sábado, 21 de junho de 2008

SEM HISTÓRIA



Hoje eu acordei para escrever uma história. Só para uma história, depois volto a dormir. Uma história curta ou longa, ainda não sei. Uma história difícil ou fácil, estou esperando ver como está o tempo aqui dentro para decidir. Acordei querendo ver mundos para escrever a história. Todos os dias acordo para escrever histórias. Mas hoje é uma história do que sei. A história do meu mundo. Do meu mundo de verdade e não da ficção. Sem rimas, estrofes ou métricas, pois isso eu não sei.

Acordei com raiva do que não dá certo para escrever histórias. Acordei brava com o copo de água que tomo de manhã. Na verdade esperando inspiração de amores em cartas, esperando inspiração na letra alheia. Esperando chuva de idéias à qual sempre fui grata e hoje sinto saudade. Histórias de Camilla. Histórias assim, dessas cheias de percalços. Cheia de quereres e de decepções. Cheia de controles e descontroles. Acordei para dizer a mim mesma que minha história de hoje eu vou escrever.
O que fiz e o que faço, do que pode ser chamado? Amor, crueldade, falta de amor. Esperança, descrença ou rebeldia? Não vou ligar para ninguém, não vou pedir ou esperar
desculpas.
Hoje, quando eu acordar de verdade quero usar um vestido bonito e arrumar o cabelo. Fazer as unha. Sorrir à minha imagem no espelho. Quero me ver hoje. Ver como sou de verdade. Ver quem é que anda brigando tanto e com tanta força para ser feliz. Quero ver quem é essa pessoa que dorme pouco e não sonha nada. Sou eu. Preciso me ver hoje. Preciso tomar conta de mim e para isso escrever história.
Ontem fiquei presa no farol, o pneu do carro murcho e comi carne que não gosto. Falei o que devia, ouvi o que não merecia e assim foi minha noite. Não, não escrevo poesia como você. Eu sou escritora de letras cruas, ainda imaturas e repetitivas. Me explico a cada texto e isso limita minha criatividade. Uso figuras que queria pra mim para melhorar meus cenários. Minha narrativa é longa porque para mim as histórias demoram a acabar. Duram. Nem espero que leiam, já que escrevo para descobrir só a mim. E ser lida seria vaidade demais.
Se engana quem pensa que sempre falo de mim. Hoje sim, preciso falar de mim para me proteger da raiva. Preciso falar dessa menina de trinta e tantos anos que ainda tem medo do mundo e morre de vontade de cuidar de quem ama. Preciso falar da menina que cresceu rapidinho e depois resolveu virar menina de novo. Da menina que chora ao ouvir música e briga quando as coisas que não são verdade. É dessa menina que preciso falar, ela acabou de acordar.
Não tenho outro nome para mim, a não ser Camilla. Aquela que está tentando escrever histórias. Camilla que sorri para todos por vontade de estar bem. A Camilla que pede e recebe ajuda e acha isso um grande passo da vida adulta. Hoje preciso escrever sobre a Camilla de verdade, que não chora mais a cada minuto, mas quando chora são lágrimas que doem antes de cair.
Uma Camilla que não tem a menor idéia do futuro. Acredita sim, que é escrevendo sua história todos os dias que o futuro vem. Mas anda sem letras, e assim sem futuro. Estou com medo de ter perdido tempo demais. De ter dado atenção ao que não dará certo. Tenho medo de ter entregado o que tenho de melhor à toa. E sabe, entregamos coisas boas até elas acabarem. Acabam.. Sobra só a cota que devemos usar para nós mesmos. E aí, quem está ao nosso lado fica sentindo falta. Talvez eu devesse procriar, sentir o amor de um ser que vem de mim. Mas não acredito no mundo. Não acredito no futuro de gerações que destroem. Tenho medo de ter um filho e ele não ter água pra beber, simples assim. Confesso, tenho medo também de não conseguir mais escrever a minha história e ter que ajudá-lo a escrever a dele. Ainda sou escritora de minhas histórias.
Disseram que meus heróis morreram de overdose e é verdade. Mas meus amigos não morreram e os de verdade estão por aqui. Mas quantas vezes ainda vou acreditar em amigos de mentira até me dar conta que os de verdade, feitos até agora, conto em uma mão e devo mantê-los banhado no amor? Quantos filmes ainda tenho que assistir para perceber que o amor se dá assim, tão imperfeito como algo que se move com o vento. Tão surpreendente quanto um pneu furar no meio da estrada.
Não digo que não viva com algumas certezas como companhia. Sim, as tenho. E são de amores que estão sempre aqui e nunca acabam. Ah como são bons esses amores. São firmes e fortes, são amores de suporte. São amores que doem sentir de tão fortes, mas só coisas boas me trazem. Eu digo, vivo dizendo, que amor é palavra de quatro letras. O que acontece é uma mistura de vários sentimentos que carregam a promessa do incondicional e essa promessa tem se renovado a cada dia.
Acordei de cabelos soltos e pijama frio. Normalmente tomaria banho, trocaria de roupa e esperaria o dia acontecer, afinal hoje é sábado. Mas decidi diferente. Ainda estou com pijamas e não vou esperar esse dia acontecer. Vou fazê-lo de história escrita aqui e o que não acontecer aqui, my darling, só em sonho, porque volto a dormir.
Ontem à noite, uma noite de abandono como outra qualquer, eu vi estrelas e previsão de frio para hoje. Surpresa: hoje não está frio! A vida é assim, cheia de surpresas. E reclamo delas. Preciso um pouco de controle. Assim está difícil escrever histórias.
Sempre soube que um dia pararia tudo o mais para escrever histórias. E surpresa: não as tenho conseguido escrever tão bem. Têm sido letras cruas e sem beleza de dias calmos e equilibrados. É o preço. E quando dizem que tudo tem um preço eu não posso refutar. Tem mesmo, eu vivo pagando caro e esperando o troco que não vem.
Se a loucura me visitasse de novo talvez pudesse dizer mais. Mas a deixo lá longe, a Sra. Loucura, sentada de pernas cruzadas, cara de poderosa e com todas as minhas palavras num saquinho em suas mãos.
Ando tentando chegar perto dela e pedir que devolva minhas palavras. Mas quando me ouve ela tampa os ouvidos e ri. Lógico que tomo cuidado para não chegar muito perto. Então minhas chances de pegar minhas palavras de volta está ficando menor a cada dia. Porque as palavras devem estar lá dentro daquele saquinho escuro, cansadas de esperar, misturando-se de forma aleatória e se perdendo do destino que eu daria a elas.
Pensei em pegar o dicionário e tentar roubar algumas palavras de volta pra mim. Eu tenho um dicionário grande, tentei fazer isso. Mas não adianta. Arrastei umas palavras comigo, mas esqueci que na outra mão a Sra. Loucura guarda o meu saquinho de idéias, as minhas idéias. Então estou aqui com um monte de palavras, mas a loucura continua com as minhas idéias. Até gritei, sabe? Pedi encarecidamente que ela me devolva minhas idéias e ela me disse, sem dor alguma, que para me devolver eu teria que chegar mais perto, muito perto. E eu estou sem coragem. Estive com ela há pouco e não foi legal. Quero distância dessa ladra, que me levou o que tenho de mais precioso, as minhas idéias. Tentei negociar, para ela me devolvesse pelo menos as idéias, palavras eu encontraria por aqui, no jardim do equilíbrio. Mas não! Ela é categórica nas suas exigências. E não estou disposta a ceder a elas. Então fico sem escrever minha história de hoje. Essa que acordei para escrever e prometi a mim mesma que faria. Sem história.

