quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Em lugar público


No meio do parque fui pega sozinha,mas cheia de gente à minha volta. Eram vozes estranhas de espanto, sussurros discretos de nojo. Berros de asco não demoraram e continuei grande, sem poder ser carregada. Olhei para todos os lados, todos os caminhos me levariam para o mesmo lugar. Pra que sonhar? Eu não conseguiria escapar. Estava presa antes de ser presa. Prenderiam-me porque sangrei longo, num espaço público. E as vozes ficavam mais e mais altas. Matem a anticristo, eu ouvi. Vozes loucas. Eles são loucos e não eu, que sangro de vísceras que se movimentam enquanto sou. Anticristo nada. Cristo não está aqui para eu fazer oposição. Cristo morreu há muito e dizem que por nós. Eu duvido que por mim. Eu não existia.
Quem sabe se daqui por diante me algemam e me levam logo, assim acaba a humilhação. Que mal tem em sangrar e admitir que Jesus morreu?? Eu não sou nada além de animal vivente, ouvindo vozes raivosas, palavras que não conheço e que agora não posso aprender, pois estou acuada.
Quer dizer alguma coisa antes de ir, moça? Quero dizer nada não senhor. Arrastaram-me, com uma pequena multidão atrás de mim, usando daquelas palavras que não lembro conhecer. E não conhecer essas palavras me deixa livre para uma infinidade de definições que podem transformar esse momento de humilhação em alegria. Estou sendo levada porque sangrei e falei alto em lugar público. Partilho todo meu corpo com quem me arrasta. Deixo-me encostar e assim sou levada. Talvez eu devesse estar embriagada. Como da última vez que me embebedei. O caminho foi lindo, eu não estava só e experimentei um plural de alegria que me lembro bem. Agora uma grande tristeza começa a tomar conta de mim. Ah, sim estou sendo levada para um lugar melhor e minha boca está rachada em tantos pedacinhos. Deve ser por causa do sangramento em lugar público.
As pessoas ainda me olham e eu também quero vê-las. Quero ver a todos que puder. A vida me encanta, as pessoas são encantadoramente maravilhosas, mesmo as que me xingam. Porque são pessoas, porque existem, porque ficam de pé. O corpo humano e suas possibilidades sempre me encantaram. Lembro-me quando assisti à uma luta de boxe. Tantos murros, tanta violência, e o corpo que não cai. Resiste firme, de pé, para manter o mundo vivo. Cada corpo sobrevive para a vida continuar. O corpo não é egoísta. O corpo se dobra, me lembrei. E gritavam para que a anticristo que sangrou fosse presa. E a voz humana então? Que bela mágica isso é? Tons diferentes. Entonações emocionais. Minha mãe não muda a voz quando está brava comigo. Deve ser a única.
Não durmo há vários dias e talvez por isso não esteja entendendo ao certo o que está acontecendo, mas continuo encantada. Pode ser que para onde estou sendo levada eu tenha a chance de dormir. Como é importante para um corpo se esticar, relaxar. E pode ser que meus olhos fechem e eu me transforme em meus sonhos. A vida? É uma carta que ainda estou escrevendo. Partes à tinta, partes à sangue. E o sangue me traz punição. Queria encher meu coração de água do mar. Encher meu peito. Ser, talvez, socorrida e levada para o hospital, feliz e contente por estar lotada de água do mar. Sinto uma alegria absurda quando penso na água do mar.
Parece que ouvi uma voz amiga. Vocês a estão levando para onde? Opa, você veio me salvar? Não, acho muito bom que esteja sendo levada, só quero saber pra onde?Vou pra onde o que é meu não cabe, sua curiosa de merda. Sabia que você seria assim. Sempre me telefonou nos dias errados, sempre sumiu quando mais precisei. Vá, vá presa que é o melhor pra você! E você, morra de inveja, pois nunca vai sangrar como eu sangrei hoje. Fui freira pecadora em parque público e você foi apenas uma péssima amiga que me ligou em dias errados.
Estou dentro de mim e é um mundo que vejo. Quero lhes contar a minha maior dificuldade. Saber o que é ou não aceitável fora do meu corpo. Que cheiro faz parte do que pode? Escolho, seleciono e vou fazendo cortes internos que me permitem sensação. Conforme ando, sinto meus órgãos mexerem, reagirem ao movimento, mas nunca sei o que é aceitável.
Anda mais rápido moça, senão vamos ter que carregá-la. E essas pessoas que vêm atrás de mim? Estão no direito delas de seguir uma criminosa. Agora então sou criminosa e nem sabia. Continuarei errando. Enquanto meus olhos verem, enquanto eles piscarem os intervalos do que não posso, continuarei errando.
Sorri a todos, fiz isso na melhor das intenções. Intenções, hã?? Mas não sou compreendida porque não faço o aceitável. Minha cabeça tem caminhos tortos de medo e me defendo fazendo o inaceitável. Acho que estou sempre atrasada, quando não estou. Acho que nunca vai dar tempo. Tempo dá! Só que faço a escolha errada. Bato nos muros, como cega, bato nos muros. Tento tantas coisas. Para mim não existem limites. E sempre faço sorrindo, com a certeza de ter companhia. Como quando abri a jaula dos macacos. Pensei que estava certa, de verdade. Como quando era criança. Menina baixinha, sem dentes e dois rabos de cavalo. Pele fina e sandálias menores que meus pés. Como quando era menina. Me machucava e tinha certeza de que para sarar o machucado era preciso que ele doesse mais. Pensava assim: se doesse tudo o que tinha pra doer logo, não doeria mais. Então sempre apertei meus machucados, sempre aumentei minhas dores. Não sabia que a dor não tem a ver com prazo. Não importa se doer muito agora. Se tiver que doer por muitos e muitos mais dias, vai doer. Assim, essa eu aprendi. Mas de vez em quando ainda caio na tentação de faze doer tudo de uma vez aí eu sangro em espaço público.
Estão me levando, eu não sei pra onde. Nunca sei pra onde estou indo. Pelo menos as pessoas se afastaram e pararam de gritar. A raiva é mais ou menos assim. Já me insultaram bastante, agora podem ir em paz para suas casas de portas fechadas. Podem abri-las e contar a todos que fazem sentido, que são convenientes e conhecem os limites.
Eu admito, continuo sem limites e estou sendo levada para não sei onde. Sangrei em lugar público e isso é inadmissível. Deixei correr de mim o que tinha dentro. Ou todo mundo não tem sangue? Tem, né? Mas o meu sangrou muito. Eu achei que a dor fosse doer toda, depois passar. Vou acabar presa por achar que dor é pra se mostrar. Já vai moço, tô indo!

