terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ding dong


Pára, sua ordinária, pára que daqui a pouco essa palavra não tem mais acento. Pára na porta da casa, fique aí de pé, esperando alguém abrir . Depois me dará razão. Não vão abrir e ficarás com esse sorriso congelado, esperando o calor da porta aberta. Serás uma cena besta de filme bobo. E eu dou risada dessas cenas. Dou mais risada ainda porque a protagonista da asneira é você, sua boba. Ontem estava pensando exatamente nisso, que você chegaria aqui toda ingênua esperando que te abrissem a porta. Parece que eu previa a cena. Será isso? Será que você está ficando previsível. Como você é agressiva. Pra que me chamar de previsível, de tonta? Eu quero ficar aqui na porta com esse meu sorriso de quem gosta de sorrir. E você está com inveja da minha capacidade de esperar. Fica aí cuspindo sua raiva infantil. Então tá, continue esperando que eu vou-me embora pra ver aquele gado que te falei. No capitalismo me comporto como capitalista, vou comprar gado. E ainda diz que eu que protagonizo cena de filme bobo. Você não entende nada de gado e vai comprar bois. És tola também. Então tá bom, vamos sentar aqui na soleira. Espero com você pela porta. Vamos esperar juntas pra ver quem tem razão. Ding dong, din dong campanhia que ninguém atende. Ding dong som que ninguém ouve. Ding dong na sua mente esperançosa.
Ta ficando frio aqui, não está? É verdade! E acho que não vão mesmo abrir a porta. Ah, mas você me fez esperar até agora e eu perdi o gado que queria comprar. Vamos esperar mais um pouquinho. Ding dong na esperança do capitalista. Ding dong na esperança do ouro do tolo. Você viu quantas estrelas tem o céu? Vi, ta lindo mesmo. É, isso quer dizer que amanhã será um dia quente. Coisa de esperança. Mas olha, eu não quero passar a noite toda aqui, esperando o sol de amanhã. Então vamos desistir. Mas eu te disse isso muito mais cedo, que era tolice esperar que abrissem a porta. Se tivessem que abrir já teriam feito. Tá bom, eu me rendo, você está certa, vamos embora. Não dá mais pra ver o gado? A essa hora não. Ding dong na esperança de novo. Vamos comer alguma coisa então? Vamos, vamos comer um bom steak já que você não comprou o boi. Ding dong no gado. Ding dong. Esse carro está com um barulho estranho. É mesmo, só faltava o carro quebrar agora, nessa estradinha deserta depois de termos esperado tanto pela porta que não abriu. Eu te avisei, te avisei. Agora reza para o carro não quebrar. Podemos parar ali ó, parece bom. Bom nada, é o único, vamos parar. Um steak por favor, bem sangrento. Pra mim uma cerveja moço, depois eu como. Primeiro quero beber pra esquecer que estou até agora com essa tola, esperando por uma porta que não abre. Ding dong na fé. Ding dong na memória, ding dong na consciência. Por que você é tão agressiva comigo, me chama de nomes a todo momento, precisa mesmo disso? Não preciso não, mas estou com raiva por ter esperado tanto. Você não está? Não, esperei porque quis, assim como você, porque poderia ter ido ver o gado e me deixado lá, quem sabe eles não teriam aberto a porta se não te vissem ali? Agora está dizendo que não abriram a porta por minha causa? Era só o que me faltava, depois eu é que sou agressiva. Vamos fazer o seguinte, cancela os pedidos e vou embora pra casa, não agüento passar um minuto sequer desse dia com você. Moço cancela o pedido, por favor. Ding dong.


Foto de castanias, deviant.

12 comentários:

Narradora disse...

Nossa, pareceu eu com ela, quer dizer, comigo...rs
Gostei do texto.
Bjs
Ps: Estou abstraíndo o fato de ser a primeira...rs

Paradoxos disse...

grande viagem lírica!!!
belo

beijão!!

Fabrício Persan disse...

delirante...
me veio um monte de cenas na mente. Um acúmulO de coisas jorradas fora da garganta !
Sempre tenho esse tempo de Cuspir.
O texto me pareceu o meu tempo de cuspir !

opa... viajei... hahua..
abçO honey.

Pia Fraus disse...

Bom dia, mais nova Clarice! Amei, adorei, vibrei, eu li!

bjos e até

Ana disse...

Ai, não entendi direito.
Será que sou meio burra?
Favoritei e me inspirei, de qualquer forma.
Nem me importa se for burra.
bjs

Xavier disse...

como se diz lá na minha suadosa Iraquara, "esta Tebet é um veneno"...

força!

alua.estrelas disse...

Adorei demais... Gostoso, leve, envolvente. Tudo na medida exata pra gente querer um pouco mais.
Beijos!

vimaguin disse...

...êita!! quantas "campainhas" você já tocou sem que ngm a atendesse? quantas "portas" ficaram fechadas pra ti, até hoje?...ou melhor: quantas "campainhas" e quantas "portas" já se abriram pra vc, minha linda Camilla Lispector?...te amo um montão assim óóóó´...smackssssssssssss...vou nanar para melhorar as olheiras cansadas...rsss

Alexandre Henrique. disse...

Uau um genuíno espelho de cristal puro. Nesta história não tem boas nem ruins, poxa Camilla este jeito que tu escreveste, avançando e retrocedendo o tempo, expandindo e contraindo o ambiente, logo pra falar de esperança e de esperar, que se confundem, e logo quando tem um espelho bem grande na porta, e definitivamente: de dupla face reflexiva. Ah mas este espelho não é um espelho comum, claro, é feito da condensação de infinitos espaços-tempo, que podem se expandir em um momento, mantendo-se neste estado ou condensando tudo de novo debaixo de sua casca de noz espelhada. Waaa A campainha nunca para, a parte de dentro do espelho é igual à de fora, mas quem toca não enxerga a mesma coisa de quem esta dentro. Dividir uma imagem olhando pra um espelho waaa, é difícil :P, :~~~~ ~~~~~~ .
Agora não sei se o encontro, consigo mesmo, é mais fácil do que o encontro com o outro. Coisa de Camilla shsh. Dividiremos então...Ding dong é um divisão realista, mais como se divide a luz? Ah esta danada se espalha, mas o calor atravessa um espelho :P, sendo verdade é claro.
P.s Sua linda :P, linda mesmo escrevendo, ¨Moço cancela o pedido por favor.¨ Linda, linda.
P.s. Caramba, Camilla percebi Hoje que estou com a tua mania de escrever ¨Coisa¨ é coisa disso, coisa daquilo :P , Como você diz : Sorry :** , shshsh Ah esta mulher é demais!
Beijo, Grande autora, obrigado pela viagem além dos filmes.Ah sim é claro seu eu realmente te conhecesse não ia perder a graça Porque o que você escreve é muito bom.

:)

Anônimo disse...

Gostei bastante do espaço.
A perspicácia do texto presumido, rogando os sentidos da inteligência...Dê uma olhada http://fotolog.terra.com.br/klictossan
ding dong pra vc também - tossan

Camilla Tebet disse...

Ana, tem coisa que a gente não entende mesmo. E eu falo muito "coisa". Qual o seu blog???

Camilla Tebet disse...

Ana, tem coisa que a gente não entende mesmo. E eu falo muito "coisa". Qual o seu blog???