domingo, 19 de outubro de 2008

De quem é a dor? Então....


Ela desligou o telefone e sentou para chorar. Tinha que chorar sentada. Despedir de um amor de pé não importa, mas chorar tem que ser sentada. Pensou em ligar de novo, falar mais, pedir desculpas pelo que sequer tinha feito, dizer que eles poderiam se dar uma nova chance, mas só chorou. Sabia que dali em diante pensar naquele relacionamento só poderia trazer choro, nada de esperança. E no fundo era isso que sentia também, sabia que os dois não tinham sido felizes juntos. Sabia de tudo e muito mais, mas chorar ao se despedir de um amor é inevitável.

Chorou sentada por quanto tempo pode. E quando o chorou acabou, levantou para a tarde que estava cheia de vento, abriu as janelas e todos os papéis que estavam em cima da mesa voaram. O vento estava realmente forte. Tinha que sair, comprar comida, passear com o cachorro, tirar dinheiro e fazer essas coisas que se faz num domingo à tarde depois que se despede de um amor e se chora sentada. Mas ainda precisava falar. Ainda precisava que ele a ouvisse. A ligação era internacional e muito mais cara do que ela estava podendo pagar no momento. Pegou o celular e começou a mandar mensagens

SMS – Eu não queria que fosse assim. Ainda não consigo sentir que tudo acabou.
E saiu de casa, como celular na bolsa, cheia de ânimo para receber uma resposta. Supermercado. Algumas frutas e material de limpeza. Nenhuma resposta.
SMS – Estou muito machucada, tudo o que combinamos deu errado, tudo foi errado.
Posto de gasolina, encheu o tanque e tirou dinheiro para segunda-feira. O dinheiro estava acabando. Acabaria em breve. Nada de resposta. Guardou o carro em casa e saiu para passear o cachorro com o celular na mão.

SMS – Responde não me deixe falando sozinha!
No meio do passeio com o cachorro começou a chover. Sempre chove na hora errada. Ela sempre tem a sensação de que as coisas acontecem na hora errada. Os amores, os desamores, os trabalhos, os desempregos, o tempo, o dinheiro, tudo na hora errada. Sua vida tomava rumos sozinha, não sentia ter o menor controle sobre as coisas e isso a angustiava.
Sem resposta.
Pensou em viajar, em largar tudo e ir visitar o irmão que mora fora. Pensou em mudar-se, estava na hora de morar sozinha de novo, pensou em dizer a um cara que estava afins dele, mesmo apesar de estar vivendo a despedida do amor, pensou em contar ao analista que queria se relacionar de novo . Lembrou da amiga que acabou de separar e já beijou cinco cara. Pensou tudo absurdo. Não queria que nada tivesse acontecido assim. Sem resposta.
SMS- Não me ignore, responda.
Pensou na segunda-feira. Tinha uma reunião para um trabalho novo e não queria ir, tinha eu ir à academia e suas pernas falhavam, tinha que escrever e sua cabeça não conseguia sair de alguns quadrados. Não queria a segunda-feira. Não queira aquela semana. Queria parar no tempo e só voltar a contar quando as coisas estivessem mais fáceis. Mas quem não quer isso? Abusada você menina, quem não quer isso?
Sem resposta.

SMS – Certo, ok, a dor é minha, vou vivê-la sozinha, não precisa responder.



Foto by ~Mahini - deviantart

11 comentários:

Aquela par que virou ímpar. disse...

a gente sempre insiste.
essa musica de fundo é tudo.
eu adoro te ler moça.

Vivian disse...

...insistir, persistir, buscar, entender, aceitar, aprender...eis a receita do viver!

te amo, moça linda!

bjussss

Jacinta Dantas disse...

O amor e seus desencontros tão bem detalhado nas suas letras. E a dor que dói no desamor é de dá nó no olhar de quem a sente.
Beijos

Daniel disse...

Esse teu texto fez doer a minh'alma... Todo o fim é chato, da mais quando a dor parece ser só. Mas a vida segue, toma seu curso natural... Bjus e boa semana.

http://so-pensando.blogspot.com

Letícia disse...

Bem, cotidiano meu esse aí. Supermercado, msg, chorar, ficar sozinha ou cheia de gente. Você faz umas fotos quando escreve. Isso sim é verdade. E chorar sentada é bem melhor.

E eu estou migrando para:

http://leticiapalmeira.blogspot.com/

Você sabe. Não sei ficar quieta. Mas tudo é o mesmo ou um pouco diferente. E não perco você de vista. Por isso venho avisar.

Bjs.

Letícia disse...

Ah, e visita tb o Bilhetes. Tá no meu perfil. Só tem gente boa escrevendo por lá. Inclusive eu. :)

Calu Baroncelli disse...

ah!
essa chama de amor que mata. Corrói, dói e rói. Sofrimento é ponto de vista, e dor que quanto mais mata, mais nos mantém vivas.

*Carol Carolina* disse...

olha eu aqui.....num cantinho novinho!!! =) beijos

Assim que sou disse...

O que realmente choramos quando sabemos que algo ou alguém nos faz mal, decidimos romper com aquele caminho dolorido e ainda assim sofremos. Choramos nossa dor, a dor do outro ou a dor que nos causa chorar. Não sei! Somos sempre reféns desse medo da perda,mesmo quando tudo que queremos é nos perder de nós mesmos. A famosa hora de virar do avesso e tentar descobrir lá dentro a chave secreta dos caminhos tortuosos. Porque ela deve existir!!! A nossa grande aventura é procurar, Camilla. Você está no caminho também.

beijos. Veronica

Ricardo Jung disse...

é tudo o q estou vivendo, e causando

mas não me arrependo

obsessões existem pra serem destruídas

João Neto disse...

A dor é sempre nossa. Intransferível. Tatuada e sacramentada pelo padre. A dor é sempre nossa e vamos em frente.