17 comentários:

vimaguin disse...

...em cada esquina, em cada canto desta imensidão de mundo, neste exato momento tem alguém em pedaços, desmanchando-se em vales de medo pelo que não nos dão o direito de saber...sangra-se então, letras em desabafos...amo você, princesa!

Dionísio e a Revolução do Orgasmo disse...

Seja bem-vinda à Casa da Mãe Joana! O excêntrico poleira de mutilações & joie de vivre!! Também descansarei minhas asas no seu recanto.

Beijos & POESIA INFINDA
Essa coisa que não conhecemos e chamamos de VIVER

Cadinho RoCo disse...

Numa mistura de dor e resignação o corpo reage questiona e sangra por sua liberdade então aprisionada.
Cadinho RoCo

edson marques disse...

Presa antes de ser presa... e Cristo não morreu por ti:

Essas duas metáforas já te definem, deliciosamente!



Abraços, flores, estrelas..

poetriz disse...

Ih, eu sou dessas também. Eu devo ter uns 5 blogs no mínimo. Não resisto a um assunto novo e quero logo criar um blog só pra aquilo.

E de visitar o seu. Já vim aqui hoje umas 10 vezes no mínimo. Só não deixei rastros.

E do seu blog novo... cadê o link???

Bjs!

poetriz disse...

O ruim de lá é que é muito limitado. Mas a coluna lateral fica lá no "aparência, complementos". Vc tem que escolher pra colocar um "texto". E então digitar os códios htmls da vida...

Bjs!

poetriz disse...

