sábado, 26 de abril de 2008

Nem foi


Nem foi por pensar em você que resolvi escrever. Foi mais por pensar em mim mesmo. Fazia tempo que não pensava que eu tenho história, que faço parte de um enredo, muitas vezes fugidio, muitas vezes cheios de lágrimas. Nem foi por pensar em você que liguei o computador a essa hora, não! Foi por ter saudade das letras, por ter saudade de ter palavras a dizer. Ando com poucas e isso é péssimo sinal. É sinal de que ando me perdendo de mim mesma. Isso é sinal de que estão conseguindo me domesticar e em breve estarei boazinha, sem uma palavra sequer.
Sinto falta das minhas curvas, das minhas idas e vindas. Sinto falta das letras que se juntavam sozinhas. Sinto falta de chuva de palavras que vinha, sem interrupção. Não tinha como deter. Hoje: estiagem. Não chove. E saio agora da cama, para fazer a dança da chuva e tentar de qualquer maneira trazer de volta enredos para histórias que continuo vendo. Tentar de qualquer maneira achar lugar para os personagens que continuo conhecendo. E divido aqui com você essa inquietação de não ser capaz.
Encontrei uma moça hoje que pouco me conhece, mas que me perguntou se ando bem. E eu respondi que por enquanto minhas pernas estão intactas. Ela riu, queria outra resposta, é claro. E achei bondoso o interesse dela, mas não tive como responder. O que se responde a uma pergunta dessas no elevador? Ando bem? Sim, uma perna após a outra.
E foi num dia de chuva que as palavras se foram. Choveu, elas foram embora, eu quase vi algumas escapando. Olhei de longe e vi elas indo em linhas, as mesmas linhas que costumavam me fazer companhia. Elas foram no dia de chuva. Não digo que me deixaram. Não, seguiram um caminho de palavras, e eu talvez tenha feito a escolha errada. Agora não é hora de desistir, estou mesmo ensaiando para pegar um a uma de volta. Mas sabe, tudo tem um preço, um preço que dói no peito e que até pode matar. Escolhe-se pagar. Eu quero minhas palavras de volta.

3 comentários:

Luci disse...

Acho que as palavras não se foram não. Foi apenas uma ilusão. Nao uma desilusão. Elas estão aí, contigo, imopregnadas. Nunca te abandonarão. São suas. Inteiras. É que há momentos em que somos tomados por uma cegueira e nao vemos nada. Mas tá tudo aí. Vc e as palavras sãum um único ser. sempre.

Bjo,

João Neto disse...

"Eu quero minhas palavras de volta." (Camilla Tebet)

Nessa hora vale tudo. Dança da chuva, ler dicionário, tomar um porre, assistir um bom filme, arrumar uma briga, amar... e sejamos honestos, para uma pessoa que consegue responder "minhas pernas estão intactas" sem pensar muito, o resto é fácil.

Narradora disse...

Elas nunca estiveram longe :)
Bjs