terça-feira, 3 de junho de 2008

UM CONTO ERÓTICO, NÃO FOSSE.....


eu não saber escrever sobre sexo




Um sorriso assim, meio triste, meio torto deixa a gente sem graça. Pega de surpresa pela assimetria. Ele me sorriu assim e foi na praia. O sol estava forte demais para coisas singelas. Tinha que ser assim mesmo, um sorriso meio triste, meio torto. Me ganhou. Continuei sentada na cadeira, tomando o sol anti-protetor solar. Sabia que estava sendo observada, mas isso não fazia minhas pálpebras tremerem. Fechei os olhos, assim como se faz para tomar sol.
Deitar em cadeira de praia não é das tarefas mais confortáveis, mas é com certeza, compensadora. Meus pés? Escondi na areia, cavando um buraquinho só pra mim. E torrei ao sol por alguns minutos. Estava batendo a sede. Abri os olhos e olhei para o lado. Ele ainda lá, com seu sorriso torto e assim, meio incerto. Levantei para buscar água. Dei uma olhadinha pra ele, aquele olhar “cuida das minhas coisas pra mim” e ele piscou, ok! Fui pulando pela areia, que mesmo de chinelo, queima a sola do pé, até o quiosque da praia. Quer saber? Nada de água, pedi uma caipirinha e voltei para minha cadeira. Mais um sorriso para agradecer ele ter “olhado” minhas coisas. Ele pareceu sem graça.
Sou assim, não facilito para mim mesma, nem para os outros. Levantei o assento da cadeira e sorvia minha caipirinha com o mar todo à minha frente. Pensei comigo: não posso nunca estar feliz. Besteira, nem sei se pensei isso mesmo.
Ele finalmente se aproximou. Eu tinha certeza de que acabaria fazendo. Alguns homens são assim, parecem que não, mas se atiram.
-Vem sempre nessa praia?
- Nunca, sou de São Paulo.
-E está gostando?
-Adorando.
Bem, até ali o papo básico de quem se conhece na praia. Achei que não iria dar em nada mesmo. Mas ele continuou sentado ao meu lado, jogando conversa fora. Ofereci um gole da minha caipirinha, ele aceitou. Opa, estávamos dividindo uma caipirinha e eu nem sabia seu nome.
- Luca, meu nome é Luca.
- Lindo esse nome. Que bom te conhecer Luca.
Sou honesta quando gosto de ver alguém. Ver mesmo. Ele era uma figura agradável, um cara gostoso de olhar e pouco a pouco se mostrava gostoso de estar junto também. Falamos sobre Rio, São Paulo, Fidel renunciando, cinema brasileiro, ter trinta anos solteiro, quem tem ou não filhos, carreira, dinheiro. Isso mesmo, tudo isso assim, em tão pouco tempo.
Não, não tinha a sensação de que o conhecia faz tempo. Dizer isso seria mentira. Tinha a exata sensação de que o conhecera ali, naquele instante e que estava sendo um prazer descobrir alguém tão interessante.
-Vamos dar um mergulho Luca, convidei.
Ele topou e caminhamos até o mar juntos. Caminhar de biquíni na praia não é meu forte, mas estava bem. Mergulhamos algumas ondas, passamos a rebentação e ficamos um tempo conversando também dentro do mar. Bom isso! No mar, onde a profundidade não dava pé, nós dois quase sem fôlego conversando, bem perto um do outro. Podíamos ficar ali o dia todo, não fosse o sol tão forte.
- Vamos sair Luca, o sol esta muito forte.
Ele fez que não ouviu e chegou mais perto, com o rosto bem próximo ao meu.
-Vamos sair? O sol está muito forte, vamos para o meu guarda sol, eu disse mais uma vez.
Ele aproveitou a proximidade e me beijou. Um beijo de sal de mar, dado por uma boca torta e um tanto triste. Eu beijei também, mas não abracei. O fim do beijo foi sorriso, meu e dele.
Saímos então do mar, sem dizer nada. Tínhamos nos beijado. Fui andando a passos pesados para o guarda-sol, passos de sal de mar, de areia, de muito sol e de um beijo roubado, que dizem ser o melhor. Foi bom. Apaixonante para dizer a verdade.
