segunda-feira, 9 de junho de 2008

Medrosa


Foram apenas dois ou três dias de uma gripe louca. Alucinei, minha temperatura foi a mil, minha garganta fechou, meus olhos incharam. Tudo ficou feio e eu na cama. Pensando e sentindo dor. Sentindo dor e pensando. Pensando no medo que dá. Medo quando algo muito legal acontece, medo quando algo desagradável acontece.

Me disseram pessimista. Eu não sei o nome, sei que sempre espero sentir medo. E quando melhorei do resfriado fiquei com medo de sair ao sereno e ficar mal de novo. Fiquei com medo de ficar na cama e perder tempo de vida. Fiquei com medo de ler um livro e meus olhos doerem. Fique com medo, enfim.

Ele me acompanha, como um fantasminha que só eu vejo. Mas a imagem que passo é outra. Ninguém acredita muito que tenho medo. Sabe, tenho cara de coragem. Tenho cara de quem sabe trocar pneu, tenho cara de quem sabe brigar com o mecânico por um preço justo, tenho cara de quem não deixa ninguém passar na minha frente na fila. Tenho cara de quem não tem medo de nada.

Um dia disse ao meu companheiro à época que eu era a pessoa mais medrosa que ele poderia conhecer. Até medo de ir a banheiro de madrugada eu tenho. Não sei se ele acreditou, mas me deixou. Achou que estivesse com uma mulher mais corajosa. Quem quer uma mulher medrosa ao lado? Fui atrás dele e disse que entre os meus medos não estava o de perder um homem que tinha medo de viver com alguém com medo. Entendeu? Esse medo eu não tenho. Ele me deu um ok e continuou indo embora. Eu já era história.

Para um outro companheiro, disse que me desculpasse por tudo o que eu estava deixando faltar no nosso relacionamento. Ele também me deixou. Saber que faltam coisas, tudo bem, mas assumir essas faltas, não! Ele ficou com medo e foi-se. Fui atrás dele e disse que eu não tinha medo das faltas, que esperava descobri-las para preenchê-las com amor. Mas ele continuou indo.

A uma amiga eu disse que tinha medo de machucá-la e por isso estava me distanciando por um tempo. Ela se foi, também. Fui atrás dela e disse que não tenho medo de ser sincera e me preocupar com os sentimentos dos outros. Mas ela queria uma amiga ao lado, machucando-a ou não. E eu não sou assim. Ela continuou indo.

A um homem muito importante na minha vida, eu disse que tinha muito medo dele. Foi como se tivesse colocado um espelho à sua frente. Ele não aguentou. Se foi e eu nem consegui mais acha-lo para dizer que quando alguém nos causa medo é porque o amor não existe. Mas disse a mim mesma, e bastou para lidar com a perda.

E a mim, hoje, me olhando bem ao espelho digo que tenho medo de mais uma gripe, de ficar sem grana, de não conseguir escrever, de perder amigos queridos, de não dar conta de amar, tenho um monte de medos. Eu não fujo, não vou embora. E repito a mim mesma que são esses medos que fazem de mim o que sou. Medrosa.

9 comentários:

Clarissa Marinho disse...

Parabéns,Camila!Muito bem escrito o texto e muito bom de se ler!

Jaque Lima disse...

Sentir medo...dá medo!Pois é, ser gente grande não tem graça. Crianças são corajosas, não pensam muito no que pode acontecer, mas quando a gente cresce, percebe que tudo acontece o tempo todo, e sentimos medo. Perder, Deixar, Ter...tudo dá muito medo. Mas tudo vale a pena se mesmo com medo arriscarmos. Como um velho clichê diz" Coragem não é ausência de medo..."

grande bjo!

Carolina Sperb disse...

acredito que não exista problema em temer algo. o importante é saber como encará-lo. é estar disposto a enfrentá-lo, se for preciso. pessoas intensas têm medo. mas não fazem disso um motivo para fugir. aliás, a fuga é o pior dos medos. é o medo de tentar, de encarar, de ouvir, de falar. medo de tudo a sua volta... aí, o que resta é fugir, desaparecer, mudar de lugar... só que com isso, surgem novos medos e eles nunca param de aparecer. o medo está implícito em todos, é parte de todo homem.

beijos, querida...
texto demais.

ps.: lembrei de uma música quando li seu texto... lenine - miedo
é linda, vale a pena ouvir! :)

Anônimo disse...

e por medo de perder...a gente perde mais rápido ainda.
coragem amiga. é tudo o que posso te desejar.
coragem.
mariah

Camila disse...

Que blog mais lindo!
Adorei seu texto: "Eu não fujo, não vou embora. E repito a mim mesma que são esses medos que fazem de mim o que sou. Medrosa."
Uau... eu sempre finjo e fujo!
Queria ser corajosa para assumir que sou medrosa!
Beijo
=)

edson marques disse...

Camilla,

Belíssimo texto. Uma crônica nascida no período da cama, e deliciosa de ser lida.

Esse medo falsamente confessado talvez sirva de pretexto par afastar alguns. Assim como talvez a coragem, idem.



Abraços, flores, estrelas..

Nadja Reis disse...

Muito verdadeiro seu texto,Camila!Eu também sou assim,tenho muitos medos,da vida,de tudo!A grande questão é enfrentar o fato de que somos humanos e nossos medos são inerentes a nós mesmos!...Ah,e obrigada pelo comentário deixado no meu blog!Obrigada pelos conselhos! bjosss

Narradora disse...

Muito bom seu texto...
Gosto dessa construção, uma afirmação e logo uma explicação que afasta o que foi dito.
Conhecer os medos e não fugir deles... Uai, acho que isso é bravura.
Bjs

JOICE WORM disse...

Relaxe Camila. O medo só acontecesse se você pensar nele. Quando passar ao lado de um cão (medo), nem olhe para ele ignore o cão (medo) e vai ver que ele não te atingirá!!
Vá por mim. O pior é introspectar o futuro negro do que você nem sabe se vai acontecer... Deixe a vida rolar e se vier outra gripe com a nossa (que me deixou 2 semana entre a cama e à cozinha, bebendo chá...), aguenta! Mas não tenhas medo!Palavra de "pequeno milagre"! Beijinhosssss