terça-feira, 22 de julho de 2008

Uma parte da viagem que eu lembrei


- Podíamos beber muito hoje a noite, não é?
- Você é louca? Pra que?
- Para espairecer.
-Não.
Saí sozinha. Eu gosto de sair sozinha. Não sinto vergonha de um passo depois do outro ouvir apenas os barulhos dos meus pés. Sem vozes. Eu gosto. Sinto meu cabelo se movimentar, ponho a mão no bolso, a bolsa me carrega e saio sozinha sempre.
Ele não quis vir. Provavelmente vai ligar no meu celular imaginário mais tarde. Um celular que só ele acha que eu tenho. Porque todos que me conhecem sabem que eu sou contra celulares.
Fui pra primeira avenida iluminada que vi. Corro atrás de luzes. Como doida. Até de vaga-lume corro atrás. Preciso da iluminação boba da cidade pra me sentir viva às vezes. Preciso me sentir invisível. E ando como se fosse. Rio sozinha. Rio de quem me ri. Rio à toa.
Entrei num bar qualquer, não sei dizer o nome ou comentar sobre a freqüência. Pedi um whisky Não gosto muito de whisky, mas queria algo novo essa noite, a novidade líquida, em copos sólidos para uma mão fria e uma garganta seca. Virei o copo e pedi outro. Continuei sem ver ninguém, e na ilusão de ser invisível sou capaz de apostar que também não viram. Afinal eu estava tão leve, tão breve, tão aérea, tão feérica. Não me viram, é certo.
E o certo veio mesmo em líquido, como eu previa. Desceu correndo atrás do lá dentro. A bebida correu dentro de mim. Uma maratona de líquido. E lá dentro encontraram o que de mais escondidinho tem em mim. Eu mesma. Fizeram festa no meu estômago e correram pra o meu sangue. E eu, que apesar de invisível não sou insensível, senti tudo, tim tim por tim tim. Uma celebração sozinha de uma decisão que ainda nem chegou.
Sou assim, sempre quero bolo antes da festa, sempre choro antes do enterro e grito gol antes do jogo começar. Dias de silêncio sinalizam meu cansaço morto. Viva, faço barulho.
Na quarta dose tudo estava lindo. Aqui dentro, porque o bar eu não vi. Estava tudo tão claro, mais claro que a avenida. Eu disse que estava atrás de luzes. As encontrei aqui dentro, molhadas, mas luzes.
E todos os absurdos da vida choviam em meus pensamentos. Chuva forte. Não levei guarda-chuvas, me deixei molhar de absurdos e achei oportuno pensar sobre eles. Sobre as coisas que quebram quando eu esbarro. Caem no chão e vão pro lixo. Desaparecem. É assim, deixam de existir. Eu não gosto de coisas que deixam de existir. Se pudesse escolher queria que tudo continuasse existindo. Perto de mim, correndo o risco de quebrar, mas existindo. Assim o cuidado não seria tão necessário.
É muito difícil tomar cuidado. É muito difícil ser cuidadosa. Eu prezo, mas esbarro. E aí, sem culpa, é sem querer. Mas nesses sem quereres as coisas deixam de existir. Um absurdo.
E tem coisas que eu nem tenho pra quebrar. E vivo quebrando a existência delas. Destruindo idéias. Dizem que é por isso que eu nunca as consigo. Não acredito nisso. Não as tenho. Não tenho! E quanto mais eu acreditar em ter mais longe fico delas. Então uso as lembranças. Elas vêm com música. Toca a música e eu comemoro o que tive. Fecho os olhos e deixo o filme passar. Sem trailler, sem pipoca, sem fim, memórias de vida livre, sem bilhete de entrada. Lembro. E dizem que quem tem memória tem sempre história pra contar. Nisso eu acredito. Mas não conto histórias. Lembro. De abraços bêbados, de noites tão frias que os pés mal se mexiam. Lembro de doses duplas. Lembro de não entender a língua que não era minha. Lembro de sorrir largo e quente, de bebida e de embevecimento do novo. Ah, lembro. E só precisava estar lá, com a minha bota de viagens longas.
A cama era tão pequena que o amor ficava fácil. O quarto era tão bagunçado, que rir era comum. Os dias eram tão surreais que aceita-los não pedia esforço. Fácil! Era fácil, e eu lembro muito bem. E não tem análise que me convença do contrário, já que fui eu quem estive lá.
Não suporto pessoas que querem mexer nas minhas lembranças. Lembrança pressupõe ter vivido a coisa. E se as lembranças são minhas, eu as vivi. Tem poeta que diz se lembrar do que não viveu! Caro amigo, você pode ter sonhado, ansiado viver, mas não viveu. Lembrança é de fato ocorrido. Faça ocorrer. Nessa formalidade de ocorrência, eu prezo as minhas.
Às vezes sou formal de tão educada. Não vejo porque não sorrir para as pessoas. Não vejo porque não ser agradável e estender a mão. Não vejo porque. E assim sento no banco da praça e como pomba boba distribuo sorrisos que parecem sujeira. E eu continuo sorrindo. Até que, como criança, embirro e vou pra casa chorando. As tais coisas que não tenho. É delas que falo agora, pois a música acabou.
Uma época trabalhei numa ótica, há muito. E não tinha muita função a não ser sorrir. Me xingaram, eu pedi demissão e fui lavar pratos e sorrir com os faxineiros. Faz tempo. Era um tempo quando eu não pensava no que tinha que fazer. Eu apenas fazia. E era feliz. Eu tinha profissão. Mas não ligava. Nem missão, nem carreira, nem poupança. Vivia de hojes. Transportes públicos me carregavam nos braços da gentileza da cidade que eu morava. Era uma cidade gentil comigo e eu com ela. A coisa da troca.
É a música de lembrar voltou. E eu lembrei de braços dados. De beijos dados. De um tempo que acordar junto era motivo para dormir mais. De um tempo em que uma vela e uma garrafa eram decoração. Do tempo em que numa janela passava o filme do mundo. E eu assistia com ele. De mãos dadas.
Não dou mais as mãos. Ando sozinha, como sai hoje à noite. Sozinha. E bebo sozinha. Porque o que tenho, o que não tenho, o que existe, o que não existe mais, nada disso me faz companhia.