12 comentários:

edson marques disse...

Viva a Sra. Loucura!


Sem ela, nunca seríamos lúcidos!



Abraços, flores, estrelas..

Alice disse...

Texto de escritora e mulher que quer viver e escrever, mas a linha é curta e não nossa imaginação. Li tudo, Camilla. Li porque senti a dor da espera. Pensamos em escrever, fazer platéia aplaudir nosso texto, fazer outra verdade, mas a história acontece ao contrário. Somos nós, escritoras ou senhores, quem aplaudem o próprio show. Não há quem venha com felicidade e cara de doação ler um texto seu e dizer belas palavras e ornamentar seu blog, sem que pressione os olhos para ver falhas ou mesmice ou até sentir uma certa inveja. Tem um frase do Bono Vox que diz que "Todo poeta é um ladrão." E assim também são os escritores. Roubamos idéias. Roubamos de um livro, de uma cena na TV, de um acontecimento qualquer. Mas não há desmoralização nisso. Os grandes escritores também fizeram isso. Quantos não devem ter acordado com cara de "Onde estão as palavras?". Aí vem uma letra solta aqui, uma palavra qualquwer, um jogo que ninguém entende e lá vem crítico falar em Eu-Lírico, quando na verdade, era só uma vontade de escrever algo que fosse bom, digno de aplauso e pronto. Você sentiu vontade de escrever, escreveu seu texto, escreveu sobre a Camilla como você acredita que seja e sobre a loucura que rouba a inspiração. Isso é criação. Criar não é fazer novidade a cada hora ou respirar feito peixe. Você criou o que já era texto antes de ser texto. Alguém deve saber o nome dessa teoria, admito que não sei. Só sei que leio e texto assim me dá vontade de dizer que ainda haverá água para seus filhos - se vc tiver filhos. E o Cazuza também falou sobre os fãs de hoje, lembra? São eles que amanhã não irão aplaudir sua cena. Hoje vem gente e diz que adora. Amanhã estamos entregues aos livros ou a solidão mesmo. Escrever basta. Você escreveu e eu li.

