estendi o corpo. Encostei a cabeça numa altura improvisada. Chovia. Todas as janelas fechadas. A porta, a prova de som, fechada. Nada de ar. Respirei dentro de mim mesma, busquei ar em túneis que estão comigo desde a primeira viagem. Usei tudo o que tinha. Pouco sobrava. Foram poucos minutos e em mais alguns: sem respirar.
Olhei para o céu branco em cima do sofá: concreto, gesso e a saída do ar condicionado interno. Uma folhinha picotada em algumas fatias fica colada à saída do ar para avisar os dormentes que ele está ligado. A cabeça girava, o monstro acordava e queria caminhar. Voar. Usar e abusar do corpo que restava.
As pálpebras dançavam freneticamente, brincando de deixo e não deixo você ver. As garras, que quando vou à manicure chamam de dedos, começaram a inchar. As pontas dos dedos pareciam crescer pelo minuto. O pescoço endureceu e chama-se pedra. Consegui subir o morro e carregar a pedra, virá-la para baixo e olhar minhas mãos. As pálpebras me protegeram. Feche! Não veja! Cuidado com o monstro que acorda.
Os fios dos meus cabelos estavam gelados, duros. Congelaram ao sal das lágrimas. E viraram estátua. Um movimento desavisado e eles quebram. O papelzinho do ar condicionado continua a ventilar, dançar, brincando comigo, dizendo sim, eu funciono. Não pode brincar assim, com quem está congelando, inchando e hospedando monstros. Não pode.
Chega de pálpebras brincando, abro mesmo e olha aqui ar condicionadooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo: entrei.
Estou dentro do tubo do ar condicionado. Caibo aqui? Meu corpo, que agora é corpo de novo, desliza por túneis com pouca cor. O frio é intenso, mas o cabelo descongelou. Minhas pernas movem como sereias sozinhas, leves, guelras que nadam no azul. Meu corpo é tão grande que os olhos estão muito distantes das pernas. Olho elas de longe. Olá pernas, como estão longas. Dedos que já foram garras acenam para mim. Também estão longe. Abaixo e a força do ar me leva junto, não tem como grudar a cara no chão e esperar passar. Vou flutuando ao barulho do ar. Viu monstro, fugi aqui dentro e você está ai fora, deitado no sofá. Buuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.
O corpo, o meu, cresce, está ficando cada vez mais longo dentro da caixa do ar. De tão forte o vento, estica, o corpo que obedece ao balé aéreo de fuga de monstro e estica. Meus olhos, agora menos vidro, enxergam melhor. Outra saída. Deve ser a central do ar condicionado. Ponho os longos braços, que tão só braços, para frente, em posição de mergulho e uuuuuuuuuuu mais um mergulho de olhos fechados.
Abro, estou em outra sala. Caio no chão. Direto da saída do ar condicionado. Silêncio. Sala vazia de gente, cheia de peixes. Azuis, de água, vermelhos, pretos, beges, sem cor, belos e feio. Um deles, o vermelho olha para mim e diz:
-Vem nadar.
Porra, que merda é essa de peixe falar? Como se o ar condicionado não fosse o suficiente.
-Não entro, não nado e peixe não fala! respondo.
-Ok.
Cara, agora peixe fala inglês.
Surpresa: estou molhada. Não sei de que. E o cheiro é de mar. O vermelho me encara. Chega, não olho mais para ele. Viro pra trás e tenho pouco tempo pra pensar, pois vem uma onda do tamanho do mar todo. Abaixo, encosto o nariz no chão (agora sim!) e a onda fica muitos de alguns minutos passando. Uma onda enorme. Quando finalmente o revolver de areia a água salgada acabam, ponho a cabeça, agora em tamanho normal, para fora. Quase sem fôlego. Mais um pouco e eu teria me afogado. Já estou seca. Assim, como num passe de mágica: sequei!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O moço que ia


