segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O moço que ia


O moço levantou-se e foi. Seguiu pela rua movimentada. Parou na padaria e comprou uma lata de coca, que saiu tomando. Tropeçou num saco de lixo que estava jogado no chão sujo da cidade que não era mais limpa do mundo que não era mais seu. O moço foi, porque tinha que ir. Andou ruas e ruas. Atravessou carros. Muitos carros da cidade movimentada que cheirava fumaça e estava quase podre porque o mundo estava acabando e ele com tosse da coca cola e da poluição. O moço foi, atravessou a ponte da cidade que está doente e viu pessoas de sacolas nas mãos e guarda chuvas embaixo do braço e viu casais se beijando, viu homens ao telefone andando e comendo ao mesmo tempo, viu crianças que não são mais crianças porque não podem ser, viu gente que quase não é gente mais porque come lixo. O moço foi com poucas vírgulas e quase nenhum ponto, foi no caminho que tinha que ir. Uma loja de grandes televisões chamou sua atenção. Se sua vida tivesse dado certo, se tivesse tido sucesso, se tivesse ganhado dinheiro, se tivesse um bom emprego e um sorriso cínico na cara poderia comprar uma televisão daquelas junto com um grande e confortável sofá para sentar na sala com sua esposa e assistir ao que quer que fosse. Mas além de não ter sucesso não tinha esposa, não tinha namorada e não tinha noiva. Era sozinho como uma árvore isolada, enraizado num lugar só e distante como paisagem. Mas agora o moço ia e pensava que queria ir cada vez mais rápido para gastar o sapato que comprou há muito tempo atrás quando ainda tinha dinheiro para comprar sapatos. Agora só tinha dinheiro para comer comida e ainda assim achava bom não ter que comer lixo. Indo, passou na frente de uma livraria e quase pode ver todas as letras que dela saiam, via coisas assim, fora de seus lugares. Sim, porque as letras deveriam estar dentro dos livros, mas ele as via onde queria. As letras, que são muitas numa livraria, saiam da vitrine, os livros passeavam, abanavam pra ele, quase o chamando para uma conversa, um sonho, uma viagem. Mas ele não podia parar e não tinha dinheiro para comprar um livro, que é coisa cara, de quem tem sucesso de quem tem sorriso cínico e de poucos outros que contam as notas que não são lisinhas como quando saem do banco, são amassadas como quando são guardadas, planejadas para momentos de prazer, aqueles em que a necessidade pode esperar. E o moço ia, quase sem letra maiúscula. Viu uma mulher bonita e cheirosa passar por ele, queria parar e se apresentar, mas isso não ia fazer, isso não ia. Estava caminhando com seus sapatos que precisavam ser gastos até chegar a noite e ele ainda estar caminhando, até chuviscar devagarzinho, só para estragar o cabelo das mulheres de sorriso cínicos. E são mulheres assim que passam agora que ele está cansando de ir. Parece que no final do caminho são só sorrisos assim que sobram, mas o moço vai. De agora em diante tinha decidido ir, mesmo que a resistência do asfalto se oferecesse assim. Sem vergonha, ia sem se preocupar com a pontuação.

17 comentários:

Aquela par que virou ímpar. disse...

esses sorrisos cínicos me deixam no chão.
cara como eu odeio ...

Germano Xavier disse...

Tebet,

vou ser sincero. Um dos melhores que já li aqui. Texto ligeiro, que faz o leitor grudar os olhos. Li e reli. Lembrei do itinerário de Lepold Bloom, que era o Joyce. Você revisitou um pouco o Ulisses que existe em cada um que passa e vai.

Um carinho.
E continuemos, deveras...

tossan disse...

Real e belo! Muito bom o teu texto!
Com estilo próprio. Bj

João Neto disse...

E se... e se... e se...

Gosto de te ler por que me vejo em muitos textos seus. Acho que você consegue traduzir a realidade da vida como poucos.

Aqui vi retratada uma fase de minha vida quando eu sempre pensava no "e se...". Ora bolas! Uma única atitude diferente e tudo poderia ser MUITO diferente hoje. Talvez eu nem escrevesse, talvez não tivesse um blog, talvez não tivesse conhecido sua obra. Talvez nem estivesse vivo.

Sendo assim, um brinde a tudo como foi, pois foi sendo assim que cheguei hoje aqui.

Bjos.

Janaina Fainer disse...

saudade de vc
física e virtualmente
vc sumiu do sete graus
bjs

Jacinta Dantas disse...