28 comentários:

Anônimo disse...

You, always you.....Sempre se superando. Como v. consegue???
Quem te conhece te sabe nas entrelinhas.
Don't ever change e a felicidade tbém veste verde amarelo. Acredite.
Miriam

Tarjha disse...

nossa que texto forte!
amei!
independência,
não-celulares,
whisky como eu amo whisky...

Parabéns!
eu tbm bebo sozinha, tbm vivo sozinha!

o que não me agrega eu descarto!

Anônimo disse...

eu tb sei o que é ter a solidão como companhia mas aprendi a dar um tô nem ai pra realidade e vou dormir mais cedo quando eu vejo que o bicho vai pegar. Sucesso e muita inspiração para vc, escritora sensível e das melhores.Beautiful!Beijinhos da Malu

Diego disse...

A velha máxima: Antes só que mal acompanhado.

Alexandre Henrique disse...

Domínio é libertar a pureza que temos dentro de si. É ter fluidez quando percorremos as memórias, por ter vivido elas tão bem, por termos consumido o calor delas emanado, no tempo correto, porém sem perder a fluidez de percorrer os fatos, o saber de ir e voltar, sem ressentimentos. É o texto revela aqui. ¨A bolsa me carrega e saio sozinha sempre.¨ Esta frase me tirou um sorriso enorme shshhs :) Poxa é bem verdade, é difícil encontrar coisas com raízes fortes, ¨ o sem querer, mata tudo¨.
Esta parte de um viagem, é uma bela idéia própria, sem duvidas, seja ela existente ou não.
Você a escreveu com domínio.


Ps: Estou perpelxo com o seu elogio, muito obrigado.

Alice disse...

Camilla,

Me bateu uma vontade de beber e cair ou então chorar de tão bêbada. Vc nem imagina. Esse texto aí é a gente. Gente da máquina moderna, vivendo e lembrando e memória é vinho do melhor tipo. Eu lembro e não tenho medo. Lembrar é bom, errar tb, eu acho. Não sei se vc ou personagem fizeram esse passeio literário, mas que foi bom de ler foi.

"É muito difícil tomar cuidado."

(Camilla Tebet)

Frase que levo pra onde eu for. Verdade sem fim.

Bjs...

Daniel disse...

Não há melhor amigo nosso que nós mesmos! Também bebo só. Tenho essa lado egoista, que me faz ser autruísta (paradoxa? É, eu sei!). Também concordo que só há lembraça daquilo que se viveu, nos mais, é só versos ao leu. Te add no meu blog. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

Assim que sou disse...

Camilla,

Eu pessoalmente acho que tudo é muito difícil. Inclusive ser infeliz, estar infeliz. Estar ocm o mundo à minha volta é difícil; estar sozinha também. Ser feliz é difícil, estar feliz também. Enquanto te escrevo ouço a versão do Smile, do Chaplin, cantada pelo Djavan. "Ao notar que tu sorri, todo mundo irá supor que és feliz". Essa é a grande magia. Ser capaz de sermos tudo, inclusive personagens dessa aventura que é enfrentar a dificuldade de viver.

Hoje, particularmente para mim, foi duro te ler. Mas bom, como sempre. bjs. Veronica

israel disse...

a solidão, ela nos faz mais forte e mais humanos, e pra mim ela e sempre uma otima companhia!!

belo texto moça e obrigado pelos comentarios!!

bjos!!