O moço levantou-se e foi. Seguiu pela rua movimentada. Parou na padaria e comprou uma lata de coca, que saiu tomando. Tropeçou num saco de lixo que estava jogado no chão sujo da cidade que não era mais limpa do mundo que não era mais seu. O moço foi, porque tinha que ir. Andou ruas e ruas. Atravessou carros. Muitos carros da cidade movimentada que cheirava fumaça e estava quase podre porque o mundo estava acabando e ele com tosse da coca cola e da poluição. O moço foi, atravessou a ponte da cidade que está doente e viu pessoas de sacolas nas mãos e guarda chuvas embaixo do braço e viu casais se beijando, viu homens ao telefone andando e comendo ao mesmo tempo, viu crianças que não são mais crianças porque não podem ser, viu gente que quase não é gente mais porque come lixo. O moço foi com poucas vírgulas e quase nenhum ponto, foi no caminho que tinha que ir. Uma loja de grandes televisões chamou sua atenção. Se sua vida tivesse dado certo, se tivesse tido sucesso, se tivesse ganhado dinheiro, se tivesse um bom emprego e um sorriso cínico na cara poderia comprar uma televisão daquelas junto com um grande e confortável sofá para sentar na sala com sua esposa e assistir ao que quer que fosse. Mas além de não ter sucesso não tinha esposa, não tinha namorada e não tinha noiva. Era sozinho como uma árvore isolada, enraizado num lugar só e distante como paisagem. Mas agora o moço ia e pensava que queria ir cada vez mais rápido para gastar o sapato que comprou há muito tempo atrás quando ainda tinha dinheiro para comprar sapatos. Agora só tinha dinheiro para comer comida e ainda assim achava bom não ter que comer lixo. Indo, passou na frente de uma livraria e quase pode ver todas as letras que dela saiam, via coisas assim, fora de seus lugares. Sim, porque as letras deveriam estar dentro dos livros, mas ele as via onde queria. As letras, que são muitas numa livraria, saiam da vitrine, os livros passeavam, abanavam pra ele, quase o chamando para uma conversa, um sonho, uma viagem. Mas ele não podia parar e não tinha dinheiro para comprar um livro, que é coisa cara, de quem tem sucesso de quem tem sorriso cínico e de poucos outros que contam as notas que não são lisinhas como quando saem do banco, são amassadas como quando são guardadas, planejadas para momentos de prazer, aqueles em que a necessidade pode esperar. E o moço ia, quase sem letra maiúscula. Viu uma mulher bonita e cheirosa passar por ele, queria parar e se apresentar, mas isso não ia fazer, isso não ia. Estava caminhando com seus sapatos que precisavam ser gastos até chegar a noite e ele ainda estar caminhando, até chuviscar devagarzinho, só para estragar o cabelo das mulheres de sorriso cínicos. E são mulheres assim que passam agora que ele está cansando de ir. Parece que no final do caminho são só sorrisos assim que sobram, mas o moço vai. De agora em diante tinha decidido ir, mesmo que a resistência do asfalto se oferecesse assim. Sem vergonha, ia sem se preocupar com a pontuação.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vem



Vem cá! Vem ver minha vida. Vem! Pode abrir a porta. Olha só como eu vivo. Sente como eu respiro. Olha a luz que me ilumina. Olha aqui essa ferida, viu? Me cortei cozinhando.
Vem ver minha dor enquanto leio o jornal de ontem. Vem que não tem mais ninguém aqui. Não precisa ter medo, não mordo, não corro. Eu não sinto raiva. Tenho defeitos, mas não aprisiono. Vem! Tem flores aqui também. Pus água nelas ontem, quando ganhei um abraço.
Aqui não tem truque. É pedaço por pedaço, não tem mistério, nada é particular. Eu quero até que você entre. Está todo mundo longe e eu sempre cozinho para muita gente, não sei fazer meio pacote de macarrão.
Vem! Quem sabe a noite você pode me ajudar a trancar as janelas antes de dormir. Aqui tem cobertor pra você, tem água fresca de filtro de barro, tem chão gelado para acordar os pés, tem banho quente pra lavar as lágrimas. Vem! De vez em quando aqui tem até poesia de ler e de ouvir. Tudo bem baixinho.
Agora que percebo que você está sentindo uma pontinha de vontade de entrar, devo te avisar: aqui também toca rock pesado e alto. Aqui de vez em quando acaba a luz. Completamente escuro e demora pra voltar um raio.
Sabe, às vezes as prateleiras esvaziam e a porta se tranca sozinha, então passo fome. Só aqui dentro, às vezes, faz um frio danado que nenhum cobertor dá conta. Tem dias em que a fumaça embaça completamente a visão, fica difícil até andar pela casa. Algumas noites de tão sombrias que ficam, aqui tem oração, dessas desesperadas quando deus, mesmo que não exista, tende a olhar por mim. Essa casa tem dias que parece que vai cair, e alguns tijolos até chegam a ruir. Eu me seguro e seguro a casa também, não se preocupe, mas que assusta, assusta! Não posso negar que tem dias que acordo com sono. E volto a dormir. Terás de ficar sozinho. Passo muito tempo sem sonhar, então ficaremos muitos dias sem assunto. Mas estou aqui fora, te esperando! Vem! Aqui é tudo verdade

