quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Depois daquele baile


Depois daquele baile eu disse a ele que nunca mais dançaríamos juntos. Ele disse que não acreditava. Fui comer um sanduíche nem sei em que cidade. Pernil com muita maionese. Não gosto de carne de porco, mas até ai não sei em que cidade estou. Me lambuzei e me satisfiz. Nem sempre os dois acontecem juntos. Às vezes a gente se lambuza pra depois sentir mal e ter que limpar. Como não sabia em que cidade estava, achei melhor procurar minha casa a pé. As ruas estavam escuras. Cheias de pedras no chão e poucos carros passando. Alguns paravam perto, imaginando ser eu uma prostituta a procura de cliente, sem saber que naquela noite eu já tinha me lambuzado. Um dia me imaginei sendo prostituta. Pelo sexo, pelo dinheiro e pela coragem. Sim, para se prostituir tem que ter coragem.


Andei até cansar, quando cansei decidi andar mais. Se achasse um táxi e ele parasse não saberia dizer para onde queria ir. As luzes das ruas eram luzes de cidade do interior. E apesar de não saber em que cidade estava, sabia que não estava no interior. É estranho como algumas vezes sabemos o não e não sabemos o sim. É essa a diferença da certeza, não é? Para ter certeza é preciso saber os dois. Esqueci do baile, tinha acabado e com ela minha história com o homem. Um homem que fora ninguém. Virei numa rua que eu achava conhecer. O curioso é que nela, havia uma casa que parecia aberta e com a luz acesa. Já era madrugada alta, não era para ter ninguém acordado naquela hora. Mal pude acreditar quando vi uma senhora sentada numa cadeira na calçada. O que faria ali, àquela hora? Fui chegando mais perto e me certifiquei de que estava viva. O que? Poderia ter morrido sentada na cadeira e ninguém ter percebido. Estava viva, e sorria.


- Boa noite, eu disse, com um tanto de medo de que a mulher estivesse mesmo morta, apesar de sorrindo. - Boa noite, o que fazes por aqui a essa hora?


- E a senhora, o que faz sentada na rua no meio da madrugada?


- Adoro madrugadas, é a melhor hora do dia para se tomar uma brisa na calçada.


- Mas senhora não acha perigoso não?


- Acho, mas a vida toda achei tudo perigoso e isso não me impediu de fazer tudo o que fiz.


-Agora me diga você, o que fazes por aqui?


- Eu fui a um baile e mandei o homem embora, disse que era a última vez que dançaríamos juntos. - Ah, e está triste por isso?


- Não, de jeito algum, estou tão feliz que decidi procurar minha casa caminhando.

- Perdeu-se, não sabe onde é sua casa?

- Para ser honesta com a senhora não sei nem em que cidade estou!

- Nossa, acho que você deve estar cansada, minha filha. Entra ali, ó, pega uma cadeira e sente-se aqui ao meu lado. Ela apontou para a sala, que estava aberta. A porta era de madeira, enorme e de um azul claro que só vendo. Abri a cadeira ao lado dela e me sentei, foi só então que vi o quanto estava cansada.

- Está mais confortável agora?

- Estou confortável sim.

- Então, agora pode me contar como veio parar aqui.

- Simples, saí do baile, parei num carrinho de lanche e vim reto até aquela última rua ali, ó, aí decidi virar aqui porque a rua me pareceu conhecida.

- Ah, que bom então. E ficou em silêncio. A senhora sentada numa cadeira de praia na calçada, de madrugada ficou em silêncio. Sorria, sempre sorria. Acho que era a felicidade de fazer exatamente queria que lhe dava de presente esse sorriso tão calmo. E em silêncio ficamos por mais de uma hora.

- A senhora mora nessa casa sozinha?

- Sim, há muitos anos. Meu marido morreu e eu não tenho filhos. Tenho sim muitos vizinhos, que estão sempre aqui em casa comendo meus bolos. Faço bolos para fora .Adoro criar novas receitas e ver as pessoas celebrando com meus bolos. E como não posso dá-los, o que criaria uma fila imensa na minha porta, acabo vendendo.

- Ah, lógico. Devem ser uma delícia, já que são feitos com amor. Já que você apareceu aqui de madrugada assim, com essa carinha tão bonita, vou te contar um segredo. E contou:

- Eu não durmo muito bem minha filha. Desde pequenina que tenho problemas para pegar no sono. Durmo umas duas ou três horas por noite, quando muito. Sendo assim, aproveito para assar meus bolos à noite.

