quinta-feira, 4 de setembro de 2008


- Já nem brigo mais de amor porque o coração já se foi, todo!
- Então agora briga o que?
-Brigo nada não, por que estar aqui já está me custando a alma. A vida custa a alma e a cada golpe um grito surdo de dor e sangue.
- O corpo infla?
- Como você sabe? Infla sim. Infla de um ar quem não é puro, de uma presença que não é legítima. Uma invasão despudorada e agressiva de uma dose de dor redonda e infinita, naquele em formato de oito deitado, conhece?
- Sim, é o símbolo do infinito.
- É! As manchas agora são negras e vermelhas. E desconfiam que o vermelho é sangue, mas eu não confesso. Se precisar vou até me negar a falar.
- Você pensa que esconder-se adianta de algo? Não. Damos passos internos e enveredamos caminhos tortos, sempre com a mente em faísca. Você deveria morar num lugar com jardim.
- Sempre achei isso também, Já hoje tenho medo de jardim espaço aberto coisa respirando perto de mim. Já hoje tenho medo até de respirar
- Mas você sempre disse que queria sossego.
- É! Sei. O sossego não se mexe e o que é parado é perigoso. Tenho medo de necrosar, ter que amputar. Isso definitivo de não ter mais cura.
- Não precisa pensar assim. Uma benção depois de outra e de outra.
- Que benção que nada! Ninguém abençoa, isso é ciclovia de pensamento. Pouco espaço no chão e por isso deixa o rastro fininho que se perde em pouco tempo.
- Credo, você diz cada coisa.
- Você não sabe o que eu sonho. São tantas as cores e tantos caminhos que percorro que duvido que minhas pernas podem fazer aquilo. Mas disso nem te conto, você não merece. Merece sossego.
- E quantas cores você acha que têm os meus sonhos?
- Não sei, sou egoísta, falo apenas de mim, achando que o importante é aquele que me entende. Que significativo é aquilo que me espelha.
- Juras que pensa isso?
- No fundo não. No fundo um dia sei que não é nada disso. Mas agora não consigo mais escrever.

9 comentários:

alua.estrelas disse...

Quantas cores tem seus sonhos??? Nossa, poder percorrer todas as tonalidades mesmo sem saber dar conta delas, sem imaginar que suas pernas darão conta de tantos passos... Que delícia essa viagem. Adorei cada palavra.
Vc sempre fantástica, né!

Beijo carinhoso e ótimo final de semana... Com muitas cores...

Ana Cláudia Zumpano disse...

Camilla,
obrigada pela presença no Delicada & Arredia... me perdi aqui lendo teus escritos, sem internet fica difícil ler sempre, mas sempre q posso eu leio, mesmo sem comentar. Adoro seus escritos... adorei a confusão interna de pensamentos, é como se vc conversasse com vc mesma, uma conversa de egos, de duas Camillas... mas o coração volta, a alma vai se encher de alegria e as cores vão se multiplicar logo logo... vc vai ver!!!
bjo carinhoso... Ana.

vimaguin disse...

...no fundo no fundo, a mim não resta mais dúvida alguma: Clarice deixou um legado que se perpetuará em Camillas, e Illas, e Illas, e Illas, graças à Deus!! amo você, minina que me comove...smackssssssssssss no coração...estava com sôdadis di ocê!

Felipe Ferraz disse...

Belo texto.

O medo é algo que nos consome aos poucos. E quando nos damos conta, ele já tomou todo o nosso corpo, de toda a nossa vida.

Abraços

vimaguin disse...

...há, minha pequena! quanta honra poder contar com seu carinho, seu amor por esta simples alma aprendiz, que te ama tanto também!...um link da minha humilde choupana, aqui neste palacete de emoções, não é para qqr um, vou até colocar meu vestido mais bonito, passar baton cada vez que eu quiser desfilar por aqui, e assim me comportar direitinho pra não fazer feio aos letrados frequentadores..."cêdêxa" né, amore?...aicomoeusouxikimyGod!...muahhhhhhhhh, lindeza!

Carolina Sperb disse...

"o sossego não se mexe e o que é parado é perigoso. tenho medo de necrosar, ter que amputar..."

ma-ra-vi-lho-so.

também temo o que não se move, o que não muda, o que não se deixa mover...
não precisa ter medo de necrosar. essas coisas acomodadas não são para você.

beijo, minha querida.
adoro ler-te cada vez mais!!

João Neto disse...

Camilla,

Só para cair no lugar comum digo-lhe que você está qual vinho, sempre melhor. Adorei a imagem da ciclovia do pensamento. Rastros fininhos, e o pior, um sobrepondo-se ao outro, ao outro, ao outro e não saberemos qual pensamento foi o de quem. Alto lá! Os seus eu saberei, por que são bem seus e não há o que confundir.

Bjos.

Alice disse...

Conheço bem esse ar que nos infla e nada tem de puro. Tem amor nos seus textos e cores. É um parque de diversão e você, mulher moderna que escreve feito louca.
Estou lendo Camilla Tebet também. Não inclui essa leitura na pergunta que você fez.

Alexandre Henrique. disse...

O olho do furacão e um ponto de vista dentro dos vários pontos de vista que saem deste olho, disfarçado de ciclo de vida, o furacão é forte e no centro o ponto. Nem mais nem talvez, somente a vida. Mais um texto fenomenal da Camilla. Pois é moça hoje eu enxerguei umas coisas neste texto, pena que não da pra explicar tudo. Mas Tb foi indefinido.