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Eu no ritmo dele




Ele chega de surpresa, toca a campainha e vai entrando. Ô de casa, estou chegando. Me pega no meio de coisas absurdas, vestida sem o menor estilo. Me beija rápido, serve-se de água e olha a janela. Vai falando, falando, do dente do ciso, do livro que comprou,d a padaria nova que abriu perto de casa, do futuro emprego, o do alto salário, do antigo emprego, onde brigava por causa do salário, da ex-namorada argentina. E ah, o trânsito está um caos. Levei horas para chegar aqui! Senta no sofá, cruza as pernas, sorri. Sorri e seus olhos brilham e eu, disfarçadamente, passeio pelo seu sorriso e vejo como é bom. Sinto vergonha quando ele pergunta o que estou olhando. Coloco um CD e ele mexe nos cabelos, começa a cantar e diz que adora esta música. Pego uma garrafa de vinho, sirvo e ele bebe, ri e fala do último livro que leu e eu mal presto a atenção. Fico sem fôlego, pernas bambas, tensa, quero agarrá-lo, seu sorriso desvendado. Disfarço, fico tímida, não sei como fazê-lo, nem sei se devo. Tento lembrar da distância. Tosses! Faço gestos longos, sedutores e ele me pergunta se estou passando bem. Levanto, troco o CD e sirvo mais uma taça de vinho e ele bebe, ri, fala e conta do último filme que viu e eu tento me aproximar. Mais perto, talvez um abraço. Eu o desejo. Está esperando minha iniciativa, ou nada disso, pura inocência ou covardia mútua. Paixão travada. Uma garrafa de vinho que jorra e eu não consigo tocá-lo. Quero beijá-lo, mordê-lo, mas fico sem graça. Desejos! Tremendo e ele toma outro gole. Vai até a janela e reclama que vai chover e eu me aproximo. Preciso abraçá-lo e dizer muito, mas tudo emperra, reclamo da chuva e ele se vira, perto, bem perto, dá uma pausa, fica sério e diz, bem baixinho, que meu sorriso é bonito. Ele pega a carteira, vai para a porta e eu vou atrás, quase despencando. Recebo um beijo superficial e espero a porta se fechar para voltar a fazer coisas absurdas,sem o menor estilo. Talvez na próxima.

domingo, 19 de outubro de 2008

De quem é a dor? Então....


Ela desligou o telefone e sentou para chorar. Tinha que chorar sentada. Despedir de um amor de pé não importa, mas chorar tem que ser sentada. Pensou em ligar de novo, falar mais, pedir desculpas pelo que sequer tinha feito, dizer que eles poderiam se dar uma nova chance, mas só chorou. Sabia que dali em diante pensar naquele relacionamento só poderia trazer choro, nada de esperança. E no fundo era isso que sentia também, sabia que os dois não tinham sido felizes juntos. Sabia de tudo e muito mais, mas chorar ao se despedir de um amor é inevitável.

Chorou sentada por quanto tempo pode. E quando o chorou acabou, levantou para a tarde que estava cheia de vento, abriu as janelas e todos os papéis que estavam em cima da mesa voaram. O vento estava realmente forte. Tinha que sair, comprar comida, passear com o cachorro, tirar dinheiro e fazer essas coisas que se faz num domingo à tarde depois que se despede de um amor e se chora sentada. Mas ainda precisava falar. Ainda precisava que ele a ouvisse. A ligação era internacional e muito mais cara do que ela estava podendo pagar no momento. Pegou o celular e começou a mandar mensagens

SMS – Eu não queria que fosse assim. Ainda não consigo sentir que tudo acabou.
E saiu de casa, como celular na bolsa, cheia de ânimo para receber uma resposta. Supermercado. Algumas frutas e material de limpeza. Nenhuma resposta.
SMS – Estou muito machucada, tudo o que combinamos deu errado, tudo foi errado.
Posto de gasolina, encheu o tanque e tirou dinheiro para segunda-feira. O dinheiro estava acabando. Acabaria em breve. Nada de resposta. Guardou o carro em casa e saiu para passear o cachorro com o celular na mão.