- Ah, eu também não durmo, saiba a senhora. Mas olha, não precisa sofrer tanto. A senhora pode ir ao médico e tomar um remédio que vai fazê-la dormir como um anjo, um sono de bebê.

- Querida, sono de bebê eu já tive quando fui um. Não quero mais. E sono de anjo: ainda quero adiar um pouquinho, já que não tenho planos de morrer tão cedo. Queria era ter um sono de uma senhora na minha idade. Como isso o remédio não faz, prefiro ser assim mesmo, sem dormir.

- Se quiser podemos fazer um bolo. O que acha?

- Fazer um bolo? Mas eu não sei cozinhar, aliás, não entro numa cozinha há anos.

- Melhor ainda, assim vai entrar na minha cozinha, que é especial e cozinhar comigo, que tenho paciência para te ensinar.

- Mas já está quase amanhecendo, vamos fazer um bolo a essa hora?

- Não tem hora certa para fazer bolos, querida.

A senhora levantou-se com dificuldade. E foi só quando levantou que vi o quanto era velha. Deveria ter mais de oitenta anos. O sorriso sentado a fazia parecer mais jovem. Pegou a bengala que estava no chão e entrou na casa. Eu fui atrás. Ela tinha os cabelos totalmente brancos, enrolados em um coque. Vestia um vestido de pano, com botões na frente e chinelas. Simples, idosa e sorridente, assim era a senhora que assava bolos de madrugada. Quando entrou na sala, acendeu as luzes e só então pude ver como era bonita sua casa. Pé direito alto, sofás antigos com estampas florais, vários tapetes, um se sobrepondo ao outro, protegendo o chão de madeira.

Uma mesa de centro com muitos enfeitinhos de vidro e cristal. O cheiro da casa não era de bolo ou de coisas antigas, era um cheiro de casa limpa. Parecia mesmo uma casinha de sonho. Mas eu estava acordada demais para saber que aquilo não era um sonho e nem uma alucinação. Era uma realidade dessas que só acontecem de madrugada. Ela sorriu e apontou a cozinha com a bengala. Entrei. Era uma cozinha grande, com pias de concreto e muitas coisas pendurada nas paredes. Confesso que depois da sala esperava encontrar uma cozinha mais organizada. Ela percebeu minha surpresa e disse:

- Lugar de criação é lugar para estar bagunçado. Se aqui tivesse organizado meus bolos não estariam tão bons. Então vamos assar um bolo. Você gosta de bolo de abacaxi?

- Sim! Na verdade adoro bolo de abacaxi.

Acabara de descobrir que era o meu favorito. Dentro da cozinha ela se movimentava com uma destreza que não fazia fora dela. Era rápida, em alguns minutos a pia já estava cheia de panelas e me deu a tarefa de descascar o abacaxi. Quando ela disse “descasque o abacaxi”, achei irônico, mas me lembrei que estávamos apenas nos empenhando na tarefa de assar um bolo. Peguei uma faca grande, descasquei o abacaxi e cortei em fatias finas, como ela mandou. Enquanto isso, ela misturava farinha, açúcar, fermento, batia chantili, fazia um creme separava o açúcar e falava. Pensei em como sempre exagerei nos ingredientes, nas poucas vezes em que cozinhei. Sempre achei que antes pecar pelo excesso do que pela falta. Ela me explicou direitinho porque a quantidade certa muda não só o sabor, mas a consistência do bolo.Começamos a montar o bolo e ela sorria. Agora um sorriso ainda mais doce, cheio de açúcar. Perguntei a ela:

- Quanto tempo leva para esse bolo assar?

- Umas duas horas.

Quando ela disse duas horas, lembrei que estava ficando com sono. Precisava dormir. Acho que ela adivinhou meus pensamentos e disse:

- Enquanto eu termino o bolo você pode tirar uma soneca. Tenho um quarto de hóspedes.

O cansaço me disse que aceitasse. Ela me levou até o quarto e disse:

- Deite-se, descanse um pouco. E pode deixar que eu te acordo.

Deitei. Pensei o quanto tinha sido bom ir ao baile. O quanto tinha sido bom mandar aquele homem embora e o quanto seria bom comer bolo de abacaxi na manhã seguinte. E dormi!

18 comentários:

Vivian disse...

