terça-feira, 29 de julho de 2008

Com leite


Todas as noites eu vinha pondo leite na canequinha no chão. Manhã seguinte, o leite ainda lá. Jogava fora e ia viver. Afinal, jurei que viveria. Fiz uma promessa que deixaria a vida acontecer. As horas do dia passavam, assim como passam.
Noite. Voltava para casa, exausta de viver e punha o leite na canequinha.
Manhã seguinte adivinha? O leite estava lá. Estava me cansando disso. Era como se o pouco feito fora da vida jurada e prometida não tivesse valor. Ele não vinha miar ou beber. Talvez estivesse vivendo também. Talvez no início de ser gato tivesse prometido deixar a vida acontecer e não tivesse tempo para tomar o leite que eu oferecia.
Essa semana acordei gata. Subi no telhado, atrás dele. Psss, psss. Não encontrei além de telhas e folhas que são casas de parasitas sujos. Pulei do telhado, esperando quebrar a perna e poder viver um pouco menos a vida prometida. Mas aquele era meu dia gata. Não quebrei pernas. E lá fui eu para a vida de balões. De onde se vê o mundo de longe. De onde uma árvore é tão pequena que cheguei a duvidar que existisse.
Vida de assentos. Pousos calmos, noites sem chuva e pipas sem linha. Fui lá viver. Ontem à noite quando coloquei o leite na caneca, me lembrei: eu não tenho gato.

Foto de
mehmeturgut - deviantart

25 comentários:

Janaina Staciarini disse...

Ai. Amei isso.
Adorei sua vida de gata. E o leite pro não-gato.
Gostei muito mesmo, Camilla. E a imagem... ai ai. Tudo.
Um beeeeeeijo.

israel disse...

otimo texto..

essa vida de gato vira lata avai acabar comigo qualquer dia desses..
acho q vou ai tomar um pouco desse leite que deixaram...

bjos!

Mariah disse...

não ofereça seu "leite" a um "gato" que não te mereça. os gatos são bichos traiçoeiros...não se apegam ao dono...buscam novos telhados, são ligeiros e silenciosos...perigosamente sedutores.
compre um "cão" e nunca mais deixe seu "quintal" ser invadido por nenhum "gato" mau caráter.

beijos
adorei
mariah

F. S. Júnior disse...

gostei muito disto me lembrou... certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa... Kafkaniano... o tédio transformando-nos em bichos, insetos...

Ana Raquel =] disse...

Oie querida, vim conhecer seu outro lar! Tudo lindo, seus textos maravilhosos, parabéns! E qt ao gato, vc quer um?rs Bjooooooooooo

Germano Xavier disse...

Tebet,

cuidado, minha amiga.
É sinal forte de alguma coisa.
Vá com calma, não desperdice tanto leite. Sugiro uma tampinha de garrafa pet.

Abraço forte e obrigado péla visita "comedora" de textos lá no Clube.

Sempre por aqui.
Germano

Adriano Caroso disse...

Eu estava realmente devendo esta visita. Mas estou em pausa, não sei se vc leu sobre isso. Tenho andado pouco por aqui. Grata surpresa. Já faz parte dos meus favoritos. Grande blog. Parabéns!

Ella disse...

Poesia em prosa.
Bonito... bonito...

Diego disse...

Esqueça o gato, e continue a ver além.

Rui Caetano disse...

Mas que texto, gostei.

Assim que sou disse...

Me preparo para o comentário e bem ao lado leio o texto sobre a loucura. Curioso: tinha pensado em alguma analogia sobre os delírios realizáveis ou não que atravessam o nosso caminho. E aí leio: "A loucura é muitas vezes mentira pra quem vê, mas nunca pra quem sente". É isso: coloque leite pros gatos que não virão porque, um dia, eles virão mesmo sem o leite. Afinal, " a loucura é linda, mesmo quando as folhas caem".
Adorei o seu comentário no meu blog. bjs. Veronica

Clarissa Marinho disse...