SMS – Responde não me deixe falando sozinha!
No meio do passeio com o cachorro começou a chover. Sempre chove na hora errada. Ela sempre tem a sensação de que as coisas acontecem na hora errada. Os amores, os desamores, os trabalhos, os desempregos, o tempo, o dinheiro, tudo na hora errada. Sua vida tomava rumos sozinha, não sentia ter o menor controle sobre as coisas e isso a angustiava.
Sem resposta.
Pensou em viajar, em largar tudo e ir visitar o irmão que mora fora. Pensou em mudar-se, estava na hora de morar sozinha de novo, pensou em dizer a um cara que estava afins dele, mesmo apesar de estar vivendo a despedida do amor, pensou em contar ao analista que queria se relacionar de novo . Lembrou da amiga que acabou de separar e já beijou cinco cara. Pensou tudo absurdo. Não queria que nada tivesse acontecido assim. Sem resposta.
SMS- Não me ignore, responda.
Pensou na segunda-feira. Tinha uma reunião para um trabalho novo e não queria ir, tinha eu ir à academia e suas pernas falhavam, tinha que escrever e sua cabeça não conseguia sair de alguns quadrados. Não queria a segunda-feira. Não queira aquela semana. Queria parar no tempo e só voltar a contar quando as coisas estivessem mais fáceis. Mas quem não quer isso? Abusada você menina, quem não quer isso?
Sem resposta.

SMS – Certo, ok, a dor é minha, vou vivê-la sozinha, não precisa responder.



Foto by ~Mahini - deviantart

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Esperança


Um passo depois do outro e estou sempre atrás de você. Mesmo que você seja eu mesma, mesmo que nada faça sentido. Um passo depois do outro e eu crio histórias para fingir que minha realidade não existe e leio livros que me provam que limites são besteiras. Uma lágrima que cai sozinha e tenho até pensamentos românticos, desses de baldes de cores. Pensamentos coloridos. Daí eu choro em preto e branco e assim termina o filme.
Mas engulo toda a fumaça na esperança de preencher o vazio de viver e viver é cheio de fazeres. Eu é que estou do lado errado da rua, preciso atravessar mais ruas e assistir mais televisão. Preciso comprar uma agenda e ficar feliz em vê-la lotada. Preciso dar importância ao dinheiro e às cores das minhas roupas, preciso comprar remédios preventivos, creme anti-rugas, preciso me prevenir. Preciso fazer uma poupança, preciso fazer o seguro do carro, preciso ter um carro. Preciso comprar um celular, pagar previdência, fumar menos, sorrir mais, aceitar mais convites, colocar mais a cara na rua. Preciso atravessar a rua atrás de você.
E a dor de continuar me deixa com ódio e ódio é permitido sim. Não me digam que não, por favor, pelo menos hoje não! Ódio pode porque me machuquei, ódio pode porque o dia é longo e a noite é curta. Ódio pode porque o mar está longe e todos os personagens que crio, morrem. Eu os mato. Ódio pode porque amor que confesso me dizem ilegal. Ódio pode. Mas amor também pode, porque eu digo que pode. Porque amo quem não posso, porque amo árvore que caiu. Amor pode porque ainda segura as letras juntas. Amor pode, mas não hoje. Sou dessas também, contra o ódio. Mas ódio existe e não há transformação que o evite, por isso, viva o ódio também. Assim como viva o amor. O amor do sonho da vida que ainda não é minha. E só nessa palavrinha “ainda” vi esperança no meu texto, por isso eu paro.