...existem algumas coisas que não tem preço.

o gosto do bolo de abacaxi,
o olhar e sorriso de quem
já viveu tudo que podia viver,
as ruas desertas abrigando a
madrugada, cadeiras na calçada,
a lua refletindo o momento,
e o repeteco da emoção em poder
viajar no tempo contigo...

te amo, linda!
obrigada por me deixar
fazer parte do seu mundo.

Pia Fraus disse...

rs.....
há escolhas se agregam prazeres e dores.... mas, predomina o ato livre de escolher...

Dauri Batisti disse...

Muitas coisas boas nos chegam por caminhos desconhecidos. Se encontra quem se havia perdido. texto gostoso como bolo. Qualquer bolo é bom, ainda mais com um cfé quentinho e um boa conversa.
Conto interessante, que vai por caminhos para além da lógica, mas ao mesmo tempo natural.
Beijo.

Janaina disse...

Coisas assim acontecem. Mesmo.

Letícia disse...

Excessos, falta de sono, cadeira na calçada. Sou narradora observadora participante e coadjuvante, Camilla. Cada grama do que foi dito, tenho um pouco em mim. E sono. Um sono interminável. Você me lê boa parte das vezes. E leio você - come rain or come shine.

Jaque Lima disse...

antes pecar pelo excesso. do que pela falta. também sempre pensei assim. mas só fazia isso na cozinha. nas poucas vezes qe estive lá. de resto. fazia de menos. até perder a vergonha. e ser execesso. demais.
mas não sei se assim tá certo. porque o meu exagero nem sempre me traz boas recordações.

Beijos!

Ju... disse...

E me vi. Quando era criança me transferiram para o turno da tarde porque eu não conseguia acordar. E não é que eu não conseguisse acordar...é que eu não conseguia dormir...ou não queria ter hora certa pra isso.
E até hoje é assim. Mas o mundo fora de mim parece girar mais rápido de dia e tenho que me adaptar...ou, temos!
E, sim, a madrugada é o momento mais lindo do "dia"!

Janaina Fainer disse...

passei por aqui

bjs

Germano Xavier disse...

Tebet,

eu vou mandar uma carta para Apollinaire dizendo que aqui, no Brasil, tem mais uma seguidora do simbolismo.

Você anda "fantástica" demais, Tebet! Uma mulher que joga fora o homem e que encontra uma velha na madrugada que faz bolo de abacaxi e deixa dormir um sonho.

Isso ou é caso de sanatório ou é consciência boa de idéias.

Eu aposto nas duas.

Um carinho.
Continuemos...

Aquela par que virou ímpar. disse...

deu agua na boca agora ...
hohoho

Germano Xavier disse...

Relembrando a história surreal, Tebet.

Um carinho.
Continuemos...

Narradora disse...

"É estranho como algumas vezes sabemos o não e não sabemos o sim".

É mesmo, e às vezes eu até acho que a certeza é ilusão... saber o sim e o não de tudo é muito. Até porque, tem coisa que a gente só descobre no meio de uma madrugada diferente, tipo a predileção por bolo de abacaxi.
Beijos

*Carol Carolina* disse...

amo bolo de abacaxi.
seus diálogos sempre dizem tanto....fico pensando...pensando....


adoro aqui, e lá! =)

beijokas

Assim que sou disse...

Curioso como contamos nossas histórias e as interpretamos à luz de como nossa alma caminha naquele momento. Sua história é contada para justificar a mensagem de que tudo é apenas uma questão de olhar; de que no final o tudo pode ter sido apenas o caminho. O bom caminho. Se nosso olhar sobre a história é torto, duro será. Se doce, suave como as histórias que dão certo. É bom demais te ver contando histórias que dão certo. Você é muito mais sabida do que permite reconhecer.

bjim. Veronica

Germano Xavier disse...

Tebet,

você é um substantivo que não combina com o verbo parar.

Por isso, continuemos...

Fernanda Pereira disse...

Cara adorei...

A velhinha
a casa
a ultima dança
o bolo
e a cama

texto muito bom

beijos

Luciana disse...

Fico boba de ver o quanto suas histórias me deixam quase que em transe enquanto as leio. Você tem o dom de escrever de uma forma que prende o leitor.

Adorei, mais uma vez!

Grande abraço!

Daniel disse...

Esse tipo de coisa é mais comum do que se imagina. Bjus e boa semana.

http://so-pensando.blogspot.com