Processo de criação é chorar por amor ausente. Um dia faz sentido, no outro, não estamos mais preocupados. Você é escritora.

Letícia

João Neto disse...

Poderia resumir meu comentário apenas confirmando as palavras de Letícia. Mas vou dizer mais um pouco. Escrever é juntar palavras, sejam cruas, líricas, mentirosas ou verdadeiras. Escrever é revelar histórias e hoje você revelou uma história pungente e verdadeira. Sua história em busca de histórias para colocar no papel. No pain, no gain, certo? Então continuemos assim, todos nós escritores, sofrendo em busca de palavras para colocar em nossos textos.

Bjos.

instantes e momentos disse...

Uau, muito bom, gostei de vir aqui. Parabens.

Narradora disse...

Eu leio seus textos longos, gosto deles, já falei isso algumas vezes.
Não acredito que tenhamos cotas predefinidas: de coisas boas, de coisas ruins, de sentimentos, de criatividade, de amores, de paciência (bom, de paciência as vezes eu acho...rs).
Acredito em escrever passos, em voltar e refazer caminhos. É verdade que a água acaba, que o mundo nem sempre é o que se quer, que tem dia que simplesmente não acontece...
Quanto às suas palavras, acho que estão todas à sua volta, onde sempre estiveram.
Bjs

alua.estrelas disse...

Loucura dizer que apesar de ter escrito sua história, parte de mim estava em cada linha?
Essa busca, o encontro, o desencontro, os questionamentos, as respostas, as dúvidas... Cada um na sua história e com histórias tão semelhantes...
Mais uma vez, vc foi demais. Assim, como quem não quer nada.
Beijão!!!

Clarissa Marinho disse...

Nossa,imagina se a loucura tivesse te devolvido tuas idéias!Texto nervoso,intenso,mas que rendeu!
=)

Mariah disse...

tantas vezes passo minhas madrugadas assim. com as histórias, escritas ou não escritas, a me atormentar. as vezes elas saltam a tela branca, as vezes não, simplesmente engasgam na garganta e não saem...não importa o que faça...não saem.

acredito que o mundo e o homem esteja melhor...quem destruiu o mundo foram nossos pais e nossos avós...nossos filhos está bem mais conscientes e cuidadosos...se alguém irá salvar o mundo, serão eles.

mariah
amei seu texto. sem pretensão de ser poético...simplesmente sentimento.

Edson disse...

Cada vez mais a vejo como uma obra de arte - imperfeita, corajosa, sensível, inquieta, louca, instigante, verdadeira, de um otimismo cruel... Sou sempre tocado com por sua sensibilidade. Por um momento tão íntimo e tão docemente descrito. É bom partilhar esses momentos com você. Bjs com amor... E até o próximo jantar.

Edson disse...

Cada vez mais a vejo como uma obra de arte - imperfeita, corajosa, sensível, inquieta, louca, instigante, verdadeira, de um otimismo cruel... Sou sempre tocado com por sua sensibilidade. Por um momento tão íntimo e tão docemente descrito. É bom partilhar esses momentos com você. Bjs com amor... E até o próximo jantar.

Assim que sou disse...

Li todo o texto e fiquei pensando de que partes desse todo gostaria de comentar. Melhor ainda: de dividir. É curioso esse processo de dividir histórias. Elas nos permitem criar livremente os personagens. Eu criei você na minha mente a partir de seus textos. Certamente você faz o mesmo quando me lê. E é essa interpretação livre, com toda a licença poética que a distância física nos permite, que me faz dizer que te vejo como a menina de verdade que você tanto questiona. Porque viver é isso...Esse mar de dúvidas e indagações. Esse universo de idéias que, não raras vezes, se escondem de nós, empobrecendo nossa alma ou até nos protegendo de nós mesmos.Já te disse que sou mais velha que você, mas o tempo cronológico não existe quando vemo-nos todos diante da mesma encruzilhada. É fato que algumas pessoas, talvez melhores e mais felizes,não pensam tanto sobre todas essas questões. Não vivem se perguntando o porquê. Mas você vive e eu também. Se isso é tudo uma grande armação da Sra. Loucura, que assim o seja. Porque se dar conta disso é, pelo menos na minha humilde visão,uma libertação.
Adooooooooooro seus textos longos. Sou prolixa também. E me controlo muito no blog para não escrever verdadeiras bíblias.

bjs. Veronica

Vivian disse...

...sem que percebas, minha linda, vives a tua história com tamanha intensidade e emoção, mostrando que a loucura é o caminho mais saudável prá se viver por aqui...perguntas prá quê, se já temos todas as respostas embutidas nas mesmas?...obrigada pelo convite...esta humilde alma sentiu-se muito importante em poder adentrar este santuário de altas reflexões...muahhhhhhhh