Foto: sabotazystka - deviant

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

On the road



Quem eram as mulheres que ela queria ser? Onde elas estavam? Saiu do trabalho às 17. Um pouco mais cedo por tudo o que tinha passado. Nada fácil. Por umas quatro ou cinco vezes pensou em levantar e pedir demissão. E nas horas mais difíceis ainda pensou em levantar, pegar a bolsa e sair andando, sem nem avisar que estava deixando o emprego. Não dava mais. Não tinha mesmo nascido pra aquilo.
Quem era a mulher que ela queria ser? Onde estaria a mulher que ela queria ser? Desceu do elevador e saiu correndo do prédio. Correndo como quem está com pressa. Correndo como quem sabe pra onde está indo e precisa chegar logo, tamanha certeza.
Quando deu de cara com a avenida bem à sua frente, a sensação era de que havia ficado presa naquele prédio por anos e anos, sem ver a luz do sol, sem ver o trânsito da hora do rush, sem ver a fila de ônibus lotados e gente pendurada.Sem ver aquele mundo de luzes vermelhas entupindo a avenida. Respirou o ar de tudo aquilo como um tuberculoso respira o ar puro de montanha. Era exatamente o que ela precisava.
Quem eram as mulheres que ela queria ser? Cruzou avenida no sentido do ponto de táxi. Queria entrar em um e sumir dali. Pegar o tráfego da cidade, ir para casa, tomar um banho, arrumar as coisas e correr pra casa. A outra casa. Aquela casa do sossego. Aquela casa que é pequena, mas confortável como nenhuma outra pode ser, nunca foi!
Não tinha nenhum táxi no ponto. Hora do rush. Sentou no banco de madeira e esperou. Olhando a tarde cair, esperou. Olhou para o céu, que providencialmente prometia chuva. Pensou o quanto sentiu falta da poluição, mas agora já estava cansada dela. E finalmente olhou para o prédio onde trabalhara até então. Alto, o prédio. Alto mesmo. Sempre quis trabalhar num prédio alto. Não gosta de casas, tem medo de escritórios pequenos e não se sente à vontade com coisas feitas caseiramente. A única coisa caseira que gosta é doce de figo em calda. Aquele prédio, para o qual, no primeiro dia desse emprego olhou com tanto orgulho.... Olhou para aquele prédio no qual todas as vezes que entrava no elevador e apertava 11 se sentia tão feliz. Para aquele prédio, que por força maior, acabou virando parte da sua rotina nos últimos meses. Fitou o prédio. O prédio onde descobriu que não agüentaria por muito tempo mais aquela vida. Queimou com os olhos uma chapa do prédio onde o resto de seus sonhos profissionais havia morrido lentamente, doloridamente. Aquele prédio estaria para sempre em sua lembrança, disso ela tinha certeza. Olhou lá para o último andar e logo em seguida trouxe o olhar para os próprios pés. Seus tênis estavam sujos. Do arranha-céu que beira o cinza, para o tênis sujo, vestindo os pés no chão. Uma tomada rápida dos dois e a cena estava feita. Não olharia mais para aquele prédio, a não ser em sua memória. Quando a cena acabou, um táxi parou no ponto. Ela levantou, cansada como se tivesse esperado horas, e correu para a porta.
- Pra onde a senhora quer ir?
- Não sei ainda, no caminho eu te falo.
Entrou e sentou-se aliviada, como se tivesse sido resgatada de uma guerra. Acendeu um cigarro pós-guerra sem ao menos perguntar se podia fumar ali. Ele deu partida e saiu dirigindo devagar, afinal não tinha um destino. Ela disse:
- Faz o caminho que o senhor quiser por enquanto, até eu lhe dizer para onde quero ir. Deixa correr o taxímetro, não se preocupe.
Onde estavam as mulheres que ela queria ser? Pensou em ir pra casa direto. Quanto antes chegasse lá, mais rápido faria sua mala, mais rápido ligaria para a imobiliária, iria ao banco, deixaria tudo pago, doaria a maior parte dos móveis e contrataria, ainda naquele dia, um pequeno caminhão para levar as coisas para a casa de verdade.