Ele nem sentou na cadeira, correu ao quiosque e pediu duas caipirinhas. Voltou e me deu uma.
-Vamos beber um pouco? Sugeriu, tímido.
-Vamos beber um muito!, Eu, oferecida.
E a caipirinha não durou mais que cinco frases cada um para decidirmos que o horário de praia tinha acabado. Não mais por hoje.
-Vamos comigo para casa, ele não sugeriu, convidou.
-Vamos.
E comecei a arrumar a bagunça de coisas que estavam esparramadas em volta da minha cadeira. É assim, eu trago para praia tudo o que preciso e um pouco que não preciso também. Assim fico segura de que o dia será apenas de sol. Sem grandes trovoadas e chuvas desavisadas.
Fomos andando até o carro dele. Eu até pensei em ir para o hotel, que era logo ali na frente me trocar. Mas não. Na verdade eu nem conhecia o Luca direito, mas queria ir exatamente onde ele me levasse e assim mesmo como eu estava vestida.
Entrei no carro.
-Luca, para onde estamos indo.
-Minha casa. Vamos fazer algo para almoçar. Vamos almoçar juntos não é?
- Vamos sim.
Ele pegou uma avenida, que acho ser a Copacabana! Estava no meu primeiro dia no Rio da Janeiro. Na verdade ainda não conhecia nada.
Ele colocou um cd que adoro, mas que não sei o nome. E achei melhor não perguntar. Detesto essa coisa de “ah, adoro esse cd, quem está cantando mesmo?”. Fui ao embalo da música de desse novo personagem, o Luca.
Em 10 minutos de uma linda paisagem chegamos a uma viela. Ele mora numa vielinha com umas 10 casas. Entrou com o carro na garagem e pediu que eu descesse e me sentisse à vontade. A casa era charmosa, cheia de cores, de toques pessoais. A sala tinha cara de quem recebe amigos amados. A cozinha, aquele cheiro de quem cozinha com gosto para amigos gostosos. Sentei no sofá, um tanto encabulada. Ele sentou perto de mim, me deu um beijo grande, forte, profundo. Me abraçou como se uma onda forte viesse em minha direção e ele quisesse me proteger. Ficamos ali no sofá, nos beijando por algumas horas. Nada de sexo. Nos beijávamos e falávamos sobre alguma coisa que provavelmente era besteira, mas que pra nos dois fazia um monte de sentido. Ainda tinha a sensação de tê-lo conhecido há pouco. Mas era bom.
Não sei por que, bem ali, no sofá de um estranho que acabara de conhecer na praia, senti vontade de chorar. Não chorar drama, chorar charme, de muita emoção. E quando sinto vontade de chorar, impossível segurar. Chorei. Agüei. Chovi. Inesperadamente ele não me perguntou por que eu chorava e não achou estranho. Sentou de frente pra mim, segurou uma de minhas mãos e sorriu, como se estivesse feliz por eu estar chorando. E era mesmo para estar. Eu choro bem.
Ele é bonito, pensei. E era mesmo. Tem um sorriso torto, mas é bonito pacas. E como se adivinhasse o que eu pensava, ele enxugou minha lágrima e me beijou mais uma vez. Longo. Muito longo. Quando percebi estava na cama dele. Medo. Enquanto estávamos só nos beijando eu ainda podia ver seu sorriso. Na cama não podia mais. A cara dele era de sério. De quem quer se concentrar. E eu não gosto de sexo concentrado. Prefiro diluído mesmo. Com muita água. Brequei os avanços do corpo dele. Não queria assim, transar loucamente depois das lágrimas. Até então estava achando a companhia dele realmente legal, não queria que a tarde se tornasse previsível.
-Nos não íamos comer alguma coisa? Estou morrendo de fome.
Bingo, ele é sensível. Levantou-se imediatamente e disse:
-Vamos sim, lógico.
Fomos para cozinha. Adoro cozinhas coloridas, com balcão para sentar e conversar enquanto se prepara a refeição. Sentei num banco alto e deixei que ele pilotasse o fogão. Abriu uma garrafa de vinho branco, gelado no ponto. Pensei “tem gosto para vinho, um bom sinal”. Perguntou se eu gostava de pasta alho e óleo.
