quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sobre amor não se fala



Primeiro Ato
Escritora em crise. Cansada da casa, do escritório, do computador. O aquário está sujo. Os peixes morreram. O cachorro fez xixi na poltrona. Fede. Escritora com fome de comida que não tem em casa. Escritora em branco. Escritora não pode dirigir. O carro está quebrado e ela não tem dinheiro para consertar. No seu limite, conta o dinheiro na carteira e chama o táxi, que chega em 15 minutos.
- Rua dos Saudosos, 126, por gentileza.
- Pois não.

Segundo Ato
Escritora bate à porta. Professor dorme. Mas são quatro da tarde. Escritora toca a campanhia. Detesta campanhia e toca novamente. Professor sonha uma conversa com Machado de Assis. Não abre a porta. Escritora se desespera e chuta a porta. E berra. Professor acorda assustado. Corre à porta.
- O que fazes aqui a essa hora?
- Preciso de você.
- Pra que?
- Pra conversarmos.
- Sobre o que?
- Sobre o amor.
-Você está brincando.

Terceiro Ato
Escritora e professor nus na cama depois de terem transado. Ele acende um cigarro, ela chora.
- Não disse que queria conversar sobre o amor?
- Mas acabamos de fazer amor, diz o professor soltando a fumaça.
- Mas eu quero conversar sobre o assunto. E tem mais: transamos!, chora a escritora.
- Amor não se conversa, se faz, responde sem paciência o professor e volta a dormir.
A escritora enxuga as lágrimas, abre a carteira do professor e pega um pouco de dinheiro emprestado. Chama o mesmo táxi que chega em outros 15 minutos. Não os mesmos.
- Rua dos Amorosos, 303, por favor.
- Pois não.

Quarto Ato
Escritora muito mais triste e menos branca volta para casa. Toma banho . Lava o corpo pensativa. Professor disse que sobre amor não se conversa. Ela acha que sim. Escritora sai do banho e não se enxuga, anda pela casa nua e molhada. Pega telefone e disca para o professor.
21012101
- Alô, atende o professor.
- Sou eu de novo.
- Me acordou.
- Você só dorme, é por isso que não conversa.
- Só durmo coisa nenhuma. Acabamos de transar, 3 vezes.
- Pensei que tivéssemos feito amor. Você disse que sim.
- Ok, tanto faz.
- Mas foi um amor do qual não se conversa, não é isso?
- Isso mesmo. Acho que você está sem inspiração para escrever. Está buscando palavras para um texto sobre o amor, certo?
- E se for? Que palavras você me daria?
- Essas que te dei na cama.
A escritora chora. Não precisava de inspiração do professor que dorme, para escrever seu texto sobre o amor. Isso seria quase impossível. Só queria mesmo era falar de amor. Falar, e era só isso, e precisava ser com ele, um quase desconhecido. Poderia ser antes ou depois da cama, por isso ligava agora.
- Vou desligar, disse a escritora.
- Ta bom, despede-se o professor.

Quinto Ato

Escritora, ainda mais cansada, senta em frente ao computador desligado. Poe a caneta em cima de uma folha branca. Acende o abajour e um incenso, já é noite. Um cigarro e prepara-se para um texto de amor, que nunca vai escrever. E não escreve mesmo. Mas rabiscos relaxam e ela se acalma. Duas horas depois está descansada.

Sexto Ato
Escritora dorme ainda nua, não mais molhada. Sonha com.....

21 comentários:

Xavier disse...

Sim, Tebet.

Daniel disse...

o professor que outrora transou na ilha de Lost rsrs. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

vimaguin disse...

...falar de amor, é banal..."fazer" amor, é vício...praticar o amor, é divino...escrever sobre o amor, é divagação...e divagando entramos em alfa, com roupa, ou sem roupa...rsss...smacksssssssssss

Jaque Lima disse...

Essa história me lembrou Lóri e Ulysses. de Clarice Lispector. o professor que queria ensinar ela. na verdade precisava aprender. ela ensinaria mais tarde. mas essa coisa de amor. precisava sentir. só assim entenderia...

Beijo...
Lindo texto!!!

Alexandre Henrique. disse...

Ah sua danada, pq vc fica escrevendo sobre estas coisas, tristes..... :~~~~~~~~.
A pobre precisando encontrar alguém, porque na sua casa está tudo abandonado. Foi logo se bater com um professor de que tem saudades, mas ele só se lembra da prática, e não queria nem conversar pq na teoria dele transar e fazer amor é mesma coisa. E isso a deixava muito triste. Já ela sabia sentir, e queria encontrar um quase desconhecido, pq assim saberia se ele seria capaz de sentir. Alguém que realmente não precisasse ensinar nada a ninguém, por isso foi atrás do professor, achando que ele, passado o tempo seria um desconhecido, que ainda sabia sentir. Que decepção, ele só lembrava a transa, e mesmo assim dormia satisfeito. Acredito que não que ela tivesse mudado, ele que nunca lhe conheceu de verdade. É por isso que ela chorou o tempo todo.... e com não tinha como conversar com a autoridade de um professor . Ensinou a ultima lição a ele: sonhou com alguém igual a ela.
Sua linda
Shshsh ai ai este texto ein ?
Aff é de prender a respiração.
Beijos... Adorei, vc é uma danada sem dúvidas.
;***

Alexandre Henrique. disse...

E continua ser um texto triste, por que fala de um grande amor perdido....:~~~~.

Aquela 'par', que virou ímpar. disse...

essas nossas complicações.
fazer o que??????
haha, muito bom.

Narradora disse...

Gostei do texto.
Ao contrário do professor acho que a gente fala, e como fala de amor - de amor perdido, de amor achado, de grande amor, de quase amor, de falta de amor...
E a gente complica bastante também...rs
Bjs

Alexandre Henrique. disse...

Camilla vc esta certíssima! Adorei seu comentário sua linda! Eu pesei demais quando disse tinha fim, aliais, moça você impressiona viu, hoje reli o seu texto e percebi isto. Ashuah esta história de ousado , ta pegando viu, ai ai, Camilla Tebet ---> Amo ler este blog!!

P.s Aqui estou eu enchendo sua caixa de comentários.. shshs, sua oculta ! shsh :* , serei oculto, sejamos ocultos, todos nós.

Beijos Moça :) :***, estou esperando próximo Tb.

Moça do par de olhos preciosos: P

---> ;)

Sinceramente, Alex.

Alexandre Henrique. disse...

p.s 2 Ah sua danada vc está sempre certa até quando sorri :), deve ser os ouvidos... :**

Alice disse...

Camilla,

Leio seus textos e sempre me espanto. Mas esse, do que conheço de seu trabalho, foi o grande ato. Sei o que sentiu depois que o escreveu. É a sensação de ter vestido a roupa certa e conhecer alguém que valha.

Perfect indeed.
Bjs, escritora.

E a gente que escreve, precisa de palavras mesmo. Falar de tudo e ser.

Adorei.

Dauri Batisti disse...

Bom, muito bom. O sonho no final parece esboçar um sentido (uma "função") para a literatura. Parabéns. Beijo e bom fim de semana.

Fernanda Pereira disse...

E eu poderia e deveria comentar um monte de coisas sobre esse texto e sobre o que se fala e faz com e por amor. Mas...fiquei aqui pensando o quanto eu tenho falado desse sacana desse tal "amor" e o quão pouco tenho feito. Sou obrigada a concordar com o professor!

bjs

Friendlyone disse...

A peça não me lembrou ninguém, mas como sempre me deixou a pensar. Gosto das personagens loucas, depressivas, agitadas, procurando o que possivelmente nunca vão achar.

Beijos!

Máa ;* disse...

muito bom o seu texto, mesmo!
parabéns, me deixou sem palavras.

Janaina Fainer disse...

simplesmente não consigo comentar no flog
mas passo por lá
linda sua foto
otimo texto
aqui então, falae o q?
beijos mil

Janaina Fainer disse...

poxa, precisa linkar o sete graus aí

beijossssssssssssss

Clarissa Marinho disse...

Texto ótimo,algumas passagens e palavras são um nocaute.Não sei se amor se vive,se faz ou se fala.Sei que,qualquer forma que se pense se sinta ou se viva o amor,ele faz uma falta danada!
bjo

Ella disse...

Adorei o texto.
Fiquei pensando sobre isso de falar do amor. Quando a gente tem um amor simplesmente não precisa falar...

victor disse...

Sem essa de foto. Pode-se ver claramente que sua alma é bela. Deculpe a invasão. bj

victors.gomez -
projetos sociais artes

Ricardo Jung disse...

1 ato - escritora sendo curada, e preparando sua despedida... os guias têm que partir, não tem jeito

2 ato - A o quê?!

3 ato - ai ai... confusão da carne que distorce o Espírito

4 ato - se tivesses um binóculo, quiçá haveria uma possibilidade de encontrar o amor, bem longe

5 ato - esfrega esfrega esfrega!

6 ato - sonha com um dia nascer de fato.


sim sou eu, Sr. Dono da Verdade