Mas não! Antes de ir para casa queria ver a cidade. Olhava para cima e para baixo em cada rua que passava. Queria ver a fachada dos prédios, os mendigos no chão, os comércios, os out doors. Queria ver as coisas de um jeito que não tinha visto até aquele dia. Queria olhar com os olhos de quem se rende a si mesmo e se despede. Com olhos de quem já tomou toda garapa e não quer o pastel. Como em filme, colocou a cara para fora, para o vento bater, para o cheiro da cidade entrar nas suas narinas mais uma vez. Consegue lembrar também de cheiros. Consegue senti-los de novo. Basta que eles estejam gravados na sua memória. Consegue também sentir gosto só de pensar em uma comida. Consegue sentir a emoção de uma música só ao ler o seu nome.
Viu tantas ruas que quase esqueceu que a cidade era tão grande. Tudo parecia tão pequeno, tão perto dela, tão tocável, tão palpável. Tudo ali, a seus pés e ela não queria mais nenhum peso.
Quando passaram em cima de uma ponte ela lembrou do tamanho de sua pressa em ir embora. Pediu para o motorista pegar o sentido para sua casa. Deu as coordenadas, queria que ele fizesse o caminho dela e não o dele. Toda vez que pegava um táxi, era assim. Depois que reaprendera a andar na cidade, a se locomover tão bem, decidiu que só faria os caminhos que quisesse. Não seria mais enganada e nem pegaria trânsito à toa.
O motorista fez o caminho que ela pediu. Nem se atreveria fazer diferente. Ele também estava louco para acabar aquela corrida. Não gosta de gente que entra no seu táxi sem rumo, sem saber para onde ir. Sempre acha que isso é um péssimo sinal e não quer loucos tendo ataques no seu carro. Mas o trânsito estava ruim. Muitas avenidas paradas, sinaleiros fechados. Ela acha que tudo conspira para que ela fique mais tempo na cidade e mude de idéia. Ele acha que merece mesmo uma corrida como essa. Deve ter jogado pedra na cruz.
Ela acende outro cigarro. Dessa vez de nervoso. O passeio tinha sido uma boa idéia, passear sem rumo tinha sido interessante, mas agora não queria mais brincar disso, queria chegar em casa para ir para casa.
Tirou o celular da bolsa. Olhou: chamadas perdidas. Duas, do trabalho. Uma mensagem de voz. Era antiga. Era dele, há 4 dias atrás. Ela não estava perto do telefone, ele ligou apenas uma vez, ela achou que se ele quisesse mesmo falar com ela ligaria mais vezes e por isso não ligou de volta. Aliás, nem sabia ao certo em que número encontrá-lo. Tinha apenas o número da casa onde estava hospedado, a casa dos pais. E depois de tudo o que aconteceu não queria falar com os pais dele. Não ligaria. E enquanto pensava nele, o trânsito estava dando mais fôlego e eles estavam quase perto de chegar.
- O senhor mora aqui há muito tempo? Perguntou ao motorista.
- Há 30 anos, quando vim de Portugal.
- E gosta daqui?
- Gosto sim. Não saio daqui por nada.
Ela se espantou com a resposta. Ela daria tudo para sair daquela cidade naquele instante. Piscar os olhos e acordar em outra cidade.
Quem são as mulheres que ela quer ser? Foi o tempo de apagar o cigarro para estar na porta de casa. A corrida ficara cara. Mas tinha passeado bastante e pego um trânsito que de tão típico chega a ser atípico.
Pagou o motorista e antes de descer do carro disse a ele:
- Espero que o senhor tenha uma boa vida.
Achava que essas palavras eram o máximo de uma despedida. Nada poderia ser mais abandono do que dizer a uma pessoa para ter uma boa vida. Tenha uma boa vida quer dizer não nos veremos nunca mais e estou feliz por isso.
Desceu e correu para portaria. Tocou o interfone várias vezes, sem nem dar tempo do porteiro vê-la. Ele abriu, ela entrou correndo, assim como saiu do prédio durante o dia, chamou o elevador, que estava no último andar. “Tudo conspira para que eu fique mais nessa cidade e mude de idéia”. Esperou o elevador batendo o pé no chão, com as mãos na cintura. Estava brava, suando já. O coração batia a um milhão de passos por minuto. Um exagero, mas perto disso. Quando chegou, ela entrou e puxou a porta atrás de si. Apertou o seu número várias vezes quase gritando para que o elevador visse a pressa dela e subisse mais rápido. Procurou a chave na bolsa e já na porta não tinha encontrado ainda. O nervoso aumentava quanto mais devagar as coisas aconteciam. Abriu a porta e correu para o telefone. Lembrou que não tinha nenhum número de empresas de mudança e já eram 8 da noite. Pegou a lista telefônica, que guardava na cozinha. E foi olhar para a pia para pensar de novo que a cidade conspirava contra ela. Cheia de louças, teria que lavar tudo antes de fazer a mudança. Antes mesmo de empacotar ou doar as coisas.