Que texto bonito!Cheio de imagens poéticas,de uma tristezazinha blues,de uma vontade de viver intensa,louca(sendo loucura uma adjetivo aqui,e não um pejorativo hehe).Pois vá viver,de balões ou sem,a pé,de carro,de onibus,de carona,mas vá e traga sempre esses textos que são impossíveis de se ler sem sentir.
bjos!

deminina disse...

achei fantástica a foto
o texto é maravilhoso também
mas eu sou mais...visual
e esse aqui ficou perfeito
kisses
di

Jaque Lima disse...

Viver. uma vida de gata. uma vida de gente. uma vida de mulher. que agloba todas essas coisas com um toque a mais. você não tem gato. mas quem sabe uma janela aberta não faça com que um gato vira-lata encontre o leite. e permaneça!
bjooo

Elenilson Nascimento disse...

Olá, estou aqui para convidá-lo a conhecer a LITERATURA CLANDESTINA:
http://literaturaclandestina.blogspot.com/
Conto com a sua presença por lá . Um abraço Elenilson

Thiago disse...

seu texto me lembrou que meu gato está gordo feito um porco. Adoro ele, me faz companhia, e quando tô chateado, ele aparece do nada, faz algo extremamente idiota, começa a miar e me faz rir..

Friendlyone disse...

Talvez o leite fosse pra ela mesma! Era...?

Minina disse...

ela me parece estar se afogando no próprio leite!

depois d morta, nem gato, nem caneca, nem leite.


do caralho o texto! mto massa mesmo! a maneira como vc colocou a situação repetitiva, a criação: a ilusão dentro da rotina. massa como vc fez isso.

direitinho aqele lance: qdo a gente tah morto na rotina, fica qerendo ressuscitar com qualquer gato que se esfrega nas pernas. criamos todo o ambiente para os gatos sorrateiros. só q acabamos afogadas no pote d leite q colocamos pra eles...

massa, camila, mto massa mesmo! adorei, com todas as letras...

nem vou falar mais nada, señ vou esticar o pleonasmo q jah tah prá lá d exacerbado!! ehehehe


bjão!

A Senhora disse...

Adorei quando ela resolve ser gata, sobe e vê o mundo a sua volta. Era como o mistério, definitivamente, tivesse se resolvido - como um gato poderia ter dono com tanta coisa a explorar?

beijinhos

vimaguin disse...

...no decorrer de toda uma vida, quantas "canequinhas" de leite colocamos na intenção de alimentar não "gatos" sorrateiros, mas sim nossas próprias carências, sem darmos conta que em cada portão, há tbm a mesma coisa a nos esperar...amo você, menina das letras inspiradas...muahhhhhh

Aquela 'par', que virou ímpar. disse...

ora ... heheeheh
:)

gab disse...

oe

gosto daqui.
coloquei na minha beirada.

=)

edson marques disse...

Mesmo não tendo gato, às vezes pode ser bom colocarmos o leite na canequinha: um gato pode aparecer, ocasionalmente...



Abraços, flores, estrelas.

Alexandre Henrique disse...

Não tem gato, mas têm amor, e ainda mais tem ar, e ainda mais sabe pousar. E, além disto, não tem medo, arrisca, pula, generosa doa ao amor, doa um pouco da vida que escolheu deixá-la acontecer, perplexa, descobre as semelhanças e as oposições dos encontros, mesmo assim destemida continua a ter a mesma paixão pela vida. Telhados realmente acumulam folhas e parasitas, isso é coisa que só bicho gato enxerga, voar é necessário, enxergar as árvores de longe pequeninas, menores do que parecem.
Sabe que eu acho. Gatos não gostam de leite, em dias sem chuva. Devem gostar de carne ou atum. O que é uma pena.
Um dos melhores textos que li aqui.

Alice disse...

Também não tenho gato. Tenho uns livros, uma porrada de caixa de incenso e quando volto pra casa, acendo um e fico melhor. Todo dia faço essa terapia.

Texto que fala de dias iguais sem ser igual e sendo sempre Camilla em rebelião. Adoro.