- Acertou em cheio!
Na verdade tinha acertado em cheio em tudo até então. Mas não queria exagerar nas palavras e nem dizer a ele o quanto amo macarrão. De leve.Enquanto ele cozinhava, nos bebíamos vinho e nada de silêncio. A conversa era agradável, a casa agradável, ele quase perfeito e eu me sentia bem.
- Você está no Rio a trabalho?
-Não, não conhecia o Rio e decidi vir sozinha, e apesar de ter alguns conhecidos e amigos por aqui, me hospedar num hotel pra fazer turismo mesmo.
- Sozinhos, acabamos conhecendo mais gente ,não é?
-Lógico, olha eu aqui, conhecendo você.
- E essa tarde vai ser uma boa lembrança da viagem?
-Não sei, a tarde ainda não acabou.
É, eu sei. Talvez tenha sido uma resposta imbecil. Deveria dizer, sim, claro. Mas teimo em ser sincera. Era verdade, a tarde não tinha acabado. Estava longe disso, eu esperava.
A massa ficou pronta, ele serviu em pratos igualmente bonitos. Perguntou se eu queria ir para mesa e preferi ficar no banco mesmo. Ele sentou ao meu lado e devoramos o prato. Macarrão + queijo + vinho + Luca = uma tarde agradável.
Ele começou a rir sozinho, uma risada de barriga cheia. Perguntei do que ele ria.
-Fiz macarrão com alho para alguém que pretendo beijar o dia todo. Uma deselegância só.
Sorri também quando me lembrei que minha boca provavelmente estava com gosto de alho.
- Vou ao banheiro, escovar os dentes.
-Também vou, ele respondeu já me acompanhando.
Peguei minha escova na bolsa e fui ao banheiro dele. Ele veio junto. Escovamos os dentes olhando um para o outro no espelho. Estava escovando os dentes com ele. Normalmente uma intimidade que leva tempo para ser ganha. As coisas realmente estavam acontecendo num fora de ordem delicioso nessa tarde.
Dentes escovados, fui para sala. Confortável, me esborrachei no sofá. Ele colocou um CD do Toots Thielmans. Mais uma: eu adoro Toots, mas não diria nada. Clichê demais para o clima que estava rolando.
Recomeçamos no sofá, como dois adolescentes que esperam os pais saírem de casa. Como já disse, os beijos eram longos. Ele beijou minhas mãos, meus braços, meu pescoço, e aí fazia charme, dizia coisas engraçadas no meu ouvido. E foi aí que me ganhou.
Adoro beijos com risadas. Romance tem a ver com humor. Paixão tem a ver com sorrisos, tortos ou não, com gargalhadas e diversão. Assim é um bom amor.
É, eu sei. Não dava mais pra ficar só nos beijos no sofá, tava ficando muito longo sem um final feliz. E ele foi exato. Foi tirando minha roupa devagar, sem deixar de me beijar, sem deixar de dizer coisas bem humoradas. Fui também tirando a roupa dele, me divertindo com a atmosfera de sem compromisso que ele me permitia sentir. E aconteceu, transamos com calma, com carinho, com música, com o sol de final de tarde, com a barriga cheia, com o vinho ainda fazendo efeito. No sofá, no chão e por último na cama. Transamos até cansar. Cansar de bom. Cansar de corpo.
- O dia foi uma delícia, adoro sua companhia.
Adoro declarações honestas. Não preciso de flores, jóia, ligações, bombons ou café na cama, prefiro frases honestas. E nesse caso foi exatamente o que senti também. O dia tinha sido uma delícia. Adorei a companhia dele.
Eu poderia ter ficado, dormido com ele. Eu poderia querer ver ele de novo. Eu poderia achar que estava apaixonada. Eu poderia criar expectativas. Eu poderia achar que ali começava um grande romance. Mas não. Foi um romance sim, assim como são todos os que começam e demoram para acabar e também aqueles que começam e acabam na mesma tarde.