A primeira companhia de mudança que ela ligou disse que só podia agendar algo para outra semana. Já era quinta feira. Mas de jeito nenhum que passaria ou deixaria nada seu passar mais um final de semana nessa cidade. Ligou para mais umas três, e a resposta foi a mesma. Já estava chorando. Teria que doar tudo. As coisas não caberiam no carro. Foi quando teve uma idéia tão absurda quanto brilhante. Ligaria para um ex namorado, lá de casa, para vir com a caminhonete dele ajuda-la. As coisas maiores ela doaria. Levaria só o que precisava imediatamente. Ligou. Com vergonha, mas ligou. Ele não entendeu, parecia ocupado e sem jeito ao ouvir seu pedido. Mas topou! Como sempre faz com tudo o que ela pede. Ele sempre a salva das situações mais complicadas, basta avisa-lo. Disse que em três horas estaria na porta da casa dela. Ela sorriu. Sorriu largo. Sorriu alívio. Sorriu felicidade como se mostra os dentes. Em seguida ligou para uma casa de caridade que conhecia e pediu que viessem buscar as coisas agora mesmo. Quando ouviram tudo o que ela doaria disseram que o caminhãozinho estaria ali em meia hora. Ela não sabia se as cosias caberiam num caminhãozinho, mas as queria fora da sua casa. Se caberia no caminhão ou ficaria na rua não era problema seu. Tentou ligar na imobiliária, lógico que não atenderam. Lembrou-se que não poderia deixar a cidade enquanto não entregasse as chaves do apartamento. Não voltaria para resolver isso. Decidiu que teria que ficar pelo menos até a manhã seguinte, para resolver isso. Pensou em ligar para o ex, que provavelmente já estaria na estrada. Mas desistiu! Que ele viesse. Não ficaria triste de ter que passar uma noite com ela ali, antes de irem embora de vez. Começou a encaixotar as coisas. Colocou todas as roupas dentro de malas, até a roupa de cama e de banho. Colocou os poucos livros que trouxera num outro saco. As coisas de cozinha eram poucas e feias, doaria tudo. O sofá da sala também. Levaria consigo a cama, televisão, uma peça de madeira onde guardava seus livros e cadernos, a geladeira e a máquina de lavar. O resto, tudo para caridade. Quando percebeu, tudo o que levaria já estava empacotado ou pronto para ser transportado.
Onde estariam as mulheres que ela queria ser? A instituição de caridade chegou em meia hora, como o prometido. Subiram em três e começaram a carregar as coisas. Nem ela acreditava na rapidez com que tinha feito tudo. Era a vontade de ir embora. O sangue corre quando tem pressa de chegar. O sangue corre quente, acelerado, super competente, quando se sabe o que quer ou pelo menos o que não se quer. Ela sabia disso. Olhou no relógio e ainda faltavam 2 horas para o ex chegar. Pensou que talvez não precisassem dormir na cidade. Poderia deixar o apartamento vazio, a chave na portaria e amanhã, lá de casa, ela ligaria para a imobiliária e mandaria pelo banco o dinheiro que precisasse para pintar o apartamento ou fazer qualquer outro reparo. Quase comemorou sua idéia, mas tinha mais dois homens carregando suas coisas na sala. Foi para cozinha e fez um café. A noite seria longa. Teria que carregar mais uma caminhonete e ainda pegar algumas horas de estrada até chegar em casa.
Quem seriam as mulheres que ela queria ser? Com uma rapidez de novo assustadora os rapazes conseguiram descer tudo o que ela tinha doado. Improvisaram caixas, sacolas e fizeram tudo caber. Agora era só esperar mais uma hora e meia e estaria quase salva. Sempre quis ser salva. Sempre. Esperava encontrar um salva-vidas e casar-se com ele. Acabou conhecendo um monte deles, mas nenhum conseguiu salvar a sua vida. Essa tinha sido uma tarefa que tinha ficado mesmo a seu cargo. Tinha salvado a própria vida várias vezes, como faria hoje, só precisava de uma carona que pudesse levá-la e suas coisas. Coisas que só estava levando para não partir com a sensação de estar voltando com menos do que veio. Mas sabia que isso não era necessário. No fundo sabia que estava voltando com muito mais do que veio. Foi para cozinha e tomou um gole de café que ainda estava na cafeteira que levaria com ela. Adorava café. Precisava da cafeteira como nada no mundo. Acendeu um cigarro e a próxima hora passou como um desenho antigo, várias superposições de imagens que passadas rapidamente dão movimento à cena.
O interfone tocou e era o ex. Ela mandou subir e correu esperar com a porta aberta. Queria vê-lo assim que saísse do elevador. Tinha pressa em dizer o quanto estava grata pela ajuda. Não podia dizer menos que isso. Nem mais, na verdade.
Ele chegou com cara de cansado e surpreso.
- Mas o que está acontecendo.
Antes que ela respondesse, e depois de um rápido abraço, que ela queria que fosse demorado, mas ele se apressou, ele entrou no apartamento e fez mais uma pergunta:
- O que aconteceu por aqui? Foi assaltada?
Ela riu. Era a primeira vez que ria naquele dia. E sabia que em horas como essas, só pessoas como eles poderiam fazê-la rir.
- Não, disse sorrindo. Quero ir embora daqui hoje. Já doei metade das cosias, a outra metade espero que a gente possa levar.
-Mas você não me avisou que eu deveria ter vindo de caminhão.
Ela arrepiou em imaginar que tivessem que passar a noite na cidade. Mas ele entende de tudo um pouco, se está olhando as coisas e dizendo que não cabe, é porque não cabe.
- Você acha que não consegue colocar tudo dentro da caminhonete?
- Lógico que não, está louca? O que está acontecendo com você? Por que quer sair daqui assim, correndo. Do que está fugindo? Alguém te magoou? Você está metida em alguma confusão?
- Nossa, olha quantas perguntas me fez. Mas respondo tudo. Não estou fugindo de nada, apenas quero ir embora hoje e não preciso explicar isso pra ninguém. Mas agradeço a sua preocupação.
- Ta bom. Mas se quer sair daqui hoje e com suas coisas, melhor alugarmos um caminhãozinho. Conhece o telefone de alguma locadora de carros?
-Calma. O que você acha que dá para levar?
- No máximo a cama, a televisão e esse monte de malas que estou vendo ai.
- Será que aquele móvel de livros não cabe??
- Posso tentar. Mas preciso de alguém pra me ajudar.
Ela foi ligar para o porteiro pedir ajuda. E no caminho da cozinha decidiu que levaria o que desse, o resto doaria para a mesma instituição ou pro porteiro talvez.
Ele subiu para ajudar e disse que se interessava sim pelo que ela estava querendo vender.
-Não estou vendendo. Estou te dando.
O homem ficou feliz da vida. Ajudou a em menos de 2 horas descer tudo e colocar na traseira da caminhonete, amarrar a geladeira com uma corda para que não balançasse. Graças a ele coube também a estante de livros.
Ela olhou para o apartamento, para o que sobrou e sorriu a certeza de não precisar nada daquilo. Sorriu para o ex, que cansado de carregar móveis sugeriu que jantassem antes de partir. Ela implorou que não. Deveriam partir o mais rápido possível. Tinha que pegar a estrada naquele instante. Não poderia perder nem mais um minuto. O tempo já tinha passado como vento. As coisas já tinham ido na direção errada por muito tempo. Os peixes morreram no aquário, a acabou o incenso, a água ferveu e evaporou, fez sol, fez frio, choveu e fez sol de novo. Ela tinha que ir embora. Esperar seria jogar palavras fora e nunca mais encontra-las para acabar o texto. Seria rasgar dinheiro, seria queimar o filme, seria furar um pneu, seria derramar o café, seria transbordar o copo, seria beber até cair, seria queimar a pestana. Não mais. Tinha que sair dali.
Ele aceitou a explicação, apesar de não entende-la. Entraram no elevador. Ela pegou na mão dele. Queria dar a mão para alguém para começar sua viagem mais esperada. Precisava dividir com alguém aquele momento, precisava da segurança que a mão dele poderia dar. Nem que fosse só por aquela noite, e era. Ele continuou não entendendo o que acontecia. Mas amor de amigos ex amantes é assim, quase sem fim. Entraram na caminhonete, ele pegou as avenidas vazias e os sinaleiros abertos. Afinal já era madrugada. Chegaram à estrada em poucos minutos. Ela, diferente do que havia planejado, olhou para trás e acenou para o monte de luzes que estava abandonando.
Quem eram as mulheres que ela queria ser? Onde elas estavam? Não sabia. Era certo que não sabia.



Foto: hansheeda - deviantart