domingo, 4 de maio de 2008

Foi


Ele nem disse adeus, nem tchau, nem to indo. Só foi. Melhor assim, despedidas são dores na hora errada. São dores que nos pegam de surpresa, mesmo quando sabidas com antencedência. De que adianta saber que a pessoa vai partir? Isso não nos prepara para nada. É o ver, enxergar as costas de alguém se distanciando que nos dá o verdadeiro sentido- sentir mesmo – da dor. Então assim ele foi, com seu casaco laranja, que não sei onde comprou. Assim como não sei onde comprou as roupas novas, os sapatos novos, onde fez o novo corte de cabelo. Isso não me causa nada. Também ando de roupas, cabelo e sapatos novos. É a vida andando. São os passos da dor nos levando pra frente, evitando a paralisia dos momentos difíceis.
Fiquei por alguns minutos olhando ele partir. Olhar o partir é uma obra de arte para quem consegue. É um dom de quem enfrenta e começa a superar. Não, espera, é mais: é esperança. Não da volta, mas do recomeço. Um vai, outro pode ou não vir, mas estou aqui.
Fiquei sentada no banco até ele virar um pontinho laranja distante, que já não me ouviria se eu gritasse. E eu não gritaria. Não sou do tipo que grita. Não sou do tipo que sai correndo. Aliás, quando corro é de mim mesma. E foi só quando já não podia vê-lo que decidi olhar para frente. A tarde estava chuvosa, nublada. Tardes assim são tristes, eu sei, mas eu gosto. Gosto do cinza, é um silêncio de alma que o sol nem sempre permite e era de silêncio que precisa me encher agora.
Não pensei mais nele, já era história, história contada e recontada, história vista e revista, tentada, acertada, errada e finalizada. Era, enfim, história. E história, escrevo eu. Escolho meus personagens e não tenho controle sobre eles, por isso as surpresas das despedidas.


Foto: ultraviolte - Deviantart

4 comentários:

Clarissa Marinho disse...

Obg pelos elogios!Esse seu texto tb tá forte,conseguiu passar a dor que é encerrar uma historia com alguem.Ainda bem que tudo passa,e pode virar texto,personagem,etc!
=D

Alice disse...

Camilla,

"Got happy" ao ler seu comentário lá no Cosmic Library. Você disse que "ainda estava aprendendo a me ler". Não diz isso. Como já dizia a canção, "Sou fácil que nem domingo de manhã.". Só escrevo.

E esse texto seu... falando de adeus e do jeito que você é. Aliás, você ou seu ser-lírico. Mas ambos andam juntos e dessa sua despedida, senti até o frio na barriga. Alguém sempre vai embora - em boa hora ou em má hora. Gosto da cor laranja e também grito, só que baixinho. E choro feito criança na hora de desligar.

Gosto de citar autores...

"Isso não me causa nada. Também ando de roupas, cabelo e sapatos novos. É a vida andando. São os passos da dor nos levando pra frente, evitando a paralisia dos momentos difíceis."

(Camilla Tebet)

Bjs...

Letícia

Friendlyone disse...

Eu comecei a comentar aqui e ficou grande demais........Por isso:

http://setout.blogspot.com/2008/05/sobre-amor-e-despedidas.html

Narradora disse...

Detesto despedidas, não sinto falta do aperto no peito e do choro que arde a gargata.
"Olhar o partir é uma obra de arte para quem consegue. É um dom de quem enfrenta e começa a superar."
Belo o seu texto. Doído, mas não triste... de recomeço.
Bjs.