Photo by chickendiver - deviantart

14 comentários:

Carolina Sperb disse...

o casual é realmente apaixonante.
amor não é programado, não é ensaiado, não é comandado.
é simples, acontece.
e quando chega, não há mãos que possam arrancá-lo, não há coração que se negue a sentir, nem corpo que não se entregue.
o amor é efêmero. mas, dura uma eternidade.
é assim, cheio de antônimos que se completam.
ele não precisa de validade.
dura somente o necessário para se tornar inesquecível.

beijos, camilla.

Carolina Sperb disse...

na verdade, camilla, nem eu mesma sei no que acredito.
mas, como disse no texto, o amor é eterno. a paixão, não. amor pode ser amor de amor, amor de gostar, amor de carinho, amor de compreensão, amor de saudade... uma verdadeira imensidão de amores, que nunca desaparecem, nunca se perdem. congelam no coração - e, quando não correspondido, congelam o coração.
mas você tem razão ao dizer que a paixão vira amor quando as noites começam a serem menos horrendas.
estou precisando amar...
já ando com medo de dormir... hehe
obrigada pelas visitas.
e saiba que também adoro seus textos.
(seu blog já está nos links hehe)
beijis

F. Reoli disse...

Tuas palavras criaram o clima mais que perfeito... é como se pudessemos ser voyeures alí, sentido cheiros, vendo as cores e ouvindo sussurros, sorrisos... o sol!
Beijos

israel disse...

belissimo conto, nao importa o tipo de romance, o importante estar bem , e se sentindo bem acompanhado..

adoro a maneira como voçe escreve!

bjo!

Clarissa Marinho disse...

Muito bom,envolvente como aquele doce bom,que vc come,e quando acaba,vc fica satisfeita porque comeu seu doce preferido! ;)

alua.estrelas disse...

Vc é danadinha... Como chega de mansinho e faz com que a gente pare tudo para acompanhar palavra por palavra, imaginando cenas, cheiros, gostos, sentidos... Adorei o texto. É envolvente e simplesmente lindo. Parabéns. Bjos.

Narradora disse...

Incrível, eu não sei como você faz, mas de repente, eu estou no seu texto (coisa de escritora).
Achei legal a simplicidade da entrega deles, honesta e sem expectativas, nada além do agora e do aqui.
Lindo o romance.
Bjs

Assim que sou disse...

Quem disse que você não sabe escrever sobre sexo? Mulheres escrevem sempre melhor sobre sexo. Há sedução erotizante e não erotismo sedutor. E isso, para mim, é fundamental.
História envolvente, com todas as delícias de uma tarde de amor. Com ou sem sexo.

bjs. Veronica

Alice disse...

Camilla,

Adorei as mudanças. Sou assim tb - senão mudo, morro ou entro em depressão. Tô no trabalho e passei pra dar uma olhada. À noite vou passear por seus textos... e já vi que tem coisa em inglês. Amo poemas em inglês. Vamos rasgar seda... I'm your fan too.

See you.

Janaina Fainer disse...

camilla, camilla, camilla, vc é o máximo mesmo

Janaina Fainer disse...

camilla, camilla, camilla, vc é o máximo mesmo

Lina disse...

Fantástico! Esse conto dá roteiro de filme, com direito a uma fantástica trilha sonora.
Legal.
Virei te visitar mais vezes.

Anônimo disse...

Eu n�o saberia ser t�o rom�ntico quanto esse cara.Embora eu tenha sido, um dia. Entretanto se foi t�o intenso quanto voc� narra, não merecia ser tão passageiro. Mas assim � o amor na mulher: FULGAZ. Belo Texto!
Obrigado pela visita ao meu blog. Desculpe-me pela demora em responder.

CRISTIANO MACIEL.

Anônimo disse...

Versaute Amateure

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