terça-feira, 15 de julho de 2008

Carta à uma senhora louca

Cara senhora,
Espero que esta carta a encontre gozando de muita saúde e gozando do que mais a senhora achar interessante. Não leve minha linguagem à mal, nem me tomes por fanfarrona. Sou apenas uma moça honesta, que vos escreve com a intenção de mante-la informada dos fatos.
Comigo tudo vai indo bem, acho que posso dizer isso. Indo como esperávamos. Manhãs geladas, dias mornos e noites frias. Meus cabelos cresceram e eu cortei. Minhas unhas cresceram e eu cortei. Meu dinheiro acabou e eu cortei despesas. Meu saco encheu e eu desliguei os telefones.
Quanto ao trabalho, tudo caminhando para o dinheiro. E não é assim que deve ser? Pois é, não me importo mais com o verdadeiro, vou atrás do dinheiro. Tenho conseguido fechar bons negócios. Nada interessante, que valha a pena ser detalhado. Mas fique tranqüila que apesar de estar passando uma fase difícil, não tenho feito dívidas.
A minha saúde, ah, a minha saúde! Estou meio capengando. Dores aqui, cansaço ali, náusea acolá. Dores de cabeça que comprimidos vermelhos ajudam a passar. Dores nas mãos de tanto digitar. Dores nos joelhos de tanto tempo sentada. Dirá a senhora que é a idade? Não! Não sou tão velha assim. Acho que é o cansaço do vazio que ando vivendo mesmo.
Meu tempo anda curto, como há muito não era. E sinto que estou ocupando-o com coisas que não valem a letra. Mas como disse a senhora, é preciso ir atrás do dinheiro.
Ando meio sem amigos. Sim! Alguns tinham defeitos que eu não podia suportar. Tantos outros acharam que eu tinha defeitos que eles não podiam suportar. Outros que suporto, estão muito longe, em outro continente ou outra cidade, para as quais me encontro impossibilitada de ir.
Algumas amizades se mostraram inverídicas também. Nada sério como a senhora diz, mas não compensava leva-las para frente.
Para a senhora nada é sério, não é? Eu posso e devo passar por cima de tudo isso. Bem, na fé, ando fazendo o que a senhora me aconselhou.
Na minha família está tudo bem. Alguns ficando velhos de idade, outros velhos de cabeça. Uns se achegando, outros cada vez mais distantes. Mas têm as crianças agora. Não são minhas, mas parte de mim. E elas estão cada vez mais lindas. Esperança, sim, as crianças são a esperança.
Quanto ao meu coração, parece bater bem por enquanto. Uns palpites aqui, outros ali, mas no geral, tudo bem.
Mas se queres saber como ando de amores, vos digo: não ando. Estou mais sozinha do que jamais estive. Sozinha, sem amor. Sozinha de vontade de amar. Como bem disse um blogueiro esperto, o muro é muito alto e por enquanto só estou conseguindo sentar e olhar os tijolos que eu mesma coloquei ali.
Ando assim minha senhora, com um medo danado que a senhora volte para perto de mim. Por isso, atualizo-a da minha vida, para que mesmo de longe fiques sabendo como estou e não venha me assediar. Porque do jeito que me sinto, sou capaz de ceder.
Cordialmente e sem mais no momento.
Camilla Tebet

20 comentários:

Lu disse...

Não sei se ajuda, mas no grupo dos sozinhos, não está sozinha.

Enfim, belos textos (:

A Senhora disse...

"sou menina que conta os dias. que usa saia rodada e brinca de ciranda. acordei um dia e decidi: menina para sempre serei."

Pule do muro, rale o joelho, limpe-o com a mão suja de terra, corra atrás do moleque que lhe mostrou a lingua!

(e pensar que o meu nick é "a senhora"... acho que vou mudá-lo novamente!) :)

Calu Baroncelli disse...

num entendeu? Ótimo!
Nem tudo nessa vida é pra entender.
Spam tem algum sentido?

Calu Baroncelli disse...

ham... como achou o meu blog perdido nessa intérnetica doida e gigantesca?
bem, valeu porque descobri o teu.
Gostei desse post.
Posso ler todo o resto?
Caiu na rede... já sabe.

Dani disse...

A sra. é uma fanfarrona..

Aquela 'par', que virou ímpar. disse...

fabulouuuuuuuuuuuso! haha
bah ...
:)

Soraia disse...

