quarta-feira, 14 de maio de 2008

Parada


“Um dia sem nada pra fazer é ótimo para fazer um milhão de coisas.” Ela me disse isso assim, despretensiosamente, sem querer dar lição de moral. Eu entendi. O que mais poderia fazer, ali ao seu lado, imóvel? Entender.
Naquele dia ela estava falando demais. Sobre tudo. Sobre a idade, como vinha se sentindo, como estava vendo as pessoas, como admirava o movimento do mundo à sua volta, sobre as roupas que andavam escolhendo para ela e tudo mais o que lhe vinha à cabeça.
E eu, sentada ao seu lado imóvel, o que mais poderia fazer? Ouvi a tudo, quietinha, assim concordando e quase pedindo para acabar logo. Mas eu tinha que respeitá-la, afinal ela era mais velha e estava há muito mais tempo ali do que eu podia imaginar.
Eu era novata no ramo. Tinha decidido parar de vez há alguns meses e aí surgiu essa oportunidade. Mais parada que isso impossível. Logo no primeiro dia me colocaram ao lado dela. Ela estava bonita, com um vestido preto, um cinto prateado, saltos altos e uma bolsa que deveria custar uma fortuna.
Assim que cheguei ao seu lado ela disse: “Novata hã? Vão te deixar com essas calças curtas ainda um tempo, depois começam a te colocar vestidos mais bonitos”. Entendi que ela sabia tudo do assunto, conhecia as pessoas do lugar e poderia me ajudar. Eu ainda estava insegura com a escolha. Afinal, ali, estaria parada mesmo. Agradeci a dica e fiquei lá com minha calça capri, blusa pink e uma rasteirinha. Minha roupa toda não somava o valor da bolsa que ela estava carregando.
A primeira noite foi horrível. Fecharam tudo. Cerraram os vidros, as persianas, foram todos embora e ficamos ali, só nos duas, vestidas daquela maneira e na mesma posição. Foi quando ela me disse que depois que todos vão embora a gente poderia se mexer. Mas pensei que ficaria parecendo filme se nos mexessemos. E fiquei na posição que tinham me colocado. Ela deitou, descansou, acho até que a ouvi roncando. Mas eu fiquei ali, hirta, dura, imóvel, como era a proposta. Estar verdadeiramente parada.
No dia seguinte, ela já estava desperta bem antes de tudo se abrir. Arrumou-se, reaprumou-se e ficou ali, na posição que deveria estar. Dava pra perceber que era uma profissional experiente. Eu estava marcando touca se não pedisse dicas.
- E ai? Não dormiu nada a noite agora vai ficar cansada o dia todo.
- É verdade, essa noite vou fazer como você.
- Ah, decidiu seguir a voz da experiência não é?
Dava para perceber na minha cara que não tinha experiência alguma, que estava insegura e morrendo de medo. Não chegara ali numa boa situação. Viera mais por falta de opção. Queria parar e não me deixavam, então parei profissionalmente. Parar era uma obrigação diária. E também porque ali eu não precisava pagar aluguel, ter carro, namorado, nada! Só estar bastava.
Ela me perguntou da minha família. Antes de responder, perguntei da dela. E acho que para me ajudar a quebrar o gelo ela respondeu.
- Ah, já esqueceram de mim há muito tempo. Ás vezes um sobrinho passa aqui na porta e se lembra de mim, mas nunca tentaram me levar de volta, então acabei ficando. Cada hora colocam alguém novo por aqui, acabo fazendo amizade e não me sinto sozinha.
- Mas e namorado, marido, você não tinha?
- Não! Mas às vezes colocam alguém masculino ai, no seu lugar, e ai eu trato de me divertir um pouquinho.
Fiquei imaginando a cena e comecei a achar que tinha cometido um erro muito grande ao aceitar essa tarefa. Imagina que cena louca ela se divertindo com alguém quando tudo fechava.
Quanto tempo será que me deixariam ali, naquele mesmo lugar? Quando será que trocariam minha roupa? Será que trocariam de dia, para quem passasse me ver nua? Estava começando a sentir medo de verdade. E já eram quase dez da manhã quando o movimento aumentou. Muitas pessoas paravam à nossa frente, apontavam pra nós, olhavam o preço anotado abaixo. Umas entravam, outras não. A coisa estava ficando real. Era aquilo. Eu passaria o dia sendo olhada, observada. Ela estava bem com aquilo. Cada vez que o movimento acalmava, ela conversava, perguntava algo de mim, da minha vida. Eu não estava com vontade de conversar, estava apavorada, mas não podia rejeitá-la. Era minha única companhia. Era a única pessoa que poderia me dizer o que fazer na hora em que o desespero batesse, e eu sabia que bateria.
Como disse, naquele dia ela falou muito. Muito mesmo. E enquanto eu ouvia, pensava. Pensava que um dia estaria como ela, esperando uma companhia nova chegar para contar-lhe sobre minha vida. Contaria com um ouvido imóvel para me dar um pouco de atenção. Sou rápida nas decisões. Decidi que não ficaria mais ali.
Olhei bem pra ela, sem me importar com as pessoas que passavam. Ela entendeu meu olhar e piscou. Senti que aprovava a minha decisão. Me mexi toda, cada pedaçinho do meu corpo e foi como mágica, voltei a normal, rindo e chorando ao mesmo tempo. Não era mais manequim. Sairia dali para parar em outro lugar. Mas sairia correndo. E para uma noite que estava apenas começando.
Foto: blackspiritual deviantart

