Acordei com raiva do que não dá certo para escrever histórias. Acordei brava com o copo de água que tomo de manhã. Na verdade esperando inspiração de amores em cartas, esperando inspiração na letra alheia. Esperando chuva de idéias à qual sempre fui grata e hoje sinto saudade. Histórias de Camilla. Histórias assim, dessas cheias de percalços. Cheia de quereres e de decepções. Cheia de controles e descontroles. Acordei para dizer a mim mesma que minha história de hoje eu vou escrever.
O que fiz e o que faço, do que pode ser chamado? Amor, crueldade, falta de amor. Esperança, descrença ou rebeldia? Não vou ligar para ninguém, não vou pedir ou esperar
desculpas.
Hoje, quando eu acordar de verdade quero usar um vestido bonito e arrumar o cabelo. Fazer as unha. Sorrir à minha imagem no espelho. Quero me ver hoje. Ver como sou de verdade. Ver quem é que anda brigando tanto e com tanta força para ser feliz. Quero ver quem é essa pessoa que dorme pouco e não sonha nada. Sou eu. Preciso me ver hoje. Preciso tomar conta de mim e para isso escrever história.
Ontem fiquei presa no farol, o pneu do carro murcho e comi carne que não gosto. Falei o que devia, ouvi o que não merecia e assim foi minha noite. Não, não escrevo poesia como você. Eu sou escritora de letras cruas, ainda imaturas e repetitivas. Me explico a cada texto e isso limita minha criatividade. Uso figuras que queria pra mim para melhorar meus cenários. Minha narrativa é longa porque para mim as histórias demoram a acabar. Duram. Nem espero que leiam, já que escrevo para descobrir só a mim. E ser lida seria vaidade demais.
Se engana quem pensa que sempre falo de mim. Hoje sim, preciso falar de mim para me proteger da raiva. Preciso falar dessa menina de trinta e tantos anos que ainda tem medo do mundo e morre de vontade de cuidar de quem ama. Preciso falar da menina que cresceu rapidinho e depois resolveu virar menina de novo. Da menina que chora ao ouvir música e briga quando as coisas que não são verdade. É dessa menina que preciso falar, ela acabou de acordar.
Não tenho outro nome para mim, a não ser Camilla. Aquela que está tentando escrever histórias. Camilla que sorri para todos por vontade de estar bem. A Camilla que pede e recebe ajuda e acha isso um grande passo da vida adulta. Hoje preciso escrever sobre a Camilla de verdade, que não chora mais a cada minuto, mas quando chora são lágrimas que doem antes de cair.
Uma Camilla que não tem a menor idéia do futuro. Acredita sim, que é escrevendo sua história todos os dias que o futuro vem. Mas anda sem letras, e assim sem futuro. Estou com medo de ter perdido tempo demais. De ter dado atenção ao que não dará certo. Tenho medo de ter entregado o que tenho de melhor à toa. E sabe, entregamos coisas boas até elas acabarem. Acabam.. Sobra só a cota que devemos usar para nós mesmos. E aí, quem está ao nosso lado fica sentindo falta. Talvez eu devesse procriar, sentir o amor de um ser que vem de mim. Mas não acredito no mundo. Não acredito no futuro de gerações que destroem. Tenho medo de ter um filho e ele não ter água pra beber, simples assim. Confesso, tenho medo também de não conseguir mais escrever a minha história e ter que ajudá-lo a escrever a dele. Ainda sou escritora de minhas histórias.
Disseram que meus heróis morreram de overdose e é verdade. Mas meus amigos não morreram e os de verdade estão por aqui. Mas quantas vezes ainda vou acreditar em amigos de mentira até me dar conta que os de verdade, feitos até agora, conto em uma mão e devo mantê-los banhado no amor? Quantos filmes ainda tenho que assistir para perceber que o amor se dá assim, tão imperfeito como algo que se move com o vento. Tão surpreendente quanto um pneu furar no meio da estrada.
Não digo que não viva com algumas certezas como companhia. Sim, as tenho. E são de amores que estão sempre aqui e nunca acabam. Ah como são bons esses amores. São firmes e fortes, são amores de suporte. São amores que doem sentir de tão fortes, mas só coisas boas me trazem. Eu digo, vivo dizendo, que amor é palavra de quatro letras. O que acontece é uma mistura de vários sentimentos que carregam a promessa do incondicional e essa promessa tem se renovado a cada dia.
Acordei de cabelos soltos e pijama frio. Normalmente tomaria banho, trocaria de roupa e esperaria o dia acontecer, afinal hoje é sábado. Mas decidi diferente. Ainda estou com pijamas e não vou esperar esse dia acontecer. Vou fazê-lo de história escrita aqui e o que não acontecer aqui, my darling, só em sonho, porque volto a dormir.
Ontem à noite, uma noite de abandono como outra qualquer, eu vi estrelas e previsão de frio para hoje. Surpresa: hoje não está frio! A vida é assim, cheia de surpresas. E reclamo delas. Preciso um pouco de controle. Assim está difícil escrever histórias.
Sempre soube que um dia pararia tudo o mais para escrever histórias. E surpresa: não as tenho conseguido escrever tão bem. Têm sido letras cruas e sem beleza de dias calmos e equilibrados. É o preço. E quando dizem que tudo tem um preço eu não posso refutar. Tem mesmo, eu vivo pagando caro e esperando o troco que não vem.
Se a loucura me visitasse de novo talvez pudesse dizer mais. Mas a deixo lá longe, a Sra. Loucura, sentada de pernas cruzadas, cara de poderosa e com todas as minhas palavras num saquinho em suas mãos.
Ando tentando chegar perto dela e pedir que devolva minhas palavras. Mas quando me ouve ela tampa os ouvidos e ri. Lógico que tomo cuidado para não chegar muito perto. Então minhas chances de pegar minhas palavras de volta está ficando menor a cada dia. Porque as palavras devem estar lá dentro daquele saquinho escuro, cansadas de esperar, misturando-se de forma aleatória e se perdendo do destino que eu daria a elas.
Pensei em pegar o dicionário e tentar roubar algumas palavras de volta pra mim. Eu tenho um dicionário grande, tentei fazer isso. Mas não adianta. Arrastei umas palavras comigo, mas esqueci que na outra mão a Sra. Loucura guarda o meu saquinho de idéias, as minhas idéias. Então estou aqui com um monte de palavras, mas a loucura continua com as minhas idéias. Até gritei, sabe? Pedi encarecidamente que ela me devolva minhas idéias e ela me disse, sem dor alguma, que para me devolver eu teria que chegar mais perto, muito perto. E eu estou sem coragem. Estive com ela há pouco e não foi legal. Quero distância dessa ladra, que me levou o que tenho de mais precioso, as minhas idéias. Tentei negociar, para ela me devolvesse pelo menos as idéias, palavras eu encontraria por aqui, no jardim do equilíbrio. Mas não! Ela é categórica nas suas exigências. E não estou disposta a ceder a elas. Então fico sem escrever minha história de hoje. Essa que acordei para escrever e prometi a mim mesma que faria. Sem história.