P.S assino logo abaixo....retificou a carta à senhora...se fosse escrever uma carta à esta senhora,sabe de uma coisa?..seria mais ou menos assim...bem parecida...hehehe...o que dizer desta carta?Vc é demais Camila...adoro ler seus escritos...vc é demais menina...ou melhor,vc é na medida certa!Um beijo...estou de mal com o UOL....por isso sem vontade de atualizar...mas não poderia deixar de lhe visitar!Um beijo de boa semana!

Tiiinha disse...

Pois é Camiluxa...as vezes me supreendo,justamente por amar à sangue, que me tinge a roupa, que me assusto e e porque não, choro... a dor da cobraria!
Vou viajar.
E de quem posso me lembrar, se ninguém se lembra de mim?
Aqui perto tem uma padaria!

Germano disse...

Vida de dor, cansaço, trágica comédia é a vida!Aqui é a própria palavra clamando vida, e não o ser.

A transfiguração metalinguística.
E por trás aquela nossa coisa antiga de gostar da dor...

Abraços sinceros e de retorne-e-sejamos-sempre, Tebet.

Germano

Vivian disse...

...no poço da solidão encontramos força para trazer à tona todo conflito da alma...sinal de que ele não é de todo, mau...quanto a escrever para a D. Loucura, não é preciso, pois ela é sábia o bastante para entender o estrago que o viver trás...posto que sem ela não viveríamos um segundo por aqui...te amo, linda...obrigada por me fazer meditar fundo...gosto disso...muahhhh

Janaina Staciarini disse...

Camila, desculpa a demora para retribuir sua visita.
E eu lamento muuuito ter demorado. Adorei este espaço. Adorei o post que acabei de ler. O trecho do CFA, e a menina que conta os dias.
Parabéns.
:)
Voltarei. Sempre, sempre.

Thiago disse...

oi querida, obrigado pelo elogio, fico feliz que tenha gostado do post, que aliás é tão pequeno...
Quanto ao muro... não sei até onde vale a pena pular, sem saber se está segura do lado de fora da proteção dele... seja lá o que for que esteja querendo afastar, deve ter seus motivos. se resolver pular, pelo menos, leve uma lanterna, e vá cantando uma canção bonita; e deixe marcas, para quando precisar voltar, saber o caminho. se quiser companhia, ou abrigo, passa no meu castelo, sabe como me achar.

Confraria do Grito disse...

Talvez seja só uma fase. Talvez seja pra smepre. mas quase sempre depende mais de você, do que da velha louca.

VaneideDelmiro disse...

Sei lá, lembrei: "Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura" (Guimarães Rosa).
Pena não poder vir aqui com a freqüência que gostaria.
Fiquei pensando no que a Senhora Louca te responderia...

Meus cumprimentos!

Diego disse...

Cartas que distanciam. Tenho recebido algumas.

Anônimo disse...

Oi baby,
Aquilo não foi exatamente um post, foi um e-mail que enviei a uma amigo há dois anos. Ele vai muito bem, obrigado e eu continuo matando um dragão por dia.
Obrigado ;)
Jô (Cinema da Vida)

F. S. Júnior disse...

você fala de tanta coisa q eu nem sei por onde começar... mas nao posso deixar de comentar que, quando a gente deixa de acreditar, de ter os grandes ideais é quando a gente começa a ganhar dinheiro... estou na fase da desilusão... talvez em breve eu comece a ganhar dinheiro... rs

a outra coisa é... o muro alto... as vezes o muro alto é bom, pois os ladrões desistem de salt-a-lo pra assaltar-nos só por assaltar...

beijo

Lucinha disse...

Navegando encontrei seu blog. Post maravilhoso.. convido a vc ir me visitar tb..
"Somos todos viajantes pelas agruras do mundo, e o melhor que podemos achar em nossas viagens é um amigo(a)". um lindo final de semana.

Alexandre Henrique disse...

Belo texto, espero que a senhora goste das entrelinhas e não perturbe a matrix das letras, porque o relato parece sincero demais além de um mero entretenimento. Argumentos não faltaram, e como toda boa senhora gosta de criatividade... é verdade que nem sempre como passar tempo. Mas como o papo é sério , acho que colou.

Ella disse...

Camilla,
Entre amizades inverídicas e cefaleas tratadas com tylenol, quer jogar papo fora e fazer tricot de blogueira?
CB (rock), Ó (samba). Grazie (samba-rock) ou Jazz nos fundos?
Abraço!
PS. Também sou capricorniana e gosto de homem. Não é cantada, é só para bater papo mesmo.