Nossa, menina. Texto gostoso de ler, do começo ao fim,e , no fim, fica o gosto de querer continuar com o moço que prefere ir, seguir, em mundos de gente iguais(no cinismo), sendo diferente e querendo apenas seguir vida a fora.
Um abraço

Assim que sou disse...

Enquanto eu lia fui pensando em duas vertentes literárias. E não vai aqui nenhuma comparação - antes que alguns pulem de suas cadeiras. Pensei em Chico Buarque e a emoção monocórdica da letra de Construção; pensei nos textos de frases longas e quase irrespiráveis, de José Saramago. Mas não consegui perder um sinal apontado ainda no primeiro terço do texto, quando mesmo diante dos sorrisos cínicos da classe medianamente decadente, da cidade doente, das crianças infelizes e gente desumanamente comendo lixo, o seu personagem em agonia vê casais se beijando. E é por você descrito como uma árvore isolada, quando as árvores são o ícone maior da esperança, da vida. E é tomado por letras, que avançam os limites da vitrine e contam histórias. E mesmo assim segue adiante. Camilla, querida, esse sim é o tema, o sentimento, a força maior dos seus textos: a presença, sonhadora ou real, do amor.E como já te disse: não há dique que consiga conter esse mar.
Gosto pessoalmente quando percebo assim.

beijos. Veronica

Dauri Batisti disse...

Que bonito! O conteúdo, denso, foi sendo colocado de modo tão poético. Recortei e colei. Brinquei depois de ler para reler.

O moço levantou-se e foi
o moço foi com poucas vírgulas
era sozinho
como uma árvore isolada
queria ir cada vez mais rápido
quase pode ver todas as letras
são amassadas,
sem letras maiúsculas
ele está cansando de ir
mas vai, decidido
sem vergonha
sem pontuação

Letícia disse...

Eu pensei em papéis que compram coisas e no cinismo que compra esses papéis e também em mulheres cínicas que parecem ganhar tudo no fim e o fim chega depois.

As usual, muito bom.
Um dia, leio um livro seu.

Vivian disse...

...espero ainda estar aqui em baixo
para poder ir à sua noite de autógrafos sem cinismos, é claro!

muahhhhhhhhhhhh

Assim que sou disse...

Vou comentar seu comentário: carrego comigo aquele mote capricorniano que busca explicar tudo. A idéia da "verdade" - penso - está mais ou menos desenhada nessa necessidade de tornar concreto, tornar real e factível o que, tantas vezes, é delírio, é desejo, é quimera. Mas realmente acredito que posso mudar o mundo, mudando a mim, aceitando novas "verdades", me derrubando e reconstruindo, aprendendo o tempo todo. Sem nunca desistir ou abrir mão do alimento do amor. Foi isso que busquei te dizer porque esse é um sinal que vejo sempre expresso em suas linhas e sinais, densos e doces. O que não quer dizer que tudo isso seja verdade. Talvez só pretensão. Gosto mesmo da idéia de trocar idéias com você.

bjsss. Vê

Ju... disse...

Letícia disse lá no "afeto literário": "A mulher escreve e com força. Tem raiva e tem talento."
Li seu texto e só posso concordar!

Germano Xavier disse...

Vim, li e reli.

Como os romanos.
E corroboro o que disse anteriormente.

Um carinho, Tebet.
Continuemos...

Janaina Staciarini disse...

Acho que a maioria de nós anda assim: cheio de letras, sem ter como pontuá-las.
Eu sou, então, a moça que foi.
Mas a minha coca é zero.
:)
Adoro ler você. Quando crescer quero ser assim: um palíndromo sem clichê; Tebet.

Beatriz disse...

Existem pessoas que vão assim, sem se preocupar em colocar vírgulas nem pontos, nem acentuação nenhuma, e outras que pontuam tudo, cada pedaço do caminho, fazendo questão de usar toda a ortografia e pontuação possível. São pessoas, apenas pessoas, procurando trilhar o caminho da melhor forma que acham que deva ser trilhado, grupos que por vezes criticam o extremismo de uns e o desmazelo de outros, e entre isto tudo ficam as letras a saltarem buscando encaixes nos parágrafos de textos muitas vezes tão desordenados que os próprios livros não conseguem detê-las.

Um texto que enseja milhares de significados e significantes, muito bom, Camilla, muito bom!

Te deixo um raio de luar brincando nos teus sonhos e um beijo no coração.

israel disse...

belo texto, voce como sempre a escancarar cada pedaço escondido das pessoas que passam por aqui!!

adoro cada linha que voce escreve!

beijos!

Germano Xavier disse...

Enquanto não chega o texto novo, deleito-me com esse.

Prato de comida depois de um dia no deserto.

Continuemos, Tebet.