sábado, 2 de agosto de 2008

ESTOU DE MUDANÇA


Num silêncio mortal disse a todos que não suportava mais. Teria que ceder aos meus gritos noturnos e me mudar. Mudar-me para o mato. Para onde as árvores falam, quando quero ouvi-las, para onde as galinhas elocubram, quando tenho paciência, para onde os pássaros me acordam, nos dias em que acordo. Num silêncio lancinante disse a todos que basta! Para mim aqui não dá mais. Estou de mudança para onde o rio corre e eu ando, para onde as flores crescem e eu padeço, para onde os sapos aparecem e eu chovo. Num silêncio provocativo disse a todos que não suporto mais. Tenho que mudar para o mato da mata, onde se não mato, morro. Para o mato das frutas, onde me alimentarei de amarelo manga. Num silêncio filho da puta me rendi e disse a todos que não fui feita para nada disso. Que a chuva um dia me pega e meu pulmão cheio de fumaça não vai resistir. Num silêncio compartilhado com todos disse que preciso ir sozinha, já que minhas lembranças tão retangulares me acompanham nas linhas retas que escrevo palavras tortas. Jurei a todos que vou bem. De mala de pano, carro quebrado e carta vencida. Com seriedade de uma menina moça disse a todos que desisto de tudo isso aqui. Riram de mim, como quem ri de loucuras. Riram de mim, como se a ajuda estivesse às minhas mãos. Mas não importa, eu encontrei uma arara na feira do bairro e vou levá-la comigo. Capaz de eu me ambientar antes que ela. Seria engraçado levar uma arara para uma chácara e acabar matando-a. Seria engraçado. Mas é isso, quero viver a parte engraçada da vida. Quero rir de todas as minhas dores. Não quero mais ninguém as lendo. Não quero mais feedback. Quero ir. E vou amanha de manhã. Assim que acordar de todos os chás que tomei estarei pronta para partir.
Não vou me despedir. Despedidas são mentiras. Alguns amigos são mentiras . Alguns amores não existem. Eles subexistem de palavras vazias, de discursos já prontos e de necessidades alheias de dizer te amo. Cansei de tudo isso. Quero a vida de verdade. Quero o que posso ter sozinha. Quero minha arara e o que mais eu encontrar por lá. Vou só. E não tenho ainda onde ficar. Devo bater na porta de alguém. Alguém que tem um teto que pode abrigar loucura.
-Ola meu senhor, tem lugar para mim ai?
- Tem sim, moça, mas a casa é simples.
- Que bom, pois minha vida não é. Posso ocupar o seu espaço com você. Te ajudo a plantar e colher já será um problema seu.
-Não entendi bem o que quer moça, mas se precisa de um lugar para dormir e comer, pode ser aqui mesmo.
- Com licença vou entrando. Vou entrar na casa estranha, de pau a pique e vou colocar minha mala de tecido Vou contar para ele que tenho uma arara no carro. Vou fazer um montinho com as minhas roupas no chão mesmo. E vou deitar numa cama com cheiro de terra batida. Vou me sentir bem, sem pedir desculpas. Vou ocupar o lugar com ele até sair dali para outro espaço. Nos dias em que me sentir bem, vou acordar cedo e tirar leite da vaca. Odeio leite. Mas tenho que me alimentar. Tenho me alimentado mal, de coisas que não engordam, alimentam com a preocupação estética. Alimentam meu cérebro de sossego e meu corpo de ausência. Então vou tomar leite de vaca. Vou comer o queijo que esse senhor deve preparar. Vou passar os dias descalço, machucando meus pés da cidade no mato em que vou viver. Vou mexer com bichos e quem disse que não vou abraçar uma árvore? Vou sim. Abraçar, dizer que a amo e que estarei sempre perto dela. Ela não espera ouvir nada de mim. Não vai se decepcionar. A noite vai chegar anunciada pelo ventinho frio que vai bater nessa pequena chácara que não é minha. Vou procurar uma roupa mais quente e uma bota e sentar na cadeira ao lado desse senhor e acender