10 comentários:

Beto Mathos disse...

Uau! Belíssimo, Camila.
Me deixou sem fôlego.
Beijo!

Assim que sou disse...

Muito legal. Envolvente e estimulante. Dá vontade de conhecer o resto da história.

bjs

CeciLia disse...

Moça!!
que conto belíssimo. Adorei. Um ritmo legal, metáforas quase ocultas, imaginativo. Parabéns.

CeciLia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Narradora disse...

Gostei do texto. Criativo, bastante interessante.
Fico pensando, como é bom ser senhora de si, fazer o caminho e escolher as paradas.
Bjs

Pia Fraus disse...

Como aqui me faz bem!!!

sê feliz!!!!


bjo

Alice disse...

Camilla,

Li esse texto ontem e li de novo agora e vi vontade de ficar largada... como a preguiça de existir. Uma citação e seu texto renova de forma simples e perfeita, algo que nos é comum:

"Parar era uma obrigação diária."

(Camilla Tebet)

Quando você escreve o texto, o entrega às interpretações de todos... assim como quando a gente tem um filho e deixa ele crescer e fazer a própria vida.

E sentir-se em vitrine é comum de todos. Estamos sempre meio expostos.

E seu talento não fica trancado na vitrine. Por mim, ele sai ao mundo , tem namorado, passeia com amigos e usa o telefone.

Bjs...

Letícia

JOICE WORM disse...

Camila,
Sabe como li o texto? Primeiro vi duas mulheres e depois pensei que na verdade estavam em uma árvore e eram frutas a conversar. Será isso possível?
(Obrigada pelo coment no Pequeno Milagre. Nunca deixe de ver a minha resposta. Respondo sempre a todos os comentários.)
Adorei seu texto. Já agora se não era intenção, tente ler como se fossem duas frutas a conversar... E quem mudaria a roupa dela seria "o tempo". Esta é a maneira como o observador vê a obra de um artista. Até pode não estar certo, mas a análise acontece.

Clarissa Marinho disse...

Camila,muito obrigada pelos elogios,viu?
Gostei do seu texto,dá vontade de ler um segundo capitulo da história! =D

Friendlyone disse...

Estou por aqui mesmo, às vezes sumo pra pensar um pouco!

Como sempre seus textos me deixam pensando em madrugas ora geladas, ora quentes como essa de hoje. Gosto de gente que me faz pensar desse jeito. Seus textos causam, Camila.

Beijos e até o próximo!