domingo, 24 de agosto de 2008

Sem pontuação

Não vou mais para país algum, o transporte de idéias anda ruim. Para ir teria que parar de pensar e dormir mais. Não durmo, devo ficar por aqui mesmo, sentada ao lado do cachorro que não passeia porque não pode sair sozinho. Errado essa coisa de cachorro não passear sozinho e precisar de coleira. Coitado do pobre, não goza de liberdade alguma. O cigarro anda apagando muito rapidamente e eu quase não tenho tempo de fumar. Tenho medo de ir a lugares que tenho que ir amanhã. Preferia não ter que ir a lugar algum e ficar aqui, como o cachorro e com ele. Quem sabe assim o cigarro demoraria mais para apagar e eu teria mais tempo para fumar. Assim como tomo água toda hora, água é bom pra mim e eu não sei mais o que dizer às pessoas. Cada hora é uma idéia, cada hora é uma coisa. Qual é a bola da próxima vez? Eu nem sei mais se continuo chutando com a mão trêmula de qualquer lado que eu olhe. Ontem tinha um menino sentado no muro ao lado da minha casa. Ele vestia shorts, nem preciso dizer curtos, já disse em inglês. Eu pensei em ir falar com ele. Mas se ao menos eu tivesse uma pipa, quem sabe conseguiria conversar com ele. Mas, sem pipa. Eu estava sem pipa e estava só ouvindo o começo de uma música. Adoro quando as músicas começam. Ainda mais quando não sei quais vão tocar. O começo de toda música é bonito. É uma surpresa boa ao ouvido. E esqueci do menino no muro ao lado. Assim como esqueço de todos os meninos e não me apego a muros. Tudo isso porque não dá tempo. Tenho feito as coisas sentadas. E sentada cansa a coluna e deitada cansa também e de pé não dá pra escrever. Falar não vale. Escrever é que vale. Acender o cigarro devagarzinho, queimando as beiradas e depois deixando-se queimar. Assim como fazem comigo. Deixam-me queimar. E eu fico inventando músicas pra chorar, achando que choros encerram sentimentos. Não encerram nada. Na ilusão de poder esqueço que não escolho a hora das coisas. Elas acontecem sozinhas e fico olhando a careca do homem que passa na rua. Pensando que ele ou eu, naquele momento, poderíamos morrer atropelados e ai seria uma bagunça na família dele ou na minha. Ambulâncias com sirenes tocando me fazem chorar quando passam. É a coisa da música de que estava falando. Esses dias sonhei com o espírito da salvação. Na verdade foi um pesadelo horroroso. Não sei por que ele se chamava salvação. Vai ver no sonho me dei conta de que salvação é o fim de tudo. E nem dicionário de etimologia isso precisa. Salvação é o final. E o espírito estava na portaria, me esperando sair. No sonho eu consegui escapar. E agora tenho certeza de que me deram o remédio errado, porque nem dormir eu consigo. Vou tomando água e pensando. Pensando e tomando água, como se não precisasse fazer sentido algum.

14 comentários:

Anônimo disse...

Olá!!!
Vim lhe fazer uma visita!
Adorei seu blog!
Até
http://sex-appeal.zip.net
http://cara-nova.zip.net

Dauri Batisti disse...

Buscamos sentido, o tempo todo, e isso cansa. Pensar sem fazer sentido é bom... é pensar-por-poesia nos sentidos. Beijo.

Dani disse...

Eu não sei o que encerra sentimentos. Mas choro eu concordo com você que não é...

Jaque Lima disse...

Não tenho tempo pra algumas coisas. outras passam despercebido. algumas nem passam. então vou beber água. e esperar. depois acendo um cigarro e deixo ele queimar. assim como eu.
Demais seu texto.
diria essencial!

bjo menina!

Assim que sou disse...

Enquanto eu lia teu texto veio-me à cabeça uma frase do poeta T.S. Elliot que uso quase como um mantra: " E tudo é sempre agora".
Já tinha te lido com esse olhar, mas hoje, mais do que nunca, pensei nessa imagem alegórica de que as angústias nos empurram para uma verdadeira hecatombe de idéias e imagens e conceitos que se atropelam e nos atropelam.
Mas nem pense que vejo nisso um equívoco. Pelo contrário, sempre acho que as tsunamis d´alma são o que nos empurram prá diante. E o diante é sempre melhor. No fundo, penso - ou sei - que você também pensa igual.

bjs. Veronica

israel disse...

nada na vida faz sentido..
isso e a delicia de se viver..

belo texto!

bjo!

Janaina Staciarini disse...

É incrível o quanto eu gosto de vir aqui e ler as coisas que você escreve. Sempre me dizem algo.
Beijos, Camilla. Muitos beijos.

gab disse...

ah..o auto-atendimento e eu temos uma relação um tanto dramática..
ainda mais quando aparece aquele aviso "sistema temporariamente fora do ar"...

mas boto fé q um dia as pessoas vão parar de assaltar os bancos..e vão começar a explodi-los...muahahá!

=)

gab disse...

gosto daqui.

=)

A Senhora disse...

eu me senti como nos dias em que deixo os pensamentos correrem soltos, como um cachorro sem coleira, feliz da vida, que corre para lá e para cá e até atrás do seu próprio rabo. deixando até mesmo a angústia ir e vir. é gostoso esse exercício de liberdade...

beijinhos.

Daniel disse...

Não ter sentido vez ou outra, é a melhor forma de ter algum sentido. Bjus e boa semana.

http://so-pensando.blogspot.com

Alice disse...

Esse é o famosos fluxo de consciência. Um monte de pensamento juntinho criando confusão e chegando sempre ao destino certo. Gosto muito de seus textos, Camilla. Você mistura cachorro e ambulância e não se queima quando escreve. E espero que os cigarros durem o tempo suficiente para outro texto.
Bjs.

Alexandre Henrique disse...

¨Cada hora uma idéia, cada hora é uma coisa. ¨ Ah Camilla que agradeço a sua generosidade por compartilhar esta sabedoria. Poxa este tempo corre mesmo, corre sem deixar agente sonhar, corre sem deixar agente transpor além. Aqui escrever parece ser livra-se dele, mas talvez seja apenas por a pontuação necessária.E tem outra: Salvação é o final! Sem dúvidas.
Mas ser pipa é bem melhor, fica entre o complexo e simples, a felicidade de uma criança...
E sobre as pontuações...
Este texto tem tristeza e tem cadência e é bonito como um bom samba.

vimaguin disse...

...e aí vem a pergunta: o quê significa isso, que não significa nada?...um pouco de Nilismo na madrugada...bjsssssssssssss com amorrrrrrrrrrrr