um cigarro de palha. Vou fumar sem me preocupar com o meu pulmão, como já não me preocupo agora. Umas nove da noite ele vai fechar a janela do quarto dele e eu vou dormir com a minha aberta. A arara já fugiu. Deixei ela solta e ela não sabe de nada, arara burra. Só porque é arara não precisa ser inteligente. Ele é poligâmica e burra. - Deixa a arara fugir moço, de onde veio essa vem muitas mais. É na feira lá perto de casa, onde a comprei numa gaiola. Mas não comprei para prendê-la mais não. Deixa ela procurar o caminho dela como estou procurando o meu. Deixa ela moço, deixe-a ser feliz. Se é que arara é feliz. Vou dormir um sono limpo, de ar puro. Mas vou continuar com meus pesadelos de ar sujo. Vou relaxar até os pássaros começarem a cantar. Ai vou me levantar e colocar o mínimo de roupa possível. Vou caminhar e procurar uma cachoeira para me banhar. A caminhada tinha que ser longa, eu sabia. Recusei ajuda para acha-la agora me perder ficou mais divertido do que achá-la. Pode ser que por aqui tenha cobra. É muito provável que tenha. Dessas que picam e matam imediatamente. Cobras de verdade.
Mas não estou com medo. Estou completamente sem medo. Estou aberta ao tempo. E que ele dure o quanto tiver que durar. Vi a cachoeira. É grande e os respingos que chegam até mim são gelados. Exatamente isso que eu estava precisando. Um grande banho de água gelada. Pulo nua na piscina que se forma embaixo da cachoeira. A água é turva, nada de azul. Vou caminhando para debaixo do chuveiro que a cachoeira faz e deixo toda a água cair nas minhas costas e na minha cabeça. Só quero me molhar. Te peguei hã? Pensou que eu quisesse lavar-me de um monte de coisas. Não seja tolo, não conseguiria fazer isso nessa cachoeira. E não tenho nenhuma expectativa que essa nova vida me lave da antiga. É apenas mais uma vida. Uma vida mais simples. Nado até meus braços não agüentarem mais, mergulho a cabeça e deixo meu cabelo se espalhar pela água,ficar grande mesmo. Uma delícia a água e eu. Sempre uma delícia esse contato.
Um dia me disseram que o mundo vai acabar em água. Ficarei feliz de morrer nadando e depois afogada. Pior se o mundo fosse acabar em fogo. Estou com frio, melhor voltar para a casa onde estou ficando. Não me perdi no caminho de volta. Sou assim, depois que faço uma coisa uma vez, está feito, aprendo e posso repetir. Chego à casa simples, do homem simples e ele preparou um peixe com batata colhida ali para comermos. Gentil esse homem, ele nem me conhece e não paguei nada para estar ali. Sentamos à mesa, que é feita de caixas de frutas e no chão. O peixe está uma delícia, a batata, com casca e tudo tá com gostinho de queimado, de quem deixou passar o tempo. Uma delícia. O homem quer conversar, fez esse jantar porque quer conversar:
- Por que a senhora está aqui?
- Não sei, mas isso é importante para o senhor?
- Não, mas deveria ser pra senhora.
-Estou disposta a pagar pela minha estadia. Mas gostaria de ficar mais uns dias se fosse possível.
- Pode sim moça, mas não precisa pagar nada não! É um prazer recebe-la.
Que coisa estranha, esse homem não me conhece e tem prazer em me receber. A vida funciona mesmo mais ou menos assim. As pessoas que tem curiosidade em nos conhecer tem o prazer de nos receber. As pessoas que já nos conhecem, nem tanto. E eu não vou voltar para trás. Não volto para onde me conhecem. Para onde tudo está tão confuso que minha cabeça dói, meus pensamentos paralizam e eu fico sem ação, com cara de boba na frente dos outros. Ficarei por aqui até que um protomutante venha me buscar.
Publiquei esse texto no meu outro blog http://www.essepapo.nafoto.net/ há uns meses atrás. Mas trago ele pra cá! Não sei porque, acho que o lugar dele é aqui.