Mariah disse...

eu também adoro "estar" sozinha...e muitas vezes é tão difícil as pessoas entenderem isso. adoro beber sozinha, sai sozinha, ir ao cinema, teatro, motel (é, até motel)...e tantas outras coisas que gosto de fazer "sozinha".

fiquei até com inveja da liberdade que o teu texto espressa.

parabéns e VIVA A SOLIDÃO!

beijos
mariah

Dani disse...

Eu a-do-ro sair sozinha.

A Senhora disse...

Saber transmitir a solidão doída é privilégio de poucos. Você é fantástica!

Germano Xavier disse...

Tebet arruinando os que sonham apenas, a duras penas. tebet dilacerando seu próprio peito e rasgando outros mil. Tebet maquinando a extinção do tempo e acabando por construi-lo.

Gostoso como uma dose d'absinto.
Abraço forte.
Germano

Jaque Lima disse...

Pois é mesmo díficil tomar cuidado. ser cuidadosa. e a gente sempre acaba perdendo as coisas. vc interpretou a solidão para um mundo só. que não sabia o que dizer.
parabens...belíssimo texto!!!
adorooo!!!

bjooo

Vivian disse...

...olá minha linda! texto maravilhoso de sentir...quando damos asas a solidão, deixamos de estar sós para então encantar corações, e você...ai,ai...você é fantástica nisso...que Deus me permita jamais lhe perder de vista...você faz parte de uma parte vital em mim...o exercício da emoção...te AMO, linda menina das letras bem colocadas...muahhhhhhh

Aquela 'par', que virou ímpar. disse...

se eu te disser que sempre saía sozinha e agora não tenho mais coragem. que que tu me diz?
tá foda.

gostei :)

Clarissa Marinho disse...

Caramba,as vezes venho aqui e te leio e me vejo tanto nos teus textos que penso que poderíamos ser irmãs,ou que somos amigas há muito e eu te contei de mim e isso de alguma forma pareceu com o que vc sentia,e vc colocou aqui tb!hehehe
Esse é o poder das palavras,quando bem escritas e fundas,feito teus textos.Parabéns!
=)

Bruno disse...

A primeira coisa que veio a mente quando li o post foi "é uma andarilha também, só muda a paisagem. A dela é urbana". Mas como disse, foi a primeira coisa que pensei. A segunda, terceira e quarta vieram À medida que seguia os passos dela pela noite, invisível mas em busca de luz, até que meus pensamentos se perderam no último gole do whisky. Esse bar me lembrou o bar do meu post "Heimdall"... enfim, em algum ponto todas as almas se encontram, não é?
Bjo!

Narradora disse...

Texto forte, isso já identifico como marca sua.
Vejo nele duas coisas diferentes. Por um lado, a segurança de ser inteira, não importa se sozinha - o que é uma senhora conquista.
De outro, uma falta, uma perda doída...
E eu que não gosto mesmo de whisky, solidária, brindo com vinho e bebo sozinha aqui.
Bjs

Thiago disse...

assim são os dias felizes, quando se é apenas feliz. quando pensamos muito, ficamos preocupados, apreensivos, tristes, ansiosos... quando sorrimos, simplesmente sorrimos, esquecendo o ontem, o amanhã, e o daqui a pouco, somos, momentaneamente felizes. é a felicidade no seu estado mais puro, o ser feliz pelo fato de está vivo. como diz no livro "o encontro marcado" de fernando sabinno, "não analiza não..." é a melhor filosofia.

F. Reoli disse...

Oi linda, pode comentar na caixa de comentários sim, deixei ela lá para os textos... aquele muralzinho do lado é só pra ter a possibilidade de falar on line com vocês quando eu estiver no blog ou para algum recadinho rápido, ok? rs
beijos

Niaranjan disse...

texto interessante...
vai ser legal bater uns papos por aqui...
Niaranjan "THE E.D.E"

Pia Fraus disse...

Muito bom... se deixar, colocarei qualquer dia desses no meu blog. Deve ser lido por muitos. Isso, a meu ver, é literatura.

bjo

G. disse...

G. tocada.

Luci disse...

Tô aqui, calada.
Li, li, parei, li de novo, senti. E reli. E continuei calada: de pensamento, de sentimento. Mexeu comigo de um jeito novo. E mais, senti muito você, desnudada. Muito mesmo!
Vc tá melhor q nunca! Muito!!!!

Bjo!

Lu

Carolina Sperb disse...

minha querida, ando tão longe de tudo isso..
desculpe-me.
lindo seu texto, adorei.
logo estou voltando pra Bauru, minha vida com rotina ou uma tentativa de rotina hehe mas com as minhas coisinhas.
aí eu volto pro meu mundo virtual, minhas loucuras escritas...

saudades de você, gata.
cuide-se

beijos

F. Reoli disse...

Aguardando um outro lampejo de inspiração teu, em meio aos arabescos da fumaça do cigarro... beijo!

Adriano Caroso disse...

"De um tempo que acordar junto era motivo para dormir mais." Fantástico. Como todo o texto. Eu amei o seu blog. Ficarei freguês como diz o baiano!