quinta-feira, 1 de outubro de 2009



As duas subiam a escada do prédio, voltavam da escola. Fofocavam, como fazem meninas da idade delas. Bolsas iguais, sapatos legais e cabelos bem longos para que no final de semana parecem mais velhas. Falavam de uma “P” que tinha passado o intervalo com um fulano.


Estavam indignadas. E eu na frente, ouvindo e esperando o elevador que demorava. Queria que demorasse mais, assim a história cresceria. Mas elas olharam para minha cara de interesse e pararam. Desci primeiro com a história na cabeça. E foi assim. As duas chegaram em casa e quem encontraram? A “P”, que transava com o pai de uma das meninas. Coisa de louco. A menina caiu aos prantos e a amiga não sabia se ria da situação ou se solidarizava com a amiga. Como a “P” tinha tido tempo de sair e chegar antes dela. A “P” se arrumou correndo e foi embora. O pai, no mínimo constrangido implorou para a filha não contar nada a mãe. Mas será? Será que ela vai conseguir guardar um segredo desses? Eu não conseguiria. O fato é que a outra amiguinha foi embora também e ficou só pai e filha no apartamento. Recomposto, o pai implorava a menina.


- Foi uma besteira que o papai fez, pelo amor de deus não vai estragar nosso casamento por causa disso.


- Besteira pai? Você transou com uma amiga da minha escola. Ela tem a minha idade. Isso é bem mais que besteira.


_ Eu sei, o que eu fiz foi imperdoável, mas pelo amor de deus, sua mãe deve estar para chegar, não diga nada. Promete? Eu faço o que você quiser.


Diante disso a menina ficou pensativa. Foi pro quarto e bateu a porta sem responder.


Pais são assim mesmo, prometem tudo. São capazes de dar coisas materiais, de se tornarem verdadeiros escravos para guardar um segredo.


No quarto, ainda chorando, a menina pensou que se contasse para mãe, iria mesmo acabar com o casamento deles. Não queria isso. Mas a coisa também não podia passar em branco. Ela podia tirar proveito disso sem acabar com o casamento dos pais.


Mulheres, especialmente meninas podem ser maquiavélicas quando querem . Tem lá um dom guardadinho, uma coisa meio”Engraçadinha”. Toda mulher é rodrigueana ou ele é que as catalogou direitinho.


Hora do almoço, a mãe avisa que está na mesa. Todos sentam. Pai, mãe, ela e irmão de 8 anos. Todos sorriem, inclusive ela.


_ Papai, que horas você chega do trabalho hoje?
- Por que o interesse filha? Você nunca quis saber disso.


_Pois é mamãe, mas estava pensando se hoje não poderíamos sair todos juntos para jantar.


Terminou a frase e olhou o pai, com um sorriso malicioso no rosto.


- Hoje não dá filha. Vou receber uns clientes de uma outra usina, pode ser amanha?.


- Não, tem que ser hoje.


A mãe fez uma cara de espanto. Não entendia o que estava acontecendo com o a filha.


_ Tudo bem filha, eu desmarco com eles, pode marcar onde quer jantar.


A filha riu, satisfeita.


A mãe não entendeu, mas tinha tanta coisa para pensar. Se vão jantar fora, que ótimo.


A menina passara tarde fazendo uma lista do que precisava comprar para seu novo guarda-roupas. Iria pedir tudo ao pai assim que tivesse um momento sozinha com ele.


A noite foram jantar,. O pai falava pouco, apenas sorria em resposta a filha que olhava para ele com uma malícia,que ele desconhecia nela.A mãe parecia nadar no mar da ignorância da felicidade familiar. O menino curtia jantar fora dia de semana.


Quando chegaram em casa, a menina chamou o pai no quarto, beijo-o no rosto, e para isso teve que erguer os pezinhos, agradeceu o jantar. Ele ficou satisfeito por alguns segundos. Logo ela disse:


- Preciso de um cartão de crédito sem limites, meu guarda roupas está um lixo, como pode ver. Disse escancarando o guarda roupas....


_ Como assim, sem limites?


_ Isso mesmo que você ouviu papai, sem limites.


O homem baixou a cabeça e foi para o quarto, onde tomou um remédio para dormir e capotou.


Ela deitou-se na sua cama deliciando-se com tudo que compraria com o novo cartão. Chamaria até a “P” para fazer compras com ela. Sentia-se poderosa a menina. Sentia-se mulher. Vai ver e diferença entre uma menina e uma mulher é a sensação de poder.


No dia seguinte corria tudo normal. Menina foi para escola, pai para o trabalho. Na hora do intervalo, menina interpela “P”.


_ Você quer transar com meu pai de novo?


- Fala baixo, ta doida?


- Ué, doida por que? Você já transou com ele. É bom? Quer transar de novo.


Aqui não sei se algum psicanalista diria que a menina morria de inveja de “P” ter transado com o pai e ela não. Mas o fato é que ela incentivava “P”.


_ Quero vai! , responde P, meio sem saber o que fazer.


Menina liga no celular do pai.


_ Pai, vem para escola agora, a P quer transar com você.


- Você está louca, essa história tem que parar. Eu estou trabalhando, não quero transar com essa menina. Pára com isso e vai estudar.


- Você escolhe, ou vem ou conto tudo para a mamãe.


O pai entrou em desespero. Não podia ser refém da filha dessa maneira. Agora além do cartão sem limites, teria que transar com a menina quando a filha quisesse. Isso já era doentio.


- Escuta, faça o que quiser. Eu não vou.


- A menina fechou o celular com um sorriso no rosto. Em alguns minutos ligou para a mãe. Contou toda a história, em detalhes.


Assim,satisfeita da brincadeira ter acabado, esperava chegar em casa e presenciar uma briga de divórcio com vasos voando e tudo mais.


Quando todos chegaram em casa, uma surpresa. A mãe havia se enforcado no banheiro de casal.


O pai horrorizado tapava os olhos do filho e olhava para a menina com expressão de ódio. E ela.


_ Não disse? Eu te avisei que contaria tudo.





Image:girlie by ~ArtemisDragon

4 comentários:

Vivian disse...

...minha nossa senhora,
que imaginação sem limites!

há tempos que eu não te lia
mas continuas cada dia melhor.

ohh vida louca, esta!!

beijos mil...

continuo adorando
você...

Letícia disse...

A sensação é de "minha nossa" mesmo. E a maldade chega à casa de família. Eu gostei e muito. Adoro verdades. E concordo com a questão das mulheres. Precisa ser muito mulher pra admitir que somos um tanto rodrigueanas.

Beijo, Camilla. Te vejo no twitter. =)

tossan® disse...

Você é a versão feminina de Nelson Rodrigues...Muito bom! Criatividade! Beijo

Juliana Lima disse...

achei teu blog por acaso e amei!!!!
ele é lindo e escreves muito em... parabéns!