19 comentários:

Dauri Batisti disse...

....... É. O lugar dele é aqui, como o lugar do ser humano é o lugar do contato com a natureza, com ostros seres.

Dauri Batisti disse...

quis dizer com outros seres.

Anderson Cádor disse...

Tebet,

se tiver uma vaguinha, me leva!
Cada dia a coisa piora para o nosso lado. Vida de concreto, dias de concreto, sem vida, sem nada.

Um dia compro uma casa no mato e levo meu amor.

Abraço forte.
Cádor

Alexandre Henrique disse...

¨Tenho que mudar para o mato da mata, onde se não mato, morro.¨ Desconstrução plena, até o interior de si mesma, até o mais simples contacto humano, seguindo a fluidez da água que é o próprio si mesmo, seguindo o rio. É triste, que mesmo longe, livre em um torpor de sensações com a natureza pura ¨do mato da mata¨, nossos mecanismos de defesa, nossa lógica e toda fluidez de nossa alma ainda continue com os mesmos esquemas de antes, é como se alguém tivesse moldado a água.No fundo somos araras engaioladas vendidas em feira, e o pior as barras são feitas com pedaços de nossas almas, e com as outras coisas que usam contra nossa própria natureza. Espero que a cápsula frágil que este texto gerou mantenha-se até reorganizar a forma de sentir e pensar da personagem, pois é angustiante pensar na possibilidade de uma protomutante, ir ao seu encontro, aliais o que é bem possível.

Vivian disse...

...juro por Deus que eu vejo a Clarice em você!...bjs extasiados me sua alma linda!...muahhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Gabriela .-. disse...

"Juro por Deus que vejo a Clarice em você!"²

gostei, posso linkar?

Daniel disse...

Tem vaguinha aí numa mala qualquer sua? A vida das capitais anda cada dia mais enlouquecedora. Um bju e boa semana.

http://so-pensando.blogspot.com

instantes e momentos disse...

Post bom de ler, e pensar.Gostei daqui.Tudo muito bom.
Maurizio

F. Reoli disse...

Fez muito bem em traze-lo pra cá... as vezes me sinto esse anfitrião, cujo sorriso vem exatamente de personagens não conhecidose que me bate a porta, e onde a fome da alma e a sede da solidão acaba por se saciar...
Beijos

Calu Baroncelli disse...

Oi Camila
esse texto me lembrou algo que escrevi recentemente no meu blog!
Anseios de cora�es que n�o s�o de concreto.

Vou te linkar no meu blog.
beijos

Narradora disse...

Lembro dele do outro blog.
Bom de ler.
Bjs

Carolina Sperb disse...

muitas vezes encontramos o conforto nos olhos do desconhecido. deixamos de lado quem nos sabe de cor e queremos ser um mistério para alguém. porém, a presença fala mais do que nos mesmos. nos define perfeitamente. quando falamos de nós, falamos do que seremos ser ou do que na nossa visão somos. e quem está ao nosso redor cria uma espectativa por algo que não é nosso. quando deixamos o corpo falar, quando nos deixamos descobrir, enfim somos verdadeiros. porque não há medo das decepções, dos fracassos, das tristezas...
não volte.
fique aí, no mesmo lugar.
até ter voltar de se calar e se descobrir de novo...

beijos, minha querida! :)
voltei, enfim!

Diego disse...

Basta sair e procurar para descobrir que há muito mais ao nosso redor.

Janaina Staciarini disse...

Sempre lindo, Camilla. Este é especial, demais.
:)

Confraria do Grito disse...

O mais interessante é que a vida é assim, constituída de várias vidas.

Bjo

Assim que sou disse...

Se tem uma coisa que me atrai nesse mundo de textos de gente que não conheço é justamente a idéia de,em não conhecendo, me permitir um mundo de interpretações. Li o teu texto duas vezes e em cada uma delas imaginei situações e explicações completamente diferentes. Porque eu gosto mesmo de explicar e racionalizar a ficção. E cada vez que te leio, tento de imaginar - ficcional e racionalmente. É bom constatar que nunca consigo.

bjs. Veronica

Anderson Cádor disse...

Sim, Tebet!
Sim...

Thiago disse...

não tava afim de me mudar, até ler esse texto. quero ir pra esse mato também. Onde vc vai ficar, cabe mais um??
Amei o texto. Senti o cheiro do mato enquanto lia. Parabéns querida, por ter o dom de trazer o mato até mim.

Alice disse...

Eu tô sempre querendo me mudar. Vejo essas cidades que não chegam a ser cidades. Perdidas nas estradas e queria ficar lá. Uma total desconhecida e talvez, eu limpe meus pulmões também.

Camilla,

Me sinto como você escrevendo. Sempre querendo o dia completo.

"Sou assim, depois que faço uma coisa uma vez, está feito, aprendo e posso repetir."

(Camilla Tebet)

Bjs.