quarta-feira, 9 de setembro de 2009

E a coisa de matar continua






Ela fugia de mim na rua. E eu correndo atrás, desesperada. Estava perdendo minha personagem. A coisa está escassa, não posso perder mais essa. Mas dessa vez peguei uma atleta, que me fez lembrar como fumo. Ela pegou uma avenida movimentada e qualquer ação aqui é perigosa. Corre feito Lola e eu corro feito louca perdendo o fôlego, mas sem desistir. Ela entra no ônibus olha para trás e não me vê. Sento bem atrás dela. E nada de tiros em ônibus. Encosto minha boca no ouvido dela e digo “ agora é sua hora”. A moça morreu de enfarto no mesmo instante. Vai ver não era tão atleta assim.

Nos víamos todas as noite no mesmo café bar perto de casa. Ele já chegou a sorrir para mim. Mas seus ternos parecem muito antigos, daqueles com couro no cotovelo. Fico imaginando que ele cheira a naftalina. Ele sempre carrega um livro embaixo do braço e eu carrego tudo o que encontrei naquele dia. Minha arma sempre comigo. Me intriga o fato de ele carregar um livro só. Ele não fuma, não tem celular e seu sorriso é míope. É preciso por um final nisso. Vou ao banheiro, capricho no batom vermelho e o chamo com os olhos,ele entra no meu carro. Dirijo para longe com poucas palavras com o homem antigo que fala muito. Um tiro na nuca. E mais nada.


Essa mulher já viveu boas histórias, ouvi dizer. Tem coisas para contar. Usa vestido que ela mesmo costura. Sua casa tem canteiros e jardim. Seu cabelo é arrumado todos os dias por ela mesma. Ela sorri a quem passa. Ela rega as plantas. Ela rega as plantas. Ela rega as plantas. E quando me dá as costas, toda a água cai num vaso só, e ela em cima.

E assim, como há um tempo, venho matando. E sem medo de confessar aqui os meus crimes. Mas a coisa esta ficando difícil para mim, os personagens tem poucas chances de viver histórias. A coisa está um crime.



Image: run by ~dkraner

11 comentários:

Calu Baroncelli disse...

às vezes viver é isso, uma violação dolosa e culposa pra gente mesmo. Há contravenções que simplificam tudo, porque tudo é breve mesmo, né?

Calu Baroncelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vivian disse...

...querida minha,
mate tudo que lhe incomoda.
menos esta capacidade de
encantar a todos, como faz
comigo em cada vez que
degusto teus mágicos posts.

não fuja...

continuo te amando...
rsss

smackssssssss

Germano Xavier disse...

Somente o que posso dizer a ti, Tebet, é que continue matando. Gosto de teus cometimentos.

Sincero abraço.
Sigamos...

Lucas C. disse...

hahaha!
cara, isso é demais!
muito bom!

Branca disse...

Morreu...

F. Reoli disse...

Porra, nas suas mãos até o "crime" fica agradável ( de se ler...rs )

Bom que atualizou. tava com saudade de te ler. E escrevi um texto sobre a lei anti-fumo pra revista eletrônica Lingua Pop, de dois caras bacanas lá de Porto Alegre e queria te convidar pra ler não só esse texto, como toda edição que os caras prepararam. Segue o link: http://linguapop.wordpress.com/2009/09/10/opiniao/
Beijos

Jaqueline Lima disse...

será que todo mundo morre um pouco a cada dia?

caso isso aocnteça literariamente, pode-se dizer que você não é uma assassina, mas alguém que faz vários dias passarem rápido na vida de alguns personagens...

beijos bonita!

Kumamoto disse...

a mulher que tem varias mortes nas costas que eu ja vi!
:)

hehehehehe

adoro esses seus textos, parabens e continue assim!

tossan® disse...

Gosto dessa tua metáfora, essa utopia e esse teu jeito de escrever. Beijo

PS: Gostei mais do teu comentário lá no klic do que do meu poeminha.

Germano Xavier disse...

De camarote, assistindo ao seu espetáculo.

Sigamos, bucaneira amiga.