E se vc cansou daqui por causa do template, eu tenho até uns templates legais pra indicar.

Agora se realmente quer ir pro wordpress, ele importa o blogspot. Todos os posts e comentários. Pelo menos isso está salvo. =)

poetriz disse...

Vou colocar dois links que achei fácil, mas se nada te agradar, conheço um terceiro excelente mas esse tenho que procurar com calma.

http://templatesparanovoblogger.blogspot.com/search/label/Templates

http://blogsmadeinspain.blogspot.com/search/label/plantillas

Bjocas!

Jaque Lima disse...

ela insultava padrões. mostrava a dor. e não entendia o que o convencional lhe explicava. não queria compreender. nem ter limites. não precisava saber para onde estava indo. qualquer lugar bastava. de tanta dor. nada mais importava.

Beijo moça!

Alexandre Henrique. disse...

Waaa pega em publico dizendo que esta pronta para ter um ser orgânico e inorgânico!!!! Este texto é demais, é sair correndo pra um canto privado na certa, mas privado de que hshsh, de multidão que não vai ser shshs genial! Excesso de sangue e excesso de amor, e o sacrifício é provar que não se pode morrer pelo que não existe. Tentar encurtar o tempo só se for compartilhando a dor, pra ser espremida de vez . Mas a vida continua do mesmo jeito.... só revela-se a verdade sobre a dor ou sobre o prazer. O crime esta em falar a verdade, ainda mais em público shshh!.
Fantástico Camilla, você neste texto uniu o que é ¨ Mítico,sagrado, inorgânico. ¨ ao que é ¨Orgânico, sensível, real.¨ , Confrontando a esfera pública com a privada, dentro dos limites de um ¨Eu¨, que ultrapassa os seus limites físicos e emocionais, naturalmente. O ser humano renovasse, se P* DENDO, shshsh. O duro é enfrentar a resistência.
Ah como é bom ler esta linhas, adoro;)
Beijos Moça :*.

Daniel disse...

Cristo não morreu nem por ti, nem por mim. Mentira inventada pelo cristianismo pra aprisionar as mentes e corações humanos. Sangrar tem de ser só, sem multidões. A sentir dor é um ato íntimo, e incompreensível aos olhos alheios. Bjus e mais um magnífico texto.

http://so-pensando.blogspot.com

vimaguin disse...

...olá minha lindezura, estava eu passeando via mouse, numa preguicinha maneira, eis que me deparo com a Clarice...é claro que nela vejo você...ou vice-versa, como queiras, apenas com uma sutil diferença...ela já no andar de cima, e você no primeiro degrau...rss...leia isso:

"Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar."

(Clarice Lispector)

não tem a sua cara, esta maneira de expressar-se?

muahhhhhh

poetriz disse...

Bom, primeira dica seria vc salvar toda a sua lateral num arquivo de texto. Tudinho, tudinho. Desde links, até os endereços de imagens.

Depois eu conto o restante, vou tentar passar por email. É mais fácil.

Bjs!

mundo azul disse...

Ótimo texto!
A dor é comum a todo ser vivente...


Beijos de luz !!!

Narradora disse...

"Não sabia que a dor não tem a ver com prazo."
Você me lembrou do tempo em que eu também não sabia, fazendo intensivão de sofrimento pra ver se acabava logo...rsrs
Embora a dor de cada um seja individualizada (absoluta e pessoal), é também universal pois não existem dores novas: as perdas se repetem, as dúvidas se renovam, acho que o que é da nossa essência muda pouco.
Talvez por isso, pela dor do outro trazer a nossa, seja inadmissível sangrar em lugar público.
Bjs

Alexandre Henrique. disse...

P.s O último texto que escrevi foi pra vc :P, em sua homenagem :)

Alexandre Henrique. disse...

Ah sim camilla meu e-mail é henrique alex@hotmail.com, coincidências ein, adoro frango com cogumelos não mágicos shshs. Estou tão feliz que vc tenha gostado :), fiquei com medo que vc interpretasse como um resumo, pois não é, estas coisas nunca são resumos. Adoro tua presença